Luciano Salles é quadrinista, ilustrador da Folha de S.Paulo e 1/3 da Produtora Cultural e Editora Memento 832.
Autor da histórias em quadrinhos EUDAIMONIA (2017, Publicação independente/Catarse), Limiar: Dark Matter (2015, Publicação independente), L’Amour: 12 oz (2014, Editora MINO), O Quarto Vivente (2013, Publicação independente) e da HQzine Luzcia, a Dona do Boteco (2012, Publicação independente).
Contato: lucianosalles@dimensaolimbo.com

25.6.18

Cable

Cable por Luciano Salles
Olá, tudo bem?

Faz 14 dias que não atualizo o blog. Gosto de atualiza-lo semanalmente e a postagem que iria fazer era se havia sido, ou não, aprovado para ter uma mesa na CCXP 2018. A data da divulgação dos selecionados era para ter sido no dia 20/06 mas foi prorrogada e agora somente saberei se participo da Comic Con Experience no dia 10/07.

Decidi então fazer o post com esse Cable ainda em preto e branco. Essa era uma postagem que estava programada para ser feita somente com o desenho já colorido mas, por alguns motivos, decidi antecipar. A causa, discorro logo abaixo.

Sou um desenhista e quadrinista autodidata, que vive em Araraquara, interior do estado de SP, e que tem pouco contato com a maioria dos meus colegas de profissão, que vivem na capital do meu estado, outros na Paraíba, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e tantos lugares diferentes. Enfatizo isso pois ajudaria muito se em um desenho meu ou história, houvesse alguém que, logo de cara, dissesse que aquilo não está legal ou coisa assim. Desta forma, aprendo com erro atrás de erro, o que também, pra mim, não é problema.

Entretanto, tenho a imensa sorte e oportunidade de ter um grande artista, que passei a chamar carinhosamente de "sensei", que por vezes puxa a minha orelha, me diz para prestar atenção em como faço algumas coisas e me convida para ir visita-lo para mostrar – e, como ele mesmo diz, arrancar meu sangue – como posso melhorar meu trabalho em alguns aspectos. Esse amigo é o Rafael Grampá

Neste desenho do Cable, estava incomodado, achava o desenho duro, algo me incomodava e não conseguia resolver o que me afligia. Chamei o Rafael mostrando o desenho a lápis e logo, em duas ou três palavras, ele disse o que eu precisaria fazer. Pronto! Aquelas poucas porém assertivas observações resolveram o desenho. Ele ainda pegou a imagem que envie na conversa e fez uns rabisco em cima para eu entender exatamente o que disse. Só posso dizer que é realmente uma honra e um privilégio que isso possa acontecer.

O desenho da forma que me incomodava
O desenho com as observações do Grampá
Outro artista que fez uma critica muito construtiva ao meu trabalho foi o Gabriel Bá, quando nos encontramos no último dia do FIQ 2018. Ele havia lido EUDAIMONIA (minha última publicação) e no festival, em um conversa despretenciosa, entramos no assunto da minha nova HQ. Ele me convidou para ir até seu estúdio em SP para me passar algumas orientações que poderão potencializar meu trabalho porém, não podia perder aquela oportunidade e pedi para me adiantar alguma coisa ali mesmo.

Ele foi extremamente gentil e em 10 minutos de conversa, recebi um feedback fantástico que me abriu os olhos para alguns detalhes que nunca havia percebido e que poderiam melhorar meus desenhos e histórias. Mas uma vez, só posso dizer que é realmente uma honra e privilégio poder ter somente dois artistas incríveis que fizeram e fazem isso por mim. O foi a primeira vez mas o Grampá, desde quando comecei a fazer quadrinhos, está ao meu lado.

O FIQ 2018 foi um evento lindo que pude perceber muitas coisas que devo mudar. Minha percepção estava extremamente aguçada nos dias do evento e pude sentir tanta coisa, desde os quadrinhos que ganhei, os que comprei, os quadrinistas que encontrei, os colegas, pessoas e amigos que com o tempo mudam, mudam muito. Aproveitei bastante o silêncio do meu quarto de hotel para ponderar muitas coisas. Aliás, o tempo faz das suas e é por essas e outras que vivo o agora. Afinal, só posso viver o agora pois o futuro não existe e o passado é imutável. Sempre lembrando que só foi possível ir ao Festival internacional de quadrinhos de Belo Horizonte com o apoio cultural da escola Peri Domus Araraquara.

Voltando o foco ao post, para desenhar o Cable, esse personagem tão "bagunçado" cronologicamente, geneticamente, que vai para o futuro, passado e é usado por vilões oportunistas, recorri ao vídeo do Pipoca e Nanquim, "Tudo sobre Cable: origem e trajetória nas HQ"para saber mais sobre o que desenharia. Espero que tenha gostado do trabalho.

