Luciano Salles é quadrinista, ilustrador freelancer da Folha de S.Paulo e 1/3 da Produtora Cultural Memento 832.
Autor das Histórias em Quadrinhos Limiar: Dark Matter (2015, Publicação Independente), L'Amour: 12 oz (2014, MINO) indicada ao 27º HQMIX, O Quarto Vivente (2013, Publicação Independente) indicada ao 26º HQMIX e da HQzine Luzcia, a Dona do Boteco (2012, Publicação Independente), indicada ao 27º HQMIX.

6.12.13

Nova resenha sobre O Quarto Vivente + Entrevista : Terra Zero!

Olá!

Uma resenha bem legal, junto de uma entrevista muito bem elaborada, acabou de ser postada no site do Terra Zero!

A pauta O Quarto Vivente e Luciano Salles, inaugura a coluna HQ Brasil! Fico feliz e me sinto lisonjeado, por ser lembrado para estreiar a nova atração aos leitores do site. Agradeço ao convite de Felipe Morcelli.

Fique por aqui mesmo e leia a entrevista ou, vá até o incrível site do Terra Zero, confira a matéria e muito mais do que a página tem para oferecer!

Forte abraço...

Luciano Salles.

HQ Brasil: “O Quarto Vivente” e Luciano Salles


Postado em 06/12/2013, por Morcelli
Em: Análise , Destaque , Matérias
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Nesta sexta-feira o Terra Zero inicia uma nova atração aos leitores: a coluna “HQ Brasil“. A ideia é promover uma HQ nacional fazendo comentários sobre ela e entrevistando seu(s) autor(es). Depois de um ano abarrotado de lançamentos no Festival Internacional de Quadrinhos e de projetos de quadrinhos bem sucedidos nas plataformas de financiamento coletivo ficou claro que os sites de quadrinhos, independente de qual escopo possuem, precisam promover o que está acontecendo no Brasil.
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Para a estreia da coluna foi escolhida a HQ “O Quarto Vivente” do araraquarense Luciano Salles. Esta é sua segunda HQ publicada e mais uma vez o autor optou pelo formato independente de lançamento. Focada na vida de uma jovem brasileira num mundo distópico e futurista a história figura entre as grandes obras nacionais de 2013.
A HQ
Luciano criou um universo à parte para sua história. A personagem principal, Juliett-e, é quem se conecta com o leitor, pois é ela que tenta sair da ordem dominadora no mundo. A Europa e a Ásia (chamadas aqui pelo seu antigo nome de Eurásia) afundaram e algumas sociedades se fundiram aos países que sobrevivem às mazelas do Século XXI – entre eles, o Brasil, onde a história se passa. A França foi anexada ao território brasileiro. Portanto, idioma e cultura se confundem e é muito importante que o leitor esteja atento a isso para não se perder nas falas dos personagens. Aliás, a única coisa que poderia fluir um pouco melhor na HQ são os diálogos. Por vezes confusas, as conversas possuem uma estrutura estranha e muitas vezes desconexa. Claro, isto faz parte do mundo em que o leitor imerge ao começar a ler a HQ, mas, às vezes, a coisa fica estranha demais.
Por outro lado, com muito bom gosto, Luciano questiona o marasmo mental de uma sociedade cada vez mais preguiçosa, colocando em xeque a dualidade do individualismo com o pensamento coletivo: como alguém pode se tornar tão individualista e, ao mesmo tempo, fazer exatamente o que todas as outras pessoas fazem? Seria culpa da ordem governamental opressora? Seria uma característica humana que nunca vai mudar? Quando as pessoas vão acordar para desbravarem a vida como a personagem principal tenta fazer nesta história? Estes são alguns dos muitos (e inteligentes) questionamentos que podem ser levantados durante a leitura da HQ.
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“O Quarto Vivente” é um grande trabalho dos quadrinhos nacionais. Luciano conseguiu criar uma distopia que obedece as regras mais clássicas do tema. Ao somar estas características com seu jeito ímpar de trabalhar a ideia e com o tempero brasileiro, o autor entrega uma obra interessantíssima e com um universo cheio de possibilidades de exploração.
Nota: 9/10
A Entrevista
Luciano, lendo “O Quarto Vivente” deu pra notar o quanto seu trabalho é influenciado, principalmente, por obras de ficção científica, em especial aquelas que tratam de possíveis futuros distópicos para o planeta. Quais são suas principais influências para expressar sua arte desta forma?
Acredito que para essa obra, uma grande influência, do gênero que citou, foi o filme Blade Runner. Entretanto gosto muito de alguns romances como “Admirável Mundo Novo” (“Brave New World“) de Aldous Huxley, 1984 e “A Revolução dos Bichos” (“Animal Farm“) de George Orwell. Voltando aos filmes (que são minha maiores influência para qualquer quadrinhos que eu faça), o filme “Fahrenheit 451″ também cito com uma influência para essa obra. E, para o ódio de muitos, acredito que a estética de Lars Von Trier e David Lynch existe nos meus trabalhos.
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Juliett-e é a protagonista da história. É aquela que nasceu ao acaso e quebra as regras da distopia seguindo seu próprio coração. Como artista, você acredita que o acaso está se perdendo e que os quadrinhos (assim como qualquer outra forma de arte) podem mostrar isso aos leitores?
