Luciano Salles é quadrinista, ilustrador da Folha de S.Paulo e 1/3 da Produtora Cultural e Editora Memento 832.
Autor da histórias em quadrinhos EUDAIMONIA (2017, Publicação independente/Catarse), Limiar: Dark Matter (2015, Publicação independente), L’Amour: 12 oz (2014, Editora MINO), O Quarto Vivente (2013, Publicação independente) e da HQzine Luzcia, a Dona do Boteco (2012, Publicação independente).
Contato: lucianosalles@dimensaolimbo.com

8.10.18

Entrevista (de fôlego) para o Tapioca Mecânica e entrevista em vídeo para o Chapéu do Presto

Olá, tudo bem?

Segue entrevista em vídeo para o Chapéu do Presto, que aconteceu no Festival de Quadrinhos de Limeira e, na sequência, entrevista que concedi ao site Tapioca Mecânica, no FIQ 2018.

Confira e se quiser deixar alguma pergunta ou consideração, fique a vontade e use os comentários para isso.

Um abraço.

Luciano Salles.



Entrevista para Tapioca Entrevista – LUCIANO SALLES FIQ 2018
por Gabriel Fraga | 12 /09/ 2018 | Destaques, Quadrinhos

Na última semana de maio de 2018 ocorreu mais uma edição do tradicional Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) em Belo Horizonte e o Tapioca Mecânica esteve lá. Foram feitas várias e interessantes entrevistas e que depois de um trabalhinho de transcrição, agora apresentaremos nessa coluna de quarta-feira.
A primeira entrevista foi com o quadrinista Luciano Salles. Muito gentil e solícito com seu tempo, Luciano nos cedeu um dos melhores bate-papos que já fizemos, além de ser muito esclarecedora sobre seus quadrinhos e seu jeito de encarar arte.

TAPIOCA MECÂNICA: No Quarto Vivente você fala do período em que viveu em Araraquara, interior de São Paulo. Parece ter sido um momento muito importante para sua formação.
LUCIANO SALLES: Eu me mudei pra Araraquara bem pequeno, com dez anos. Caí numa ruela sem saída, pequena e foi tudo que eu poderia querer: punk rock, skate e fanzine, desenhos. Tudo que eu gostava de fazer. E foi bem formador. Nessa época zine não era só desenho, não era só história em quadrinho. Tinha matéria sobre a banda de rock da cidade e aí nós mandávamos pra Recife e eles devolviam com outras matérias e fitas cassetes das bandas de lá. E eu já sabia que era isso que eu queria fazer. Isso foi em 1985…

TM: E fazia tudo isso aos dez anos, fanzine, punk rock e skate? (risos).
SALLES: Pior que sim. Eu entrei nesse mundo com dez anos e fui até os vinte e três. Andei bastante de skate, mexi muito com música, ainda mexo um pouquinho.

TM: Tocando?
SALLES: Não toco mais nada. Meu violão tá com meu pai, minha guitarra tá indo pro meu irmão, meu trompete tá parado. Às vezes faço alguma trilha pra algum espetáculo de balé ou curta-metragem. Mas isso aí ficou incrustrado em mim.
Como eu falei, em 1985, era outro mundo, cara. Você tinha que fazer uma faculdade e seguir a carreira, por isso que sempre estudei muito, sempre gostei de estudar, estudei pra caramba, sempre fui muito CDF, CDF mesmo, nem tinha nerd no Brasil ainda e foi isso. O quadrinho veio bem depois, com 37 anos.



TM: Você fez faculdade de engenharia e me diversos momentos falou sobre a relutância que tinha em fazer quadrinhos até que chegou a hora. Como foi esse momento? Houve um catalizador? A hora que você parou e disse ‘eu tenho que fazer isso agora”.

SALLES: É, nessa época eu trabalhava no banco S*****, era gestor lá e aconteceu de eu ficar doente, na real. Se tivesse ficado era capaz de estar lá ainda. Capaz não, certamente estaria. Mas eu fiquei doente de verdade e não tinha mais condições e uma madrugada minha esposa falou “olha, amanhã você pede demissão” e eu fiz isso mesmo. Passei quatro meses pedindo demissão e eles não aceitavam, mas perceberam que eu não estava legal e aí eles foram muito gente boa e me mandaram embora. Me pagaram tudo, eu fiquei um tempão lá, me dediquei ao máximo e saí por motivo de doença. Mas saí e já fiz o Luzcia, a Dona do Boteco no mesmo mês e de lá pra cá vivo exclusivamente de quadrinhos.

TM: Isso foi em…?
SALLES: Isso foi em 2012. Saí do banco em abril e no final de maio já estava com o Luzcia pronto e tentando vender online.

TM: O Quarto Vivente fala de um mundo em que catástrofes aconteceram, a Europa, pelo que eu entendi, sumiu, os franceses vieram pro Brasil e depois disso a sociedade evoluiu. Tanto é que o nome do país é República Fraternal, parece um tempo de paz. Porém eu ainda sinto muita angústia nele e no Dark Matter, onde as pessoas consomem matéria negra – no futuro as pessoas consomem aquilo que gerou o universo. Não sei se é real, mas eu sinto muito uma angústia sua com coisas limpinhas, coisas perfeitinhas. Uma certa inquietude com ideias utópicas. Existe isso mesmo?
SALLES: Acho que todo artista é um ser angustiado. Você tem razão. O Quarto Vivente era como se fosse um mundo ideal, mas na leitura todos estão sempre de ouvido tampado e lá o acaso não existe mais. Se for pensar nisso, sem o acaso há o controle absoluto e aí fica naquilo, mas não temos como mensurar o que seria um controle absoluto. Por isso a Juliete faz o que ela faz: uma menina de quinze anos que decide… e tem muita coisa por trás, o fato de ela se chamar Juliete Manon, que é diminutivo de Maria Manon, Maria mãe de Jesus. Tem muito dessas coