Luciano Salles é quadrinista, ilustrador freelancer da Folha de S.Paulo e 1/3 da Produtora Cultural e editora Memento 832.
Autor das histórias em quadrinhos EUDAIMONIA (2017, Publicação Independente/Catarse), Limiar: Dark Matter (2015, Publicação Independente), L'Amour: 12 oz (2014, MINO) indicada ao 27º HQMIX, O Quarto Vivente (2013, Publicação Independente) indicada ao 26º HQMIX e da HQzine Luzcia, a Dona do Boteco (2012, Publicação Independente), indicada ao 27º HQMIX.

20.7.18

Porquê todo quadrinista deve ter um blog? Post com 13 dicas

Olá. Tudo bem?

Se você já fez algum curso, oficina, aula ou mesmo participou de determinado bate-papo ou palestra comigo, com certeza me ouviu dizer para criar seu blog. Inclusive, pode ter me tomado por alienado ou qualquer outro adjetivo para lunático, quando enfatizei e agora reafirmo, que as redes sociais são efêmeras, seu tempo de vida estão contados. 

Meu avô materno, um franzino senhor extremamente carinhoso mas que podia explodir em fúria em poucos segundos, sempre me dizia que todo dia nasce um cavalo mais rápido que o seu. Eu o visitava todos os dias antes de ir para faculdade, depois antes de ir para meu estágio, depois antes de ir para o meu emprego até o dia em que ele quis e decidiu ir embora.

Resumindo o parágrafo anterior em dois itens:

– Todos os dias nasce alguém que desenha melhor do que você, escreve melhor do que você, colore melhor do que você, pensa melhor do que você, atua melhor do que você, tem um condicionamento melhor do que o seu, é mais rápido do que você, é mais forte do que você, mais sábio do que você, traduz melhor do que você, escala melhor do que você, é mais disciplinado do que você, enfim, o uso de tanto "você" foi proposital para lembrar que todo dia nasce um cavalo mais rápido que o seu.

– Tudo tem seu fim, seja ele desejado ou não.

Logo do ICQ que tanto usávamos nas madrugadas
Foram necessários dois parágrafos com dois itens para salientar que você deve criar o seu blog/site até mesmo pelo fato de que você não utiliza mais o ICQ ou o MSN, deve ter esquecido a senha do seu FOTOLOG, não deve utilizar o ORKUT ou o MYSPACE (que um dia já foi a rede mais popular do mundo). Da mesma forma, esse é o caminho do nosso Twitter, Instagram e do Facebook, que já apresenta os primeiros sinais de desgastes.

Como no começo do texto, você pode me considerar um tresloucado em sugerir que o Facebook vai acabar. Não estou sugerindo, estou afirmando. 

Ao montar o seu blog, você tem o controle das publicações, divulgações, atualizações, seguidores, visitantes diários (orgânicos ou não) e tantas outras vantagens que acredito que posso enumerar em alguns tópicos. Em alguns casos, para ilustrar, vou utilizar exemplos com imagens do meu próprio blog.

01. Você tem o controle da aparência de como quer seu blog;

02. Suas publicação serão somente sobre o seu trabalho;

03. De acordo com o item 02 e atualizando constantemente seu blog, você criará um portfólio de seu trabalho, o que é excelente! Ivan Freitas da Costa, um dos detentores da marca Comic Con Experience, enfatizou isso no "Manual de inscrição" (veja imagem abaixo) para os artistas que almejavam uma mesa no Artists' Alley.

13.7.18

O curso de Psicologia da Universidade Federal de Pelotas, usa "Limiar: Dark Matter" em sala de aula

Turma do quarto semestre do curso de Psicologia da Universidade Federal de Pelotas – RS, utilizou a HQ
"Limiar: Dark Matter" em sala de aula, orientados(as) pela Professora Doutora Airi Macias Sacco.
Olá, tudo bem?

Estava ansioso para fazer esse post.

O que mais um(a) autor(a) de história em quadrinhos pode querer com suas publicações?