Sim. Acredito no acaso como a mãe da evolução e também acredito, que o fim do acaso, é trabalhado diariamente e por muitas vertentes. Trabalhei com Juliett-e, nascida ao acaso, justamente para ter, como disse, a quebra do paradigma na história. Juliett-e vem com o ímpeto que é tão inerte hoje em dia. Ninguém arrisca contra o que já está imposto e decretado. Vivemos um estágio de torpor. Não sabemos conduzir nada. Somos apenas respostas automáticas. Não quero parecer pessimista e não sou pessimista. A realidade simplesmente é tirada do nosso foco. Simples assim.
A arte tem o poder e deve ser utilizada para o questionamento. Qualquer tipo de arte.
O manual de funcionamento da inseminação possui um olho em sua capa. Este mesmo olho está na contra-capa de “O Quarto Vivente” e nos autógrafos que você deu a cada fã que adquiriu o volume. Seria “O Quarto Vivente” um manual para que as pessoas deem mais atenção ao acaso e não à forma sistemática em que vivem? Todos deviam ser como Juliett-e?
Não só o olho. Cada página da revista. Se eu for falar do olho, posso entregar a história para quem ainda não leu a revista! Em cada página da HQ, coloquei intencionalmente, detalhes que acredito que muitos podem notar o que quero dizer. Não só detalhes em forma de desenho. Os nomes dos personagens foram pensados dentro da coesão da história. O nome da revista sintetiza muita coisa.
Mas também, acredito que fui direto ao que queria, no texto da história. Recebo críticas que dizem que é uma história linda e que, após o término da primeira leitura, a pessoa fechou a revista, pensou e, leu novamente. Esse é o maior feedback que posso receber. Consegui a atenção do leitor e o ciclo se fechou.
Ainda no aspecto filosófico que Juliett-e representa para a obra, o diálogo dela com o camaleão sugere que, mesmo sendo adaptável, nem mesmo ele evitou a própria extinção. Estaria você, como autor, sugerindo que a natureza adaptável do ser-humano não é mais suficiente para o mundo de hoje?
O ser humano foi adaptável em uma época pré histórica ou coisa assim. Hoje somos confortáveis. E o motivo de sermos seres confortáveis é que os pensamentos estão cada vez mais voltados para o ‘um’, para o único. Assim, temos a sensação de tudo certo. Funcionamos na base de choques. A limitação é tamanha, que somente acontecendo um hiper impacto, para mudarmos algo ou ligar a chave da adaptação. Isso é da essência humana e em todos os aspectos. Somos substâncias reativas e rasas. Acho que respondi sua pergunta (risos).
Já no começo da obra, especialmente na primeira página, é perceptível o quanto o português foi mudado para se adaptar à situação geo-política que você criou para “O Quarto Vivente”. Chega a ser intrigante como uma história que toma por inspiração autores estrangeiros tenha conseguido funcionar tão bem dentro do Brasil. Por outro lado, o país sempre foi um abrigo de várias culturas. Em que momento do roteiro você percebeu que misturar nações seria benéfico para sua narrativa?
Eu já tinha o roteiro pronto e já havia começado a desenhar a revista, quando fiz uma viagem de 21 dias para a França. Interrompi o trabalho. Lá, em um estúdio alugado, no frio de fim do outono e andando por toda Paris com minha esposa, comecei a fazer muitas conexões com minha história. Muito das coisas que havia procurado ambientar na HQ, acabei buscando dessa viagem. O silêncio que havia em alguns lugares, mesmo com muitas pessoas e, em especial, no dia que estava embarcando para o Brasil, sendo levado pela imensa esteira do aeroporto Charles De Gaulle, em um ambiente de isolamento imenso.
Ali, naqueles 21 dias, troquei os nomes das personagens, inclui a Europa na história e as Unidades Fraternais, mas o motivo central do roteiro não foi alterado.
E falando em nações e na nova geo-política proposta pela sua obra, por que a França foi a escolhida como principal parceira do Brasil? Outros países e culturas foram considerados enquanto você preparava a obra?
A França foi a escolhida pelo motivo real da viagem que fiz. Muitas lacunas que poderiam haver no roteiro foram preenchidas. E dessa forma, não havia dúvida que a França deveria ser acolhida fraternalmente. E um outro detalhe que devo citar é que me incomodou muito visitar alguns museus. Muito da parte egípcia que existe no Louvre, está lá pois foi saqueado, de alguma forma. E milhões de pessoas, assim com eu fiz, pagam para ver um produto que é parte de furto, roubo e atentado violente contra uma cultura. Somos uma coisa estranha e bizarra.
Juliett-e tem todo um futuro pela frente, mas muitos momentos da história podem ser explorados em futuras obras que revisitem este universo – tais como mostrar o dia-a-dia brasileiro do futuro mais detalhadamente e possíveis outros “dissidentes” desta distopia com mentalidade um pouco diferente de Juliett-e. Você tem planos para isso?
Esse universo que criei está congelado com essa história. Ainda não é o momento de revisitá-lo. E quando isso for feito, não será exatamente no momento que a deixei. Já pensei em opções.
Mas, na realidade, já tenho pronto o roteiro da minha nova história em quadrinhos. Estou fazendo uma terceira revisão e pretendo ter a revista pronta para impressão, no mais tarde, em Outubro de 2014. Mas já posso adiantar o nome da revista, que será: “L’Amour“.

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