Ainda vou fazer as cores e nesta etapa sempre conto com o Marcelo Maiolo, outro grande artista, que sempre me auxilia com dicas e detalhes no colorir desde 2014.

Torço para que tenha gostado do post, do desenho e fique a vontade para deixar seus comentários. Todos serão devidamente respondidos.

Um abraço.

Luciano Salles.

11.6.18

Vale a pena vincular lançamentos de HQ aos eventos de quadrinhos?

Minha mesa no FIQ 2018 com EUDAIMONIA (2018,
independente), Limiar: Dark Matter (2015, independente)
e O Quarto Vivente (2013, independente)
Olá, tudo bem?

Por vezes escrevo textos sobre algumas reflexões que faço, sozinho, no meu isolamento interiorano e penso que, por esse aspecto, divulgá-los aqui seja uma boa forma de compartilhar essas análises com você que acompanha o blog.

Depois de participar da 10º edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte), comecei a pensar sobre o fato de vários artistas vincularem seus lançamentos aos eventos de quadrinhos. É claro que isso é ótimo pois junta o melhor dos mundos: um livro novinho esperando por consumidores em um evento onde estará o público que compra esse tipo de publicação.

Do ponto de vista do mercado e vendas (somos todos vendedores), é o momento ideal para se lançar um livro. Mas até que ponto isso pode garantir que sua HQ seja um "sucesso" de vendas? O que garante que um gibi venderá bem nesta conjuntura? Somente pelo fato dele ser novinho, cheiroso e estar no meio de muito dos leitores e colecionadores do país?

Os próprios eventos, em suas fichas de inscrição para seleção de mesa, sempre perguntam se você pretende lançar algum novo título no festival. Isso acontece praticamente em todo processo de seleção de mesa dos eventos.

Um adendo: na CCXP (Comic Con Experience) do ano passado, fiz o lançamento de EUDAIMONIA, meu mais recente quadrinho. Você quer saber se a venda foi boa? Foi excelente mas, menos do que esperava. O que houve de errado? Minha expectativa estava muito alta com o fato de ter um lançamento no maior evento de quadrinhos e cultura pop do país? Minha "frustração" quanto aos números de exemplares vendidos foi por eu ter superdimensionado o que poderia vender? Eu deveria ter me "frustado" por ter vendido tão bem?

Percebe como esse tema pode gerar muitos questionamentos sobre a viabilidade de casar novas publicações com as datas dos festivais de quadrinhos?

Voltando ao FIQ, conforme informação no próprio site do evento, havia 217 lançamentos nas mesas dos(as) artistas sem contar nos estandes. Aqui está o link para você conferir os títulos lançados em Belo Horizonte: todos os lançamentos do FIQ 2018!

Eu acho incrivelmente fantástico o tanto de títulos que está sendo produzido mas o seu ficará pulverizado entre tantos outros lançamentos (será mais uma HQ de 217 avos). A não ser que você seja um(a) quadrinista categoria Champions League, sua HQ vai ficar fragmentada entre tantas outras.

Resolvi elencar, pelo menos, 5 (cinco) pontos positivos e negativos em associar seu lançamento a um evento. Vamos começar:

PONTOS POSITIVOS
• Sua HQ e seu nome serão citados(as) no site do evento (como no link acima);
• Sua HQ e seu nome também serão citados (as) em sites de quadrinhos que também fazem esses levantamentos;
• Você vai para o evento feliz da vida com sua nova publicação;
• Suas vendas poderão ter um incremento considerável devido ao seu novo trabalho;
• Sua HQ vai gerar curiosidade e com isso atrair mais leitores(as) até sua mesa.

PONTOS NEGATIVOS
• Expectativa alta em conseguir boas vendas do seu novo material;
• Ajustar seu cronograma de trabalho com as datas dos eventos para sempre ter algo novo;
• Trabalhar de forma rápida (e por vezes, não dando seu melhor) somente para conseguir lançar seu novo produto;
• Sentir-se obrigado a ter uma nova história em quadrinhos para cada evento;
• Acreditar que com uma nova publicação, suas chances de ser selecionado(a) para ter um mesa no festival aumentará consideravelmente;

Enfim, é um assunto vasto e subjetivo. Eu mesmo não acredito que um(a) quadrinista precisa estar com um novo título todo ano ou a cada ano e meio. No meu caso que escrevo a história e desenho, isso se torna cada vez mais verdade. Existe o processo de escolher exatamente qual história contar, escrever o roteiro, desenhar as páginas, arte-finalizar, escanear, fazer o letreiramento, o tratamento gráfico para a impressão e muitos outros detalhes no meio destes poucos itens. Além do mais, cada um tem o seu tempo para dar seu melhor.