Bem, de acordo com cada autor(a), as respostas serão variadas. No meu caso, especificamente, sempre almejo que meus álbuns alcancem novos(as) leitores(as) e conquiste terrenos ainda rarefeitos para o quadrinho nacional. Penso e já enfatizei isso várias vezes, na importância da imersão que o leitor possa fazer naquelas poucas páginas que foram muito pensadas, antes mesmo do roteiro ter sido escrito ou até mesmo de alguma página ter sido desenhada. 

Sempre gosto da possibilidade que a leitura possa agregar, através da bagagem cultural, social, psicológica e de vida, as mais diversas sensações e sentimentos ao leitor(a). 

A Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, entrou em contato comigo através da Professora Doutora Airi Macias Sacco, solicitando autorização para usar meu quadrinho Limiar: Dark Matter em sala de aula, como apoio para a turma do quarto semestre do curso de psicologia.

Enfim, a revista foi utilizada e recebi o e-mail Doutora Airi, relatando como tudo ocorreu e agora você pode conferir na integra esse lindo texto.

"Luciano,

Quando entrei em contato contigo pedindo autorização para utilizar a revista em sala de aula, com uma turma do quarto semestre do curso de Psicologia da Universidade Federal de Pelotas, não tinha muita ideia sobre como faria para utilizar o material. Quando li a HQ pela primeira vez, me encantaram as múltiplas possibilidades de interpretação que tua obra oferece. Isso está muito relacionado às discussões centrais que travei com a turma na primeira metade do semestre da disciplina de Teorias Humanistas: cada pessoa enxerga a realidade de uma forma e não existem duas pessoas no mundo que experienciem uma mesma situação de maneira idêntica. Qual é então a realidade verdadeira? Será que ela existe? Para as teorias humanistas, isso não importa. Importa apenas como cada um de nós vê o mundo. As teorias humanistas se opõem frontalmente às ideias deterministas e se baseiam na noção de que o ser humano está em constante movimento, e que se constrói a cada instante e em cada relação. Pensei muito quando li Limiar: Dark Matter pela primeira vez.

Bom... Ontem finalmente utilizamos a revista em sala de aula. Eu pedi que os alunos se reunissem em grupos de 5 pessoas para discutir sobre a história e tentar relacioná-la de alguma forma com as ideias que começamos a discutir na segunda metade do semestre, principalmente com a Logoterapia, de Viktor Frankl. Essa teoria está centrada na questão do sentido da vida e na ideia de que o ser humano é um ser incondicionalmente livre (te mando em anexo um pequeno artigo que resume algumas das ideias do autor, caso te interesse).

Não conversamos sobre a HQ antes desse trabalho porque eu não queria ter qualquer influência sobre o debate.  

Os pequenos grupos ficaram absortos na discussão como poucas vezes eu já vi, durante mais de duas horas. Fiquei circulando e ouvindo o que conversavam. Surgiram analogias com o mito da caverna, de Platão; com 1984, de George Orwell, e com Matrix, dos irmãos Cohen. Surgiram teorias sobre as roupas dos personagens. Surgiram teorias sobre os nomes dos personagens. Surgiram teorias sobre tudo, basicamente. Os alunos e alunas esmiuçaram detalhes que eu não tinha percebido nas quatro ou cinco vezes em que li a história. Foi incrível! 

Eles produziram pequenos textos durante a aula mesmo e te mando abaixo trechos que recortei de alguns grupos. Espero que gostes! Em termos didáticos, foi uma das experiências mais legais que já vivi em uma sala de aula e te agradeço muitíssimo por isso e por toda a tua disponibilidade! Te envio em anexo uma foto da turma com as revistas. Vale a pena dar zoom. Assim como ao ler a HQ, cada vez descubro uma coisa nova quando vejo a foto. Essa turma é boa demais! :) 

Forte abraço! 

Airi.

Grupo 1: 
"A história aborda a busca pelo sentido da vida. Amerício é a memória que acompanha Nádio e Carino. Essa memória propõe a busca pelo rompimento com o sistema imposto. Os personagens tentam romper com um estágio de inércia. Vivendo em uma sociedade imposta pelos metais, ou seja, aquilo que nos entorpece (redes sociais, mídia, etc...), romper com essa inércia pode significar liberdade. Pode ser uma escolha ou descoberta de um sentido para viver."

Grupo 2: 
"Quando Amerício deixa de tomar os metais representativos, cria um modelo possível de ser humano. Os metais representativos funcionam como inibidores da dimensão noética porque restringem as qualidades que diferenciam o ser humano dos demais animais, tais como a livre tomada de decisões. Quando o personagem suspende os metais, encontra possíveis caminhos de mudança."
"A mudança é simbolizada pela alegoria da baleia, que representa um processo de passagem. Quando o uniforme apresenta uma baleia formada, denota a mudança concretizada."
"Os personagens não buscaram a felicidade, ma sim a mudança, pois viviam a causa, a tarefa, a revolução."

Grupo 3:
"A intenção dos personagens não é só passar pelo mundo. O propósito, como eles mesmos dizem, é: 'sair deste estado estúpido de inércia'. Esse é o propósito. Engajando-se nele, não só recebem algo do mundo (valor vivencial), mas também ofertam algo ao mundo (valor criativo)."

Grupo 4:
"A sociedade apresentada na história é uma sociedade mantida sob controle (externo) pela ingestão dos metais representativos, que perpetuam um vazio existencial, e isso pode ser visto como uma alusão à nossa sociedade. A escolha de Amerício, de se negar a continuar ingerindo sua dose de metais, gera uma sequência de eventos, a começar pela sua memorização. Essa escolha torna relevante sua atitude essencialmente humana. A seguir, seus dois confrades decidem dar continuidade ao plano do memorizado e tomam uma ação para além deles próprios, dispostos a ir às últimas consequências em memória do amigo. Para trazer à materialidade os seus planos, se utiilizam de Dark Matter, que, segundo a cosmologia, compõe a maior parte do universo. Acreditamos que Dark Matter é um potencializador de ação, algo que permite uma maior possibilidade de escolhas."
"O ato rebelde revela uma forma de executar um sentido de vida. Essa atitude de enfrentamento mostra sua responsabilidade perante os confrades."

Grupo 5: 
"Nádio e Carino têm um sentido para a jornada que irão empretiar: vingar a morte de Amerício. Nesse processo, um outro sentido aparece, que é romper com o status quo. Dessa forma, dois elementos da tríade trágica são contemplados: o sofrimento e a ideia de finitude, causados pela morte de seu confrade, como motor para uma ação maior, responsável. Eles escolhem tomar uma ação contra a realidade totalitária em que vivem, fazendo uso das possibilidades que possuem dentro de sua liberdade, a partir de uma situação de sofrimento, como nas ideias de Frankl."
"A Dark Matter entra como instrumento que traz poderes e, ao mesmo tempo, parece que os faz transcender. 'Estourar no dente' é o refletir. Enquanto os metais representativos trazem a 'felicidade' imediata, individual, e até certo ponto alienante, a Dark Matter está carregada de um sentido maior. Segundo Frankl, a felicidade não será encontrada olhando para si mesmo, e sim na busca de algo externo, que reflita nos outros. Pode-se entender, ao final da HQ, que a felicidade, ou o alívio para as angústias, vem como uma consequência do ato de rebeldia."
"Segundo a ideia de Nietzsche adotada por Frankl em sua Logoterapia, 'quem tem um porquê na vida, suporta quase qualquer como'. Mesmo na realidade de um regime totalitário, se existe um porquê, uma razão, existe um sentido para a vida e pela luta para uma realidade melhor."

Airi M. Sacco

Doutora em Psicologia
Professora Adjunta
Curso de Psicologia - FAMED
Universidade Federal de Pelotas"

🙃 Preciso enfatizar o quanto essa foto representa para o meu trabalho e me deixa feliz?

Registro aqui meu agradecimento a Universidade Federal de Pelotas, a Professora Doutora Airi Macias Sacco e a todo(as) aluno(as) da turma do quarto semestre do curso de Psicologia.

