Luciano Salles é quadrinista, ilustrador freelancer da Folha de S.Paulo e 1/3 da Produtora Cultural Memento 832.
Autor das Histórias em Quadrinhos Limiar: Dark Matter (2015, Publicação Independente), L'Amour: 12 oz (2014, MINO) indicada ao 27º HQMIX, O Quarto Vivente (2013, Publicação Independente) indicada ao 26º HQMIX e da HQzine Luzcia, a Dona do Boteco (2012, Publicação Independente).

9.3.15

Entrevista para a rádio CBN + um novo blog de quadrinhos!

Olá camarada, tudo certo?

Na terça-feira passada (03/03/2015) eu concedi uma entrevista para a rádio CBN e o autor da pauta, o estudante de jornalismo Lucas Allencar, aproveitou para fazer mais algumas perguntas e com estas inaugurar seu blog sobre quadrinhos. A entrevista para a rádio ainda não foi ao ar mas assim que for informado da publicação, aviso por aqui.

O site é o Em Solo Nacional e lá está a entrevista. Também foi criada uma página do blog no Facebook. Então fica a dica para mais um blog para você, camarada quadrinista com eu, divulgar seu trabalho em quadrinhos. Agora confira a entrevista por aqui mesmo ou já leia e conheça no Em Solo Nacional.

Grande abraço.

Luciano Salles.

12 Perguntas para Luciano Salles

Pra inaugurar o blog, bati um papo com o Luciano Salles, autor de ‘L’Amour: 12 oz.’, ‘O Quarto Vivente’ e ‘Luzcia – A Dona do Boteco’. Se você ainda não conhece o trabalho dele, pode clicar aqui e conferir ou dar uma olhada no blog dele, o Dimensão Limbo.



Luciano, como você escolheu fazer quadrinhos? Foi uma decisão repentina ou algo pensado?

Apesar de ter me formado em engenharia civil, trabalhado um pouquinho na área e trabalhado também 12 anos em banco, eu sempre desenhei. Me alfabetizei com quadrinhos, desenho desde muito novo. Onde eu estive, a arte esteve comigo. Quando eu saí do banco, porque lá já não dava mais pra mim e porque fiquei doente, fazer quadrinhos foi natural. Ou era isso ou era isso.

No começo, rolou um medo de as coisas não dessem certo?

Não rolou, não. Eu tinha que fazer alguma coisa e experimentei os quadrinhos. Minha primeira HQ, um fanzine, na verdade, ‘Luzcia – A Dona do Boteco’, teve uma tiragem de 100 cópias. Elas esgotaram rápido e aí eu me empolguei e fiz minha segunda história. Não fiquei pensando se ia dar certo ou não.

Para imprimir e começar a vender suas HQs, você teve que investir dinheiro do seu bolso. Como foi isso?

Tudo o que eu gastei teve retorno. Meu primeiro trabalho “se pagou”. Eu vendi as 100 cópias de ‘Luzcia – A Dona do Boteco’ por um valor suficiente para pagar a impressão. Quando pensei em ‘O Quarto Vivente’, queria fazer um trabalho mais caprichado, em formato grande e melhor, graficamente. Como o custo era maior, vendi minha moto para pagar a impressão. Além de não precisar mais dela, eu podia, sei lá, sofrer um acidente, me machucar e ficar sem poder desenhar. Então, eu vendi, financiei a impressão e deu tudo certo. Acho que o fato de ter trabalhado em banco me ajuda a manter meu controle financeiro.

Além do investimento financeiro, é preciso investir seu tempo para o trabalho gráfico, impressão, divulgação, distribuição. Isso é desgastante ou você gosta desse processo todo?

Cara, vou ser sincero: gosto dessa correria. São etapas e gosto delas. Gosto tanto de desenhar quanto gosto de escrever a história ou de pintar. Vender, divulgar no meu blog, colocar nos envelopes, mandar pelo correio, fazer contato com livrarias de outros estados… É tudo muito legal. Eu curto todo esse processo. Tudo isso, acho que faz parte. Não adianta querer só escrever, tem que fazer acontecer. Apesar de ‘L’Amour: 12 oz.’ ter sido lançado pela Editora Mino, me considero independente. Faço meu trabalho, com editora ou sem. Sou tipo um punk que não usa visual punk.

Por que você optou por lançar sua terceira revista por uma editora?

Quando a Editora Mino entrou em contato comigo, a revista já estava pronta. Ia sair com editora ou sem. A proposta foi legal e pensei que só iria saber como é trabalhar assim se eu experimentasse. Está sendo legal, tem seus prós e contras. A impressão e distribuição fica por conta deles, então se eu quero colocar a HQ em uma banca de Araraquara ou São Carlos, é complicado porque eles é que precisam fazer esse contato. ‘L’amour: 12 oz.’, ainda não está em algumas lojas que eu sei que venderia bem, nessas cidades. Tenho que dar meus pulos, tipo o que faço na loja Mondrean Ambiente, que me apoia culturalmente. Lá, fiz uma promoção: eu deixo umas cinco cópias da revista para vender e quem compra já tem um café pago. Faço essas coisinhas onde não conseguem chegar com a HQ.

Então, você não acha que trabalhar com uma editora seja subir um degrau? A qualquer momento, você pode voltar a ser independente?

