Luciano Salles é quadrinista, ilustrador freelancer da Folha de S.Paulo e 1/3 da Produtora Cultural Memento 832.
Autor das Histórias em Quadrinhos Limiar: Dark Matter (2015, Publicação Independente), L'Amour: 12 oz (2014, MINO) indicada ao 27º HQMIX, O Quarto Vivente (2013, Publicação Independente) indicada ao 26º HQMIX e da HQzine Luzcia, a Dona do Boteco (2012, Publicação Independente).

2.5.17

+ 12 dicas para um(a) quadrinista independente – Parte II

Quadro de Limiar: Dark Matter por Luciano Salles e cores por
Marcelo Maiolo.
Olá, tudo bem?

Em 2015, escrevi um post entitulado: 21 dicas para um(a) quadrinista independente. Hoje, ainda recebo mensagens através do meu Twitter, Facebook ou, diretamente por aqui, perguntando como procedo em diversos aspectos no tocante aos quadrinhos, vendas, administração de tempo, traço, roteiro e outros temas e dúvidas.

Enquanto matutava em escrever esse novo post, pensei muito se isso poderia soar como algum tipo de autoajuda ou frações de similaridades.

Não, não é autoajuda. Não serão peças ou itens que solucionarão suas ânsias mas podem, de certa forma, trazer certa tranquilidade e até alguma orientação. Não será um kit de soluções rápidas de problemas mas penso que para alguns poderá trazer um alento, um entendimento, um suporte ou um "estalo". 

E por qual motivo digo isso? Pois o que eu sinto é diferente do que você sente, a energia que eu tenho para realizar algo é diferente da sua, o tanto que demoro para atingir o meu nível de cansaço é diferente do seu, o horário que preciso dormir é diferente do seu e a quantidade de horas de sono também. Assim como a capacidade de ficar focado em cima de um trabalho, tudo sempre será diferente para qualquer outra pessoa além de você.

Entendido e fechado este acordo, vamos lá:

01. Tenha ciência de que sendo um(a) quadrinista autoral e independente, você não vai viver ou sobreviver das vendas unitárias de sua(s) revista(s). Isso tem que ser algo claro, cristalino e extremamente bem resolvido em sua cabeça.

02. Tente produzir e manter certa regularidade na produção das suas HQs. O motivo deste item é que com material novo, você poderá ir aos mais diversos eventos de quadrinhos e, pelo menos uma vez ao ano, apresentar um trabalho inédito. Isso além de alavancar suas vendas, contribui para vender também suas HQs anteriores.

03. Utilize seus quadrinhos também como ferramenta que impulsione outros negócios. A contradição do item 01 para com item 02 é justa e aceitável: Se não vou sobreviver das vendas da minhas revistas, porquê tenho que produzi-las? Por experiência, um(a) quadrinista autoral, deve usar suas publicações também como uma ferramenta que impulsione outros meios de rentabilizar sua proposta de vida. Através de seus álbuns em quadrinhos, você pode direcionar outras atividades como bate-papos, commissions ou encomendas de arte original, palestras e oficinas, que agregarão condições de novas rentabilidades.

04. Se você é o(a) desenhista das suas próprias histórias, é hora que se disponibilizar para trabalhos de ilustração esporádicos ou freelancer. Um atalho não existe. Você terá que desenhar, desenhar, desenhar e entrar em contato com os ambientes que possam demandar ilustrações. Revistas, jornais e sites. Aqui as possibilidades são inúmeras e lembre-se que as vendas unitárias das seus quadrinhos não irão quitar seus boletos.

05. Não idealize que seu trabalho será consagrado por outros quadrinistas. Não sonhe ou imagine que uma "Elis Regina" consagrará sua música. Confie no seu quadrinho e trabalhe no esquema mais punk possível: "Do it yourself" ou "faça você mesmo".

06. Entenda que o tempo está a seu favor. A famosa desculpa do tempo. Para entender essa frase é sabido a necessidade de entender o critério de tempo e neste ponto, o problema é bem mais confuso. Por exemplo, se você pensar que nada é eterno, então o tempo, como conhecemos, não existe. Tudo somente é. Entretanto, os segundos foram impostos e assim vivemos em prol dos tique-taques.
Desta forma, se você estiver bem disposto e feliz com a história que está desenhando, em qualquer momento que você se voltar para esse trabalho, o tempo está a seu favor. Concluindo: se o tempo, por mínimo que seja, está a seu favor, faça valer cada instante.

06.01. Trabalhe com todas e quaisquer redes sociais fechadas. Encerre, não acione, bloqueie, não logue, silencie e não deixe o celular por perto vibrando sem parar. Assim você perceberá novamente como o tempo estará inteiramente ao seu lado.

07. Antes de começar a desenhar, fazer suas cores ou escrever seu roteiro, pare por alguns minutos. Como enfatizei desde o começo do post, isso funciona pra mim. Lembre-se que somos diferentes. O fato de eu ficar 5, 10 ou 20 minutos parado, sem fazer nada, me ajuda a aliviar alguns pensamentos que não me auxiliarão em nada no trabalho.