Espero que tenha gostado da postagem lembrando que seus comentários são sempre muito bem vindos.

Um abraço.

Luciano Salles.

4.7.18

As cores do Cable com um "mini tutorial: dicas de contraste" pelo camarada Marcelo Maiolo

Cable por Luciano Salles
Cable por Luciano Salles
Olá!

Estava colorindo esse desenho do Cable e a peça final estava sem graça, sem um vigor chamativo.

Como sempre, enviei um mensagem para o amigo, parça e #redfootpower Marcelo Maiolo, que, impreterivelmente, me atende com uma boa vontade incrível e o que tive foi uma mini aula, quase um tutorial, de como resolver e entender o que estava sentindo com as cores.

Ah, você verá que, no meio da nossa conversa, ele mesmo sugere que daria um bom post sobre contrastes!

Enfim, esse desenho do Cable deu um certo trabalho. Geralmente não acontece isso mas desta vez foi assim. Você pode conferir (clicando neste link), no post anterior, onde discorro sobre as dificuldades e auxílios que tive para fazer o desenho. 

Eu sempre tendo a cair por um caminho de cores pasteis, mais suaves e, no caso de super-heróis, isso por vezes não funciona. Por isso, chamei o Maiolo para me ajudar dentro de algumas inúmeras (na verdade duas) variáveis: esse desenho, se assim decidir, pode virar um print e caso eu seja selecionado para o artists' alley da CCXP 2018, pode ser que leve para São Paulo.

O desenho original também está à venda e se estiver interessado(a), é só entrar em contato comigo pelo e-mail lucianosalles@dimensaolimbo.com

Bem, vou reproduzir por imagens nosso diálogo e ao final, deixarei o link com o arquivo do Photoshop que ele, generosamente, me enviou:

Conversa entre Luciano Salles e Marcelo Maiolo através do messenger 

Tudo isso que leu foi de extrema valia para mim e, agora, espero que seja para você. Afinal ele mesmo autorizou-me a liberar esse mini tutorial sobre contrastes além do arquivo do Photoshop.

Segue link para download: Mini tutorial: dicas de contraste por Marcelo Maiolo (arquivo em PSD)

Sempre acreditei que esse seja o caminho para tudo. Compartilhar, pensar em quem está começando, não represar conhecimentos e nunca, jamais, tentar galgar o longo caminho por atalhos ou usando pessoas como escada ou mesmo palanque.

Espero que essa postagem possa te ajudar.

Grande abraço.

Luciano Salles.

25.6.18

Cable

Cable por Luciano Salles
Olá, tudo bem?

Faz 14 dias que não atualizo o blog. Gosto de atualiza-lo semanalmente e a postagem que iria fazer era se havia sido, ou não, aprovado para ter uma mesa na CCXP 2018. A data da divulgação dos selecionados era para ter sido no dia 20/06 mas foi prorrogada e agora somente saberei se participo da Comic Con Experience no dia 10/07.

Decidi então fazer o post com esse Cable ainda em preto e branco. Essa era uma postagem que estava programada para ser feita somente com o desenho já colorido mas, por alguns motivos, decidi antecipar. A causa, discorro logo abaixo.

Sou um desenhista e quadrinista autodidata, que vive em Araraquara, interior do estado de SP, e que tem pouco contato com a maioria dos meus colegas de profissão, que vivem na capital do meu estado, outros na Paraíba, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e tantos lugares diferentes. Enfatizo isso pois ajudaria muito se em um desenho meu ou história, houvesse alguém que, logo de cara, dissesse que aquilo não está legal ou coisa assim. Desta forma, aprendo com erro atrás de erro, o que também, pra mim, não é problema.

