Luciano Salles é quadrinista, ilustrador freelancer da Folha de S.Paulo e 1/3 da Produtora Cultural Memento 832.
Autor das Histórias em Quadrinhos Limiar: Dark Matter (2015, Publicação Independente), L'Amour: 12 oz (2014, MINO) indicada ao 27º HQMIX, O Quarto Vivente (2013, Publicação Independente) indicada ao 26º HQMIX e da HQzine Luzcia, a Dona do Boteco (2012, Publicação Independente), indicada ao 27º HQMIX.

19.12.14

Resenha de L'Amour: 12 oz no Terra Zero!

Olá, camarada, tudo certo?

Como você deve saber, lancei minha nova HQ L'Amour: 12 oz através da Editora MINO no dia 05 de novembro de 2014. E, devagar, as resenhas começam a aparecer. Hoje fui surpreendido pela linda resenha no Terra Zero escrita pelo Felipe Morcelli.

Confira toda resenha por aqui ou corra lá para o site da Terra Zero que é foda!

Grande abraço!

Luciano Salles.

HQ Brasil: L’Amour 12 oz de Luciano Salles



Postado em 19/12/2014, por Morcelli // em: DestaqueEspeciaisHQ Brasil // 0 comentário(s)


O amor pode bater forte. Tão forte quando o soco de um pugilista direcionado exatamente no meio do seu rosto. Luciano Salles, um expoente cada vez maior dentro dos quadrinhos independentes nacionais, criou uma obra tão sutil e densa quanto as nuances do amor e não economizou em detalhes narrativos visuais como economizou nas palavras, por exemplo. Ler “L’Amour 12 oz” não é uma tarefa fácil, pois trata-se de um quadrinho interativo, ou seja, ele requer que o leitor realmente participe daquela história para absorver algo e interpretá-la de forma pessoal. A introdução de Sidney Gusman (Editor da MSP) deixa claro o que o leitor tem em mãos: uma história incomum e desafiadora.
Capa Final_MAIOLO
Durante a leitura de tempo indeterminado, o leitor claramente vai entender que “L’Amour 12 oz” é de fato uma história de amor, mas nada piegas, como o próprio autor definiu num bate-papo com o Terra Zero durante a Comic Con Experience. E não será impossível para quem tiver a obra em mãos se reconhecer em algum dos personagens. São pessoas comuns passando por situações comuns (alegres e trágicas) da vida numa continuidade nada convencional proposta pela subjetividade narrativa de Luciano. Aliás, é interessante notar como o texto é cheio de simbolismo enquanto a arte não tem esta discrição toda. Ao contrário, ela bate tão forte quanto o golpe de um pugilista no rosto do leitor e o pega de assalto a cada virar de página.
Há muitas formas de se entender a história de “L’Amour” e uma das principais é compreender que, assim como na vida real, as dores do amor estão presentes na vida de qualquer um. Qualquer pessoa, por mais sensível ou viril que seja, está sujeita a bater com ele ou apanhar dele. Não é como se a história passasse uma lição de vida para o leitor. Longe disso. Mas ela o chama para o ringue, o chama para participar de um processo comum na vida de qualquer um: as idas e vindas do amor.
L'amour 12 oz teaser HQ
Há alguns fatos curiosos a serem notas sobre este grande lançamento de Luciano. Primeiramente é notável a diferença de colorização entre “L’Amour” e seus trabalhos anteriores. Isso não é à toa. Ninguém menos que Marcelo Maiolo (“Green Arrow“, “Green Lantern Corps“) foi responsável pelas cores, assim como há intervenções matadoras de Gustavo DuarteRafael Albuquerque e Marcelo Braga. Elas não fazem parte direta da narrativa da história, mas certamente respeitam seu conceito mais básico: pegar o leitor de assalto como numa luta de boxe.
Como não podia deixar de ser, o Terra Zero bate um papo rápido com Luciano Salles para que ele fale desta sua mais nova obra, o primeiro lançamento da recém fundada editora MINO.
1da0c717-de2c-44a6-9591-e846f33a97ad
Entrevista
Luciano, como foi a negociação para que seu mais novo álbum, “L’Amour 12 oz”, fosse o primeiro lançamento da MINO? Como você se sentiu ao saber que estrearia a editora?
A negociação foi bem tranquila. Eu tinha toda a HQ pronta quando a MINO entrou em contato. Conversamos e tudo se acertou bem rápido. A editora tem pessoas que confio e desta forma, fechei com eles.
