Luciano Salles é quadrinista, ilustrador freelancer da Folha de S.Paulo e 1/3 da Produtora Cultural Memento 832.
Autor das Histórias em Quadrinhos Limiar: Dark Matter (2015, Publicação Independente), L'Amour: 12 oz (2014, MINO) indicada ao 27º HQMIX, O Quarto Vivente (2013, Publicação Independente) indicada ao 26º HQMIX e da HQzine Luzcia, a Dona do Boteco (2012, Publicação Independente).

2.10.16

Desenho para o interior do encarte do álbum REMONTA, de Liniker e os Caramelows

Desenho para o disco Remonta, banda da amiga Liniker e os Caramelows
Foto da gravação no Red bull Studios
por Luciano Salles
Olá, tudo bem?

Há um ano uma amiga que você provavelmente já ouviu cantar e iluminar o ambiente por onde passa, lançava um single em vídeo no Facebook. Junto da trupe de outros amigos aqui de Araraquara, surgia a banda Liniker e os Caramelows.

Acompanhei tudo de perto, fui a muitos ensaios (que acontecem na casa do meu irmão de alma e hoje cunhado, Pericles Zuanon) e vi muita coisa acontecer.

Quando a banda estava gravando o disco Remonta no Red bull Studios São Paulo, fomos eu e minha esposa Lilian Penteado, para acompanhar o dia com eles e  a gravação. Enquanto o dia se desenrolava no estúdio, notei que alguns integrantes conversavam sobre a arte do disco, cores e vários outros aspectos que envolveria a mídia física, ou seja, o álbum. Em determinado momento, o baixista e também um dos produtores da banda, Rafael Barone, veio até o sofá onde eu estava e me perguntou o que eu achava que deveria resumir em uma imagem tudo aquilo o que estava ouvindo.


Disse que ficaria atento para todas as sensações que me tomasse para depois passar para ele. E foi assim. O dia foi passando, ouvi praticamente o disco todo que não estava nem mixado e pude perceber e sentir muito ali.

Passar o dia com amigos e música é aquela mistura mágica em que as horas tomam forma de segundos e pronto, já havia escurecido e encerrado a sessão de gravação. Voltamos para Araraquara e me antecipei ao convite que me fariam no dia seguinte: faria o desenho que fica dentro do encarte do disco. Recebi da produtora as diretrizes e paleta de cor do que deveria fazer.

Foto do encarte de REMONTA


O que aconteceu foi que siga a risca a paleta de cor e mas não o que queriam para o desenho. Havia ouvido o disco, conhecia a origem das músicas composta pela Liniker e saber que aquele disco estaria em breve nas mãos de muitas pessoas que podem ou poderiam estar passando por tudo que a Liniker passou, exigiria algo mais intuitivo de mim.

Quando sentei para desenhar fiquei pensando: como será que é ser negro, gay e uma pessoa que viveu dificuldades financeiras na vida? Por mais que tentasse imaginar ou mesmo tentar fazer esse exercício mental, nunca saberia, impossível. Decidi partir para o fato de o desenho estar enclausurado em determinado espaço físico da caixinha do CD. Foi dessa forma que pensei e desenhar um corpo se contorcendo (para além dos limites humanos) tentando se encaixar, para se encontrar, se aceitar e por que não, se Remontar? O intento de se moldar aos parâmetros mas quebrando toda estética aguardada, quase como se fosse um segundo nascimento, não um nascimento instintivo e programado pelo tempo da natureza e sim, com uma consciência emocional, atemporal e corporal.

Desejo sinceramente que alguém que tenha o disco e esteja ouvindo as músicas, olhando para o desenho do encarte, se questione, se aceite, abrace de supetão seu amor logo ao lado, ligue para a pessoa ideal para confessar seus desejos, aflições e amores de vida.

Seu comentário é sempre muito bem vindo!

Um abraço.

Luciano Salles.

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