Entretanto, tenho a imensa sorte e oportunidade de ter um grande artista, que passei a chamar carinhosamente de "sensei", que por vezes puxa a minha orelha, me diz para prestar atenção em como faço algumas coisas e me convida para ir visita-lo para mostrar – e, como ele mesmo diz, arrancar meu sangue – como posso melhorar meu trabalho em alguns aspectos. Esse amigo é o Rafael Grampá

Neste desenho do Cable, estava incomodado, achava o desenho duro, algo me incomodava e não conseguia resolver o que me afligia. Chamei o Rafael mostrando o desenho a lápis e logo, em duas ou três palavras, ele disse o que eu precisaria fazer. Pronto! Aquelas poucas porém assertivas observações resolveram o desenho. Ele ainda pegou a imagem que envie na conversa e fez uns rabisco em cima para eu entender exatamente o que disse. Só posso dizer que é realmente uma honra e um privilégio que isso possa acontecer.

O desenho da forma que me incomodava
O desenho com as observações do Grampá
Outro artista que fez uma critica muito construtiva ao meu trabalho foi o Gabriel Bá, quando nos encontramos no último dia do FIQ 2018. Ele havia lido EUDAIMONIA (minha última publicação) e no festival, em um conversa despretenciosa, entramos no assunto da minha nova HQ. Ele me convidou para ir até seu estúdio em SP para me passar algumas orientações que poderão potencializar meu trabalho porém, não podia perder aquela oportunidade e pedi para me adiantar alguma coisa ali mesmo.

Ele foi extremamente gentil e em 10 minutos de conversa, recebi um feedback fantástico que me abriu os olhos para alguns detalhes que nunca havia percebido e que poderiam melhorar meus desenhos e histórias. Mas uma vez, só posso dizer que é realmente uma honra e privilégio poder ter somente dois artistas incríveis que fizeram e fazem isso por mim. O foi a primeira vez mas o Grampá, desde quando comecei a fazer quadrinhos, está ao meu lado.

O FIQ 2018 foi um evento lindo que pude perceber muitas coisas que devo mudar. Minha percepção estava extremamente aguçada nos dias do evento e pude sentir tanta coisa, desde os quadrinhos que ganhei, os que comprei, os quadrinistas que encontrei, os colegas, pessoas e amigos que com o tempo mudam, mudam muito. Aproveitei bastante o silêncio do meu quarto de hotel para ponderar muitas coisas. Aliás, o tempo faz das suas e é por essas e outras que vivo o agora. Afinal, só posso viver o agora pois o futuro não existe e o passado é imutável. Sempre lembrando que só foi possível ir ao Festival internacional de quadrinhos de Belo Horizonte com o apoio cultural da escola Peri Domus Araraquara.

Voltando o foco ao post, para desenhar o Cable, esse personagem tão "bagunçado" cronologicamente, geneticamente, que vai para o futuro, passado e é usado por vilões oportunistas, recorri ao vídeo do Pipoca e Nanquim, "Tudo sobre Cable: origem e trajetória nas HQ"para saber mais sobre o que desenharia. Espero que tenha gostado do trabalho.

Ainda vou fazer as cores e nesta etapa sempre conto com o Marcelo Maiolo, outro grande artista, que sempre me auxilia com dicas e detalhes no colorir desde 2014.

Torço para que tenha gostado do post, do desenho e fique a vontade para deixar seus comentários. Todos serão devidamente respondidos.

Um abraço.

Luciano Salles.

11.6.18

Vale a pena vincular lançamentos de HQ aos eventos de quadrinhos?

Minha mesa no FIQ 2018 com EUDAIMONIA (2018,
independente), Limiar: Dark Matter (2015, independente)
e O Quarto Vivente (2013, independente)
Olá, tudo bem?

Por vezes escrevo textos sobre algumas reflexões que faço, sozinho, no meu isolamento interiorano e penso que, por esse aspecto, divulgá-los aqui seja uma boa forma de compartilhar essas análises com você que acompanha o blog.

Depois de participar da 10º edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte), comecei a pensar sobre o fato de vários artistas vincularem seus lançamentos aos eventos de quadrinhos. É claro que isso é ótimo pois junta o melhor dos mundos: um livro novinho esperando por consumidores em um evento onde estará o público que compra esse tipo de publicação.