Agora, ter o meu trabalho inaugurando as publicações da Editora, foi algo que me deixou extremamente honrado. A MINO deixou claro que vai trilhar por publicações que tenham uma personalidade tanto de traço quanto de narrativa e isso pode ser conferido na página da editora. Sabendo disto e sendo convidado para inaugurar as publicações da editora? Camarada, fiquei feliz demais. Ainda mais sabendo o que está por vir, com trabalhos de renomados quadrinistas brasileiros. Puxa vida…
Durante a Comic Con Experience, você contou ao site que queria fazer uma história de amor depois de “O Quarto Vivente”. Por quê?
Eu tinha a história em fragmentos na minha cabeça antes mesmo de publicar O Quarto Vivente. Entretanto, depois de publicar O Quarto Vivente, eu sabia que tinha que escrever uma história de amor. Não uma história com ensejo piegas ou melosa. Tinha que ser uma narrativa que trouxesse o amor como foco.
Com L’Amour: 12 oz consegui o que queria. A falta de afetividade em O Quarto Vivente, me obrigou a utilizar o tema. Foi alguma coisa que tinha que ser feito.
Você diria que o amor bate tão forte quanto o golpe de um pugilista? Seria o amor capaz de fazer sentir e de infligir dor (tanto a nível sentimental como a nível físico)?
L’Amour: 12 oz não é uma teoria sobre o conceito do amor. Ali, retrato o amor de um antigo pugilista. O que trato tanto como o amor na HQ é a questão do tempo, do peso do tempo, do conceito termodinâmico do tempo e de como o tempo tem velocidades diferentes para cada um. Tudo isso, sempre entrelaçado ao tema amor.
O lance do pugilista, do boxe é que desejava usar uma metáfora para o máximo da virilidade de um homem para contrastar com a história.
Agora o amor, assim como o tempo, age de forma variadas para cada um. Para alguns pode bater tão forte como um peso pesado.
Tomando os personagens de “L’Amour 12 oz” como exemplo, você diria que o amor é imortal, mesmo que passe por momentos diferentes como, por exemplo, o envelhecimento das pessoas?
O amor na revista se transforma com o tempo nele aplicado. O amor é algo mutante, que se aprimora, se desenvolve e que como nós, deve ser alimentado. Não obedece métricas ou compassos. Ele reage apenas com o tempo. Andam juntos. Assim, na HQ, o amor acompanhou o velho pugilista e moldou as suas necessidades. Assim como com os outros personagens, que são sobressaltados com o mesmo sentimento, juntamente com o tempo.
Por que fazer uma história com tantas quebras narrativas e temporais? A não linearidade é seu estilo pessoal de fazer quadrinhos?
Acho que isso tem acontecido naturalmente. Confesso que escrevi o roteiro de L’Amour: 12 oz do jeito que sentia que o mesmo deveria ser escrito.
O tema me permitia isso. Falo de amor e tempo, o que pra mim são temas que não obedecem literalmente uma ordem. Por isso a quebra da narrativa.
E aliás, há duas linhas narrativas que correm na HQ. Uma para cada casal. Uma cronológica e outra não. O detalhe é que usei o mesmo texto para as duas histórias.
Então, não acredito que a não linearidade seja um estilo meu para fazer quadrinhos. O que acredito é que uma HQ não necessita ser estritamente linear.
L’Amour-12-Oz-IMAGEM-SECUNDÁRIA-e1411543505962-509x350
Explique como surgiu a ideia de ter Marcelo Maiolo como colorista de seu projeto e, é claro, como foi ter um trabalho seu colorido por outra pessoa.
Em 2013, o Marcelo Maiolo, coloriu um Hulk que eu havia desenhado. Quando recebi o Hulk colorido fique espantado. Achei que as cores havia combinado muito com o meu traço. Aliás, achei que havia valorizado e muito meu desenho.
Acho que quando estava desenhando a página 30 da HQ, ou algo assim, tive esse estalo. Pensei comigo mesmo que poderia arriscar e convidar o Maiolo para colorir a HQ. Lógico que sabia dos títulos que o cara é responsável, mas mesmo assim arrisquei. O máximo que poderia ouvir seria um sonoro não.
O melhor de toda essa história é que o Maiolo aceitou colorir a revista. Agora ver meu trabalho colorido pelo Maiolo é incrível. Sempre fui fã das cores do camarada e ele ouviu sobre como gostaria que as cores fossem. Elaborou uma paleta com poucas cores e acertou de primeira!