08. Não se prenda a nenhuma escolha, escola, forma ou estética imposta. Entendo o conforto em produzir algo que está em alta, que está sendo feito e dando certo, em usar cores ou efeitos que estão "na moda". Entretanto, nada disso garante que seu quadrinho também será bem aceito.
Ser livre é extremamente difícil. O fato de ser livre e com autonomia para fazer o que deve ser feito implica em arcar com as responsabilidades desta escolha. Isso é angustiante. Aliás a angústia me parece ser necessária para uma sincera criação.

09. Faça seu quadrinho com o melhor que você pode oferecer. Já que vai fazer, faça da melhor forma possível! Com excelência e honrando todo prazo e acordo.

10. Nunca trabalhe de graça. Na dúvida em quanto cobrar por um trabalho, não hesite em perguntar para um colega.

11. Não desenhe no anseio de likes, retuítes ou qualquer outra forma de consolo virtual. Se estiver afim de fazer algum desenho, seja por motivo político, homenagem, contestação ou até uma fã arte, faça pelo ato e pelo processo. Obrigar-se a desenhar algo somente pelo fato do assunto estar em alta, sendo muito discutido, apenas te faz obrigado a reagir de acordo com o que está produzindo  algum tipo de efusão no meio. Ser voluntariamente obrigado a algo é extremamente desnecessário.

12. Não protele.

Termino por aqui. Seu comentário é sempre bem vindo e assim que puder responderei.

Um abraço.

Luciano Salles.

12 comentários:

  1. Luciano, sou super fã do seu trabalho como já falei antes e ler seus posts é algo que me agrega muito valor sempre! Parabéns por mais este conteúdo incrível.
    Gratidão por divulgar ao mundo!

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    1. Opa, valeu, Rodrigo! Fico contente que esses texto agregam algo. Penso que não deve represar nada que possa contribuir para uma pessoa que seja.
      Abraço.

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  2. Gostei muito das dicas, eu faço uma delas pelomenos, mas me inspirou bastante, nao sei lidar com quadrinhos, mas amo desenhar, e ler essas dicas me influenciou bastante a buscar algo a mais.
    So quero parabenizar pelo trabalho que tem feito, e apesar de nao poder acompanhar tudo, ainda admiro cada vez mais seu trampo cara.
    Sucesso sempre, tudo de bom cara

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    1. Muito obrigado, Vitor.
      É sempre legal saber que um texto pode ter o poder de inspirar alguma coisa.
      Muito obrigado.

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  3. Muito obrigado por mais uma aula de como amadurecer nesse meio.Parabéns mesmo. Um abraço, Luciano!

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    1. Olá, Rolim. Tudo bem?
      Muito obrigado pelas palavras. Fico feliz que tenha gostado do texto.
      Um abraço, camarada!

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  4. Valeu pelo post Luciano, você não faz ideia de como é útil essas informações para nós que estamos começando.

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    1. Olá, Henrique. Tudo bem?
      Que bom que de alguma forma seja útil. Fico feliz em saber que gostou.
      Um abraço!

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  5. Essa importância que você dá para as pessoas que de alguma forma querem começar nesse meio, mostra o quão bom você consegue ser não só em quadrinhos e como profissional que é, mas também como pessoa. Gratidão! Abraço Luciano!

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    1. Olá, Amanda. Tudo bem?
      Muito obrigado pelas palavras e por comentar aqui no blog.
      Um abraço!

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  6. Grande Pirica, boa tarde. Tudo bem?
    Suas dicas foram lúcidas e, principalmente sensatas ao evitarem o campo motivacional. Diferente da constante "10 dicas para ser um desenhista de sucesso" que abordam fatores genéricos e que não fazem muito sentido. Deste modo, suas dicas foram muito valiosas e complmentam diretamente a parte 1, amarrando os pontos.

    Gostaria somente de fazer uma pergunta que pode inclusive ajudar outro leitor:

    O que você poderia falar sobre o processo de transposição da ideia, frequetemente embaralhada num caldo de insights, para a sua devida materialização? Como sentar e pensar: "Gotaria de falar sobre X e acredito que essa ideia é e merece ser posta no papel"? Percebo que é o processo criativo é individual e instransponível, porém talvez você consiga falar algo sobre essa definição de trabalho a ser executado.

    Mais uma vez parabéns pelo seu trabalho. Considero seus desenhos genuínos, honestos e assustadoramente marcantes.

    Att.
    THIAGO ALENCAR (ex-HQuê)

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    1. Olá, Thiago. Tudo bem?
      Fico contente que tenha gostado desta nova postagem e que sinta que ela complementa a anterior, de certar forma.
      Quanto ao processo de transposição da ideia, utilizo um conceito simples e direto para mim. Sempre penso que eu gostaria de ler aquela história que está na minha cabeça.
      A ideia pode ser extremamente simples, como geralmente é, mas durante a argumentação dessa ideia, você vai criando células que independem umas das outras mas que compõem a ideia da história.
      Não sei se fui claro, mas penso que pode ser por ai.
      Muito obrigado, Thiago!
      Um abraço!

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