Do ponto de vista do mercado e vendas (somos todos vendedores), é o momento ideal para se lançar um livro. Mas até que ponto isso pode garantir que sua HQ seja um "sucesso" de vendas? O que garante que um gibi venderá bem nesta conjuntura? Somente pelo fato dele ser novinho, cheiroso e estar no meio de muito dos leitores e colecionadores do país?

Os próprios eventos, em suas fichas de inscrição para seleção de mesa, sempre perguntam se você pretende lançar algum novo título no festival. Isso acontece praticamente em todo processo de seleção de mesa dos eventos.

Um adendo: na CCXP (Comic Con Experience) do ano passado, fiz o lançamento de EUDAIMONIA, meu mais recente quadrinho. Você quer saber se a venda foi boa? Foi excelente mas, menos do que esperava. O que houve de errado? Minha expectativa estava muito alta com o fato de ter um lançamento no maior evento de quadrinhos e cultura pop do país? Minha "frustração" quanto aos números de exemplares vendidos foi por eu ter superdimensionado o que poderia vender? Eu deveria ter me "frustado" por ter vendido tão bem?

Percebe como esse tema pode gerar muitos questionamentos sobre a viabilidade de casar novas publicações com as datas dos festivais de quadrinhos?

Voltando ao FIQ, conforme informação no próprio site do evento, havia 217 lançamentos nas mesas dos(as) artistas sem contar nos estandes. Aqui está o link para você conferir os títulos lançados em Belo Horizonte: todos os lançamentos do FIQ 2018!

Eu acho incrivelmente fantástico o tanto de títulos que está sendo produzido mas o seu ficará pulverizado entre tantos outros lançamentos (será mais uma HQ de 217 avos). A não ser que você seja um(a) quadrinista categoria Champions League, sua HQ vai ficar fragmentada entre tantas outras.

Resolvi elencar, pelo menos, 5 (cinco) pontos positivos e negativos em associar seu lançamento a um evento. Vamos começar:

PONTOS POSITIVOS
• Sua HQ e seu nome serão citados(as) no site do evento (como no link acima);
• Sua HQ e seu nome também serão citados (as) em sites de quadrinhos que também fazem esses levantamentos;
• Você vai para o evento feliz da vida com sua nova publicação;
• Suas vendas poderão ter um incremento considerável devido ao seu novo trabalho;
• Sua HQ vai gerar curiosidade e com isso atrair mais leitores(as) até sua mesa.

PONTOS NEGATIVOS
• Expectativa alta em conseguir boas vendas do seu novo material;
• Ajustar seu cronograma de trabalho com as datas dos eventos para sempre ter algo novo;
• Trabalhar de forma rápida (e por vezes, não dando seu melhor) somente para conseguir lançar seu novo produto;
• Sentir-se obrigado a ter uma nova história em quadrinhos para cada evento;
• Acreditar que com uma nova publicação, suas chances de ser selecionado(a) para ter um mesa no festival aumentará consideravelmente;

Enfim, é um assunto vasto e subjetivo. Eu mesmo não acredito que um(a) quadrinista precisa estar com um novo título todo ano ou a cada ano e meio. No meu caso que escrevo a história e desenho, isso se torna cada vez mais verdade. Existe o processo de escolher exatamente qual história contar, escrever o roteiro, desenhar as páginas, arte-finalizar, escanear, fazer o letreiramento, o tratamento gráfico para a impressão e muitos outros detalhes no meio destes poucos itens. Além do mais, cada um tem o seu tempo para dar seu melhor.

E você? O quê acha de tudo isso? Seja você autor(a) de quadrinhos, desenhista, colorista, leitor(a) ou o que quer que o(a) vincule a esse mundo das HQ, deixe suas impressões nos comentários.

Grande abraço.

Luciano Salles.

8.6.18

Iniciativa legal da Câmara Municipal de Araraquara – Vídeo: Sou Arte, com Luciano Salles

Olá, tudo bem?

A Câmara Municipal de Araraquara criou uma iniciativa legal com sua TV Câmara. Convidou alguns artistas da cidade para falar sobre seu trabalho e esses mini programas são exibidos na TV aberta para toda cidade.

