Luciano Salles é quadrinista, ilustrador freelancer da Folha de S.Paulo e 1/3 da Produtora Cultural Memento 832.
Autor das Histórias em Quadrinhos Limiar: Dark Matter (2015, Publicação Independente), L'Amour: 12 oz (2014, MINO) indicada ao 27º HQMIX, O Quarto Vivente (2013, Publicação Independente) indicada ao 26º HQMIX e da HQzine Luzcia, a Dona do Boteco (2012, Publicação Independente).

21.4.15

O Mercado dos Quadrinhos Independentes. Texto originalmente publicado no site Stout Club

Olá, tudo bem?

Em 07/10/2014 foi publicado em minha coluna no Stout Club o texto O Mercado dos Quadrinhos Independentes. Esse texto escrevi especialmente para o Stout e originalmente publicado ali. A partir de então, com essa pequena publicação, eu comecei a receber e-mails, mensagens direta via Twitter e mensagens inbox no Facebook sobre o que escrevi.

E, entre as mensagens comecei a perceber uma demanda e correlação que me fez pensar e analisar todo aquele conteúdo. Mas isso é assunto para uma próxima postagem.

Gostaria então de registrar aqui no blog, o texto que foi originalmente publicado no site do Stout Club.

O Mercado dos Quadrinhos Independentes

Camarada, faz dois anos que vivo exclusivamente pelos quadrinhos. Antes, labutei como engenheiro civil e depois em uma grande instituição financeira tendo as HQ, apenas como um entretenimento que ocupava a lacuna “sonhos” em minha cabeça. Esse período englobou quase 20 anos da minha vida.

Em abril de 2012, por motivo de saúde, pedi demissão e mergulhei de cabeça em produzir meus próprios quadrinhos. De repente, o famigerado e monstruoso mercado nacional das bandas desenhadas, “valorizou” o meu trabalho.

Explico melhor.

Sempre ouço alguém dizendo que o mercado não valoriza os quadrinhos nacionais, que só prioriza os mesmos, que as edições agora tem uma mísera tiragem de 1.500 cópias, ou até que não existe um mercado de HQ no país. Confesso que tenho dificuldades em entender o embasamento dessas perguntas.

Logo acima, quando disse que o mercado “valorizou” o meu trabalho, foi simplesmente pelo fato de que eu fiz uma revista. Ou seja, o mercado “viu” meu produto pois eu pensei em uma história, acreditei nela, escrevi um roteiro, desenhei tudo isso, fiz as cores, fui até uma gráfica rápida e imprimi 100 cópias, dobrei todas as folhas, fiz uma capa para o melhor acabamento que eu podia oferecer e enviei 3 ou 4 revistas para sites que costumam resenhar quadrinhos. Afinal, eu precisava de um parâmetro para a minha primeira experiência.

Recebi uma crítica muito legal de um destes sites e a trabalhei no meu blog e redes socias. O resultado foi que os 100 exemplares impressos foram vendidos! Você pode pensar: 100 edições e o camarada está comemorando? Sim! Exatamente! Comemorei o fato de uma ideia minha ter sido direcionada para a nona arte e essa ter sido aceita por 100 pessoas. O que mais eu poderia querer? Editoras correndo atrás de mim e do meu trabalho? Ser contratado para desenhar para a Marvel? DC? Ser convidado para festivais de quadrinhos? Isso é estar no mercado?

É por isso que digo não entender quando alguém já sai metralhando o mercado de HQs no Brasil. Aquela era minha primeira história em quadrinhos. Eu a fiz sozinho e o ciclo se fechou quando cada uma, das 100 pessoas, leu a revista.

O mercado é consequência do que crio. Ainda hoje não tenho uma editora que publica meus trabalhos. Entre as tantas etapas para lançar minha terceira HQ autoral, confesso que muita coisa mudou e para melhor.

Minha segunda empreitada foi com O Quarto Vivente. Eu vendi a minha moto para bancar a impressão da revista. Separei mais de 100 edições, de uma tiragem de 2.000, para enviar aos sites especializados em resenhas e para pessoas que trabalham diretamente com a mídia. Até o momento vendi 1.100 revistas. Muitas diretamente pelo meu blog e tantas outras por lojas especializadas em quadrinhos, as quais procurei para consignar minha revista. Lançei o álbum no dia 12 de junho de 2013 e ainda hoje trabalho todos os dias em cima de O Quarto Vivente, pois sei que ainda existem muitas pessoas que nem sequer ouviram falar dessa HQ.

Pergunta: O mercado se abriu para mim? O mercado “valorizou” meu trabalho? O mercado me aceitou?

Se você tem a certeza de que ama fazer algo e quer aquilo para sua vida, faça. Faça de coração aberto, verdadeiramente e sendo sincero com você mesmo. Trabalhe 12, 14, 20 horas por dia. Produza sua ideia e não espere a amargura do tempo e paradigmas esmagarem seus desejos.

O famigerado mercado dos quadrinhos autorais e independentes é apenas reativo ao seu trabalho, e garanto, ele existe e apenas aguarda a sua HQ. Pode ter certeza!

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