Ilustração editorial: como faço para chegar até o desenho

Ilustração para o jornal Folha de S.Paulo
Olá, como vai?

Decidi falar sobre a ilustração que fiz para a coluna do Contardo Calligaris, publicada hoje na Folha de S.Paulo, somente para tentar mostrar como trabalho com ilustração editorial, ou mesmo, como faço para chegar até o desenho a partir das referências e da abertura em escutar o próprio autor do texto.

Um dia antes de receber o e-mail com a coluna, Contardo me antecipou o título "O triunfo da morte" e o que pretendia explanar; para tal, citou duas referências: uma foto do Pedro LadeiraFolhapress – e o afresco O triunfo da morte, de autoria desconhecida (ou incerta), podendo ser de Guillaume Spicre, de Bordonha ou Pisanello.

Com o texto e referências em mãos, comecei a trabalhar mentalmente de qual forma as informações que tinha se relacionavam. Num primeiro momento, poderia sair desenhando por desenhar, mas pensar, correlacionar as referências, sondar as entrelinhas do texto, além de acontecimentos anteriores relacionados, as práticas do atual governo aditivadas pelas identidades de estadistas latinos e europeus que ser repetem ao longo da história (uma ciência fundamental para compreender quem somos dentro de uma estrutura analítica e memorial), poderia trazer elementos que tornariam a observação e leitura da ilustração prazeirosa ou odiosa.

Foto de Pedro Ladeira (Folhapress)
Não explicarei nenhum detalhe da ilustração, mas sempre que uma arte será impressa em CMYK costumo usar o preto em 100%, pois existe o risco de uma pequena oscilação no papel e das linhas apresentarem aquele "efeito" em que você percebe o mesmo traço com cores diferentes e deslocadas, acontece um pequeno desvio entre a aplicação do azul, magenta, amarelo e o preto.

Neste caso, especificamente, o preto do desenho está em 100%, porém mudei várias cores das linhas, o que se torna arriscado pois em algumas vezes que fiz isso, foi perceptível aquela oscilação.

Mas o processo da ilustração editorial, no meu caso, é muito mais sobre a arte do que sobre a parte técnica da impressão. Faço da melhor forma que imagino que ficará na página e se conversa com o texto e com o leitor de forma clara, instigante e que possa até, convidar para a leitura. Penso sempre na página aberta e na atenção dirigida para a mesma; a ilustração terá o efeito de atrair a atenção do leitor para desvendar o que é aquilo.

O afresco "O triunfo da morte"
Poderia falar muito mais sobre as análises em cima do texto, mas neste especificamente, acordamos que trabalharia em cima da fotografia do Pedro. Eu gosto quando o Contardo sugere. Sempre aprendo algo pois vou atrás para a pesquisa, muitas vezes até facilita meu trabalho (o que não aconteceu neste caso). É uma parceria frutífera, de diálogo aberto e saudável. Acho que vale o adendo de que, desde quando ilustro para a coluna do Contardo Calligaris (e aí se vai mais de um ano e dois meses), ele sugeriu apenas duas vezes uma referência. Sendo assim, isso é a exceção da exceção.

O campo para os comentários estão sempre abertos e responderei a cada um.

Fico por aqui.

Luciano Salles.

Postagens mais visitadas deste blog

A angústia de um quadrinista da série C

Acionei meu plano B: sendo quadrinista e ilustrador, recomendo ter estratégias nas mangas

Ser ilustrador da Folha de S.Paulo