O quarto programa foi comigo onde conto um pouco de como é ser artista no interior do estado, falo sobre meus trabalhos, influências e como Araraquara foi fundamental na minha formação pessoal e artística.



Você é algo e por isso saiba que tudo e todos os segundos vividos (bons ou ruins), tiveram suas parcelas na sua formação como o ser humano que é. Existe sua parcela, é claro, afinal, você é você mas se ouviu e entendeu os preceitos do mestre Bruce Lee, "be water, my friend".

Um abraço.

Luciano Salles.

6.6.18

FIQ 2018: Saldão de balanço, encontros e o fiel da balança

FIQ 2018, por Luciano Salles
Olá. Tudo bem?

Somente na física e em condições específicas, como por exemplo na CNTP (para o estudo de gases), é que existem mundos ideais. Mesmo que esteja vivendo uma situação perfeita, um momento único e extremamente agradável, somos naturalmente impelidos, pela nossa ancestral ansiedade, a buscar ou supor que algo possa, de fato, interromper aqueles poucos momentos em que se percebe ser ou estar em estado de felicidade.

No FIQ 2018 foi bem assim. Lutei para simplesmente manter o foco com quem estava ali comigo, naquele exato instante, em alguns poucos segundos acumulados em uma conversa, entrevista, venda ou então, estando comigo mesmo, sentindo a oportunidade de estar ali, presente, naquele que se tornou o melhor evento de quadrinhos que participei.


Uma honra ter como vizinho de mesa o
underground do quadrinho nacional,
Franciso de Assis F***ing Marcatti
 
Um festival que foi cancelado em 2017, perigando não acontecer em 2018 e que então vem bem organizado, com muitos visitantes e artistas expondo seus quadrinhos, ideias e ideais. Poderia listar muitos itens positivos assim como negativos porém, o fiel da balança justificou sua honesta precisão.

É sempre muito bom reencontrar os(as) colegas e amigos(as) que são extremamente carinhosos(as) e cordiais comigo. Espero sinceramente que a minha recíproca seja tão verdadeira.

No tocante ao "saldão de balanço" – anunciado no nome da postagem –, confirmei que foi o evento que minhas vendas foram basicamente para leitores. Claro que todos nós somos leitores, entretanto existem os leitores que também produzem histórias em quadrinhos e foi neste aspecto que, por um levantamento junto da minha planilha de controle de vendas, constatei que aproximadamente entre 80% a 90% dos que compraram meus gibis eram "somente leitores".


O super casal Fora do Plástico,
representando todos os youtubers!
Você pode estar se perguntando: mas como é que o Luciano sabe quem produz ou não quadrinhos? Em toda venda que faço, geralmente converso de boa com a pessoa e é claro que o papo sempre é direcionado para desenhos, gibis, animação, filmes e então, tenho a resposta se aquele(a) determinada pessoa produz quadrinhos ou não.

Claro que esse percentual indicado tem suas margens de erro mas mesmo assim, fiquei extremamente satisfeito com esse potencial de "somente leitores" consumindo quadrinho nacional, mas deixando esclarecido que, esses números foram nos meus controles de vendas.

Pensei em fazer esse post de forma precisa com números, listando cada ponto positivo e negativo que o evento apresentou (na minha visão), valores, ressalvas, mas isso fica por conta da percepção dos organizadores, que enfatizo mais um vez, estão de parabéns pelo melhor FIQ que pude participar.

Agradeço o apoio cultural de 100% das minhas despesas pela Escola Pueri Domus Araraquara. Somente assim para ir a um evento tão longe de casa e poder trabalhar tranquilo, sabendo que tenho o suporte de pessoas tão especiais.


O mesão, pelo garçom extremamente
educado e cordial que nos atendeu e que,
infelizmente, não anotei o nome para
crédito da foto.
Fico no aguardo de seu comentário, se foi ao evento, se passou por minha mesa, o que achou do festival, enfim, deixe suas impressões pois todas serão respondidas.

Muito obrigado pelo visita ao blog, pela visita a minha mesa e muito obrigado, Mônica e Pueri ♥️

Um abraço.

Luciano Salles.