Posso, sim. Mas tenho que experimentar. Meu novo trabalho, por exemplo, não tem editora, por enquanto. A Editora Mino está correndo com um monte de trabalhos e não sei se eles vão lançar essa nova revista comigo. Eu não fico desesperado. Acho que não vai ter uma explosão de editoras no Brasil. Aqui, tem outros métodos, como o Catarse e o Kickante. Se você já tem um trabalho legal e vendas boas, consegue fazer uma impressão, tranquilamente. Mas pra quem está começando, querendo lançar o primeiro quadrinho, gastar mais de R$5 mil em gráfica, é complicado. Essas ferramentas viabilizam isso.

O crowdfunding tem sido um método bastante eficaz para publicar quadrinhos no Brasil. Você acha que, com essas ferramentas, é um momento legal para quem quer se lançar no mercado?

Acho que essa é a hora de usar esse método, que eu acho fantástico. Ele te possibilita financiar sua revista sem ter que gastar. Mas, com isso, vem uma responsabilidade absurda. As ferramentas são excelentes, contanto que você tenha planejamento. É preciso fazer uma infinidade de contas pra não errar na dosagem de tempo e dinheiro. Eu sou louco com prazos. Então, se você prometeu e tem que entregar o trabalho pronto em 4 meses, é melhor cumprir o prazo ou você se queima.

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Em comparação à maioria das histórias em quadrinhos, você tem um jeito diferente e característico de contar suas histórias. Você não teme ser incompreendido?

Nunca tive esse receio, também. Quando lancei o ‘L’amour: 12 oz.’, até comentei com a minha esposa: “acho que, às vezes, eu me arrisco demais”. Mas acho que é besteira isso. Geralmente, histórias em quadrinhos seguem um formato pronto. Aí, você lê e fechou, acabou. Mas por que tem que ser assim, cara? Tem tantos gêneros diferentes no cinema, por exemplo. Uma coisa que eu sempre digo é que o artista nunca pode subestimar o leitor. Eu sei que tenho minha forma peculiar de escrever e pode ser que muita gente não goste ou goste, mas escrevo também para o leitor sentir que… Se o cara lê o quadrinho uma duas vezes, fecha a revista e percebe que aquilo serviu para alguma coisa ou deu um toque nele, do tipo “eu não tinha pensado nisso”, pra mim, já valeu a pena. Não tenho medo de escrever como escrevo porque, pra falar a verdade, é o jeito que eu sei escrever.

Acha que esse seu tipo de narrativa e traço e quebra do lugar comum pode despertar em alguém a iniciativa de desenhar assim, também?

Quando eu li Garagem Hermética, do Moebius, em 1994 ou 1993, eu falei: “então pode fazer assim, cara?”. O sentimento que eu tive com aquela revista, talvez, seja o sentimento que eu quero que o leitor tenha quando lê o meu trabalho. Até então, eu lia X-Men, Batman, Superman e, quando eu peguei aquela revista, eu percebi que existem outros caminhos. Desde que inventaram o jeito de contar história, lá na Grécia, o modelo é sempre o mesmo: apresentação do personagem, desenvolvimento da trama e encerramento. Tudo bem, é assim que contamos histórias. Mas não precisamos seguir essa ordem. Podemos contar uma história dentro da história. Enfim,fazer o que você quiser.

Em que medida a arte do Moebius te influenciou e quais são suas outras inspirações?

Sempre falo do Moebius, porque foi ele quem me deu esse estalo. Eu me encantava com ele, admirava cada quadro, cada traço, cada nariz que o cara fez e ficava babando em cima daquilo. Sou muito fã também do Lourenço Mutarelli, daquelas perspectivas tortas dele. Mas sou mais influenciado pelo cinema, principalmente por alguns diretores, como o Gaspar Noé, Lars Von Trier, Alejando González Iñárritu e o Pedro Almodóvar e aquelas coisas meio bregas que ele faz. Acho que meus personagens são todos meio bregas (risos).

Em algumas entrevistas, você disse que, de alguma maneira, ‘O Quarto Vivente’ e ‘L’Amour: 12 oz.’ estão conectados. Qual é a ligação entre eles?

Esse lance… Assim, quando eu escrevi minha nova HQ, ‘Limiar: Dark Matter’, que já estou desenhando e sai em outubro, eu percebi que, sem querer, fiz um arco entre as três. Nenhuma é continuação da outra, você não precisa ler em ordem nenhuma. Não tem como ser. Mas percebi que as histórias se complementam de uma forma biológica, uma forma como a vida. Eu não posso falar mais porque ou vou dar spoiler do que vem por aí. Quem leu as duas primeiras, vai sacar um arremate ali na terceira revista. Sem querer, amarrei as três histórias e dei um ponto final em ‘Limiar: Dark Matter’.

É um ponto final mesmo ou todas as suas histórias vão estar conectadas, de alguma maneira?

O contexto dessas três histórias acaba em ‘Limiar: Dark Matter’. Meu jeito de escrever e desenhar vai continuar o mesmo, mas as temáticas serão outras. Eu ainda não tenho definido minha próximas história. Tenho, brevemente, algumas coisas na cabeças e, baseado nelas, tenho certeza que essa temática se encerra, mesmo.
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Na última sexta-feira, o Luciano atualizou o blog dele com algumas novidades sobre ‘Limiar: Dark Matter’. A HQ vai ser lançada em 12 de outubro e já ganhou uma sinopse. Confira:
“A revista conta a história de dois confrades que decidem vingar a morte de um camarada, um irmão fraternal. Todavia, tudo através da memória dele. Nesse ínterim, algumas regras são quebradas e outras são tomadas para que a vingança se concretize.”
Pra mais novidades sobre o novo trabalho dele, dá uma olhada no post original, lá no Dimensão Limbo.

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