Luciano Salles é quadrinista, ilustrador da Folha de S.Paulo e 1/3 da Produtora Cultural e Editora Memento 832.
Autor da histórias em quadrinhos EUDAIMONIA (2017, Publicação independente/Catarse), indicada ao 30º HQMIX, Limiar: Dark Matter (2015, Publicação independente), L’Amour: 12 oz (2014, Editora MINO), indicada ao 27º HQMIX, O Quarto Vivente (2013, Publicação independente), indicada ao 26º HQMIX e da HQzine Luzcia, a Dona do Boteco (2012, Publicação independente), indicada ao 27º HQMIX
Contato: lucianosalles@dimensaolimbo.com

11.6.18

Vale a pena vincular lançamentos de HQ aos eventos de quadrinhos?

Minha mesa no FIQ 2018 com EUDAIMONIA (2018,
independente), Limiar: Dark Matter (2015, independente)
e O Quarto Vivente (2013, independente)
Olá, tudo bem?

Por vezes escrevo textos sobre algumas reflexões que faço, sozinho, no meu isolamento interiorano e penso que, por esse aspecto, divulgá-los aqui seja uma boa forma de compartilhar essas análises com você que acompanha o blog.

Depois de participar da 10º edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte), comecei a pensar sobre o fato de vários artistas vincularem seus lançamentos aos eventos de quadrinhos. É claro que isso é ótimo pois junta o melhor dos mundos: um livro novinho esperando por consumidores em um evento onde estará o público que compra esse tipo de publicação.

Do ponto de vista do mercado e vendas (somos todos vendedores), é o momento ideal para se lançar um livro. Mas até que ponto isso pode garantir que sua HQ seja um "sucesso" de vendas? O que garante que um gibi venderá bem nesta conjuntura? Somente pelo fato dele ser novinho, cheiroso e estar no meio de muito dos leitores e colecionadores do país?

Os próprios eventos, em suas fichas de inscrição para seleção de mesa, sempre perguntam se você pretende lançar algum novo título no festival. Isso acontece praticamente em todo processo de seleção de mesa dos eventos.

Um adendo: na CCXP (Comic Con Experience) do ano passado, fiz o lançamento de EUDAIMONIA, meu mais recente quadrinho. Você quer saber se a venda foi boa? Foi excelente mas, menos do que esperava. O que houve de errado? Minha expectativa estava muito alta com o fato de ter um lançamento no maior evento de quadrinhos e cultura pop do país? Minha "frustração" quanto aos números de exemplares vendidos foi por eu ter superdimensionado o que poderia vender? Eu deveria ter me "frustado" por ter vendido tão bem?

Percebe como esse tema pode gerar muitos questionamentos sobre a viabilidade de casar novas publicações com as datas dos festivais de quadrinhos?

Voltando ao FIQ, conforme informação no próprio site do evento, havia 217 lançamentos nas mesas dos(as) artistas sem contar nos estandes. Aqui está o link para você conferir os títulos lançados em Belo Horizonte: todos os lançamentos do FIQ 2018!

Eu acho incrivelmente fantástico o tanto de títulos que está sendo produzido mas o seu ficará pulverizado entre tantos outros lançamentos (será mais uma HQ de 217 avos). A não ser que você seja um(a) quadrinista categoria Champions League, sua HQ vai ficar fragmentada entre tantas outras.

Resolvi elencar, pelo menos, 5 (cinco) pontos positivos e negativos em associar seu lançamento a um evento. Vamos começar:

PONTOS POSITIVOS
• Sua HQ e seu nome serão citados(as) no site do evento (como no link acima);
• Sua HQ e seu nome também serão citados (as) em sites de quadrinhos que também fazem esses levantamentos;
• Você vai para o evento feliz da vida com sua nova publicação;
• Suas vendas poderão ter um incremento considerável devido ao seu novo trabalho;
• Sua HQ vai gerar curiosidade e com isso atrair mais leitores(as) até sua mesa.

PONTOS NEGATIVOS
• Expectativa alta em conseguir boas vendas do seu novo material;
• Ajustar seu cronograma de trabalho com as datas dos eventos para sempre ter algo novo;
• Trabalhar de forma rápida (e por vezes, não dando seu melhor) somente para conseguir lançar seu novo produto;
• Sentir-se obrigado a ter uma nova história em quadrinhos para cada evento;
• Acreditar que com uma nova publicação, suas chances de ser selecionado(a) para ter um mesa no festival aumentará consideravelmente;

Enfim, é um assunto vasto e subjetivo. Eu mesmo não acredito que um(a) quadrinista precisa estar com um novo título todo ano ou a cada ano e meio. No meu caso que escrevo a história e desenho, isso se torna cada vez mais verdade. Existe o processo de escolher exatamente qual história contar, escrever o roteiro, desenhar as páginas, arte-finalizar, escanear, fazer o letreiramento, o tratamento gráfico para a impressão e muitos outros detalhes no meio destes poucos itens. Além do mais, cada um tem o seu tempo para dar seu melhor.

E você? O quê acha de tudo isso? Seja você autor(a) de quadrinhos, desenhista, colorista, leitor(a) ou o que quer que o(a) vincule a esse mundo das HQ, deixe suas impressões nos comentários.

Grande abraço.

Luciano Salles.