E você? O quê acha de tudo isso? Seja você autor(a) de quadrinhos, desenhista, colorista, leitor(a) ou o que quer que o(a) vincule a esse mundo das HQ, deixe suas impressões nos comentários.

Grande abraço.

Luciano Salles.

8.6.18

Iniciativa legal da Câmara Municipal de Araraquara – Vídeo: Sou Arte, com Luciano Salles

Olá, tudo bem?

A Câmara Municipal de Araraquara criou uma iniciativa legal com sua TV Câmara. Convidou alguns artistas da cidade para falar sobre seu trabalho e esses mini programas são exibidos na TV aberta para toda cidade.

O quarto programa foi comigo onde conto um pouco de como é ser artista no interior do estado, falo sobre meus trabalhos, influências e como Araraquara foi fundamental na minha formação pessoal e artística.



Você é algo e por isso saiba que tudo e todos os segundos vividos (bons ou ruins), tiveram suas parcelas na sua formação como o ser humano que é. Existe sua parcela, é claro, afinal, você é você mas se ouviu e entendeu os preceitos do mestre Bruce Lee, "be water, my friend".

Um abraço.

Luciano Salles.

6.6.18

FIQ 2018: Saldão de balanço, encontros e o fiel da balança

FIQ 2018, por Luciano Salles
Olá. Tudo bem?

Somente na física e em condições específicas, como por exemplo na CNTP (para o estudo de gases), é que existem mundos ideais. Mesmo que esteja vivendo uma situação perfeita, um momento único e extremamente agradável, somos naturalmente impelidos, pela nossa ancestral ansiedade, a buscar ou supor que algo possa, de fato, interromper aqueles poucos momentos em que se percebe ser ou estar em estado de felicidade.

No FIQ 2018 foi bem assim. Lutei para simplesmente manter o foco com quem estava ali comigo, naquele exato instante, em alguns poucos segundos acumulados em uma conversa, entrevista, venda ou então, estando comigo mesmo, sentindo a oportunidade de estar ali, presente, naquele que se tornou o melhor evento de quadrinhos que participei.


Uma honra ter como vizinho de mesa o
underground do quadrinho nacional,
Franciso de Assis F***ing Marcatti
 
Um festival que foi cancelado em 2017, perigando não acontecer em 2018 e que então vem bem organizado, com muitos visitantes e artistas expondo seus quadrinhos, ideias e ideais. Poderia listar muitos itens positivos assim como negativos porém, o fiel da balança justificou sua honesta precisão.

É sempre muito bom reencontrar os(as) colegas e amigos(as) que são extremamente carinhosos(as) e cordiais comigo. Espero sinceramente que a minha recíproca seja tão verdadeira.

No tocante ao "saldão de balanço" – anunciado no nome da postagem –, confirmei que foi o evento que minhas vendas foram basicamente para leitores. Claro que todos nós somos leitores, entretanto existem os leitores que também produzem histórias em quadrinhos e foi neste aspecto que, por um levantamento junto da minha planilha de controle de vendas, constatei que aproximadamente entre 80% a 90% dos que compraram meus gibis eram "somente leitores".


O super casal Fora do Plástico,
representando todos os youtubers!
Você pode estar se perguntando: mas como é que o Luciano sabe quem produz ou não quadrinhos? Em toda venda que faço, geralmente converso de boa com a pessoa e é claro que o papo sempre é direcionado para desenhos, gibis, animação, filmes e então, tenho a resposta se aquele(a) determinada pessoa produz quadrinhos ou não.

Claro que esse percentual indicado tem suas margens de erro mas mesmo assim, fiquei extremamente satisfeito com esse potencial de "somente leitores" consumindo quadrinho nacional, mas deixando esclarecido que, esses números foram nos meus controles de vendas.

Pensei em fazer esse post de forma precisa com números, listando cada ponto positivo e negativo que o evento apresentou (na minha visão), valores, ressalvas, mas isso fica por conta da percepção dos organizadores, que enfatizo mais um vez, estão de parabéns pelo melhor FIQ que pude participar.

Agradeço o apoio cultural de 100% das minhas despesas pela Escola Pueri Domus Araraquara. Somente assim para ir a um evento tão longe de casa e poder trabalhar tranquilo, sabendo que tenho o suporte de pessoas tão especiais.


O mesão, pelo garçom extremamente
educado e cordial que nos atendeu e que,
infelizmente, não anotei o nome para
crédito da foto.
Fico no aguardo de seu comentário, se foi ao evento, se passou por minha mesa, o que achou do festival, enfim, deixe suas impressões pois todas serão respondidas.

Muito obrigado pelo visita ao blog, pela visita a minha mesa e muito obrigado, Mônica e Pueri ♥️

Um abraço.

Luciano Salles.