Ter seu trabalho colorido pelo Maiolo é como entregar um fusquinha para ele e ele poliu, poliu, poliu até virar um Porsche (risos).
Você tem se estabilizado como um profissional em constante ascensão no mercado, e com um grande diferencial: não trabalhou com as majors americanas e produz seus próprios álbuns de forma autoral e independente. Por que resolveu trilhar este caminho? Você já pensou em trabalhar para aluma major americana em projetos especiais?
Fico muito honrado em ouvir tantos elogios nesta pergunta. Muito obrigado!
Esse caminho é o mais natural para mim. Acredito que o fato de antes de fazer quadrinhos eu ter trabalho por quase 20 anos com normas, regras e um disciplina extremamente rígida, tenha me induzido a liberdade que prezo ao meu trabalho como quadrinista. Acho que nunca me imaginei fazendo um trabalho para alguma major norte americana. Fico imaginando onde me traço se encaixaria. Onde? Como seria? Entretanto, nunca recebi proposta alguma. Se algum dia receber, com certeza vou analisar com carinho. Nunca fecho porta alguma.
Mas, intimamente, eu sempre gostei de fazer tudo sozinho. Sempre gostei de ‘do it yourself’. Foi assim com minha primeira HQzine, Luzcia, a Dona do Boteco. Foi assim com O Quarto Vivente e foi assim com L’Amour: 12 oz, que a editora MINO apareceu quando praticamente a revista estava pronta.
Só tenho que ressaltar que tenho um grande camarada, amigo e parceiro que lê todos os meus roteiros, corrige e faz a revisão. Além de eu enviar todas as páginas enquanto vou produzindo a revista. Esse cara é o Daniel Lopes, apresentador do Pipoca e Nanquim. Ele é de minha extrema confiança e desta forma, sem o aval dele, nada será feito.
Não tenho problemas em trabalhar com editores. Considero o Daniel Lopes como um editor que tenho o privilegio de ter. Ele sugere, eu analiso e eu aceito.
Agora voltando ao assunto majors. Nunca recebi convite algum. Se algum dia receber, ficarei feliz em poder analisar e quem sabe…
Seus álbuns têm recebido grandes elogios e ótima receptividade aqui no Brasil. Inclusive, na Comic Con Experience você contou ao Terra Zero que vendeu “O Quarto Vivente” e “L’Amour 12 oz” para pessoas que sequer tinham lido quadrinhos na vida. E, curiosamente, devido à sua grande influência em Moebius, há um ar fortíssimo de quadrinhos europeus no seu trabalho. Já houve propostas para que seus trabalhos chegassem a outros países?
Sim, já fui notificado de um interesse lá no velho continente.
Esse lance de ar europeu das meus quadrinhos também é algo natural para mim. É exatamente dessa forma que prefiro fazer. Li muito quadrinho norte americano, europeu, japonês e muito coisa nacional. Minha estética é essa que venho apresentando. Não forço nada. Não fico pensando em fazer algo ‘bem europeu’, ou algo assim, ou de outra forma. Faço como meu trabalho flui e me identifico.
O que eu contei para vocês na Comic Con Experience foi algo lindo. Um camarada de uns 40, 45 anos se aproximou da minha mesa me dizendo que havia gostado da capa da L’Amour: 12 oz.
Conversei tranquilamente com o camarada que me revelou que não era leitor de HQ, mas que havia gostado do meu desenho, dos temas das minhas revistas, do nosso bate-papo e resolveu comprar as duas HQ. Até fiz o convite para ele conhecer melhor o Artists Alley, falei que era maior que o Artists Alley da Comic Con de San Diego e, finalizando as compras dele comigo, observei ele sumindo em direção ao estande Chiaroscuro, observando as mesas de mais artistas.
Pra finalizar, o que você pode dizer sobre seu próximo projeto?
Bem, já estou finalizando o roteiro do meu novo trabalho. E acredito que muitos vão se surpreender. Digo isso pois talvez seja o meu trabalho mais diferente entre OQV e L’Amour: 12 oz. Acho que posso adiantar que haverá um pouco de violência. Já está ótimo!
Luciano, obrigado mais uma vez por conversar com o Terra Zero!
Eu que agradeço ao espaço e apoio. Fazer quadrinhos sem o apoio de gente como vocês para divulgar e fazer o mercado girar, seria em vão. Um grande abraço e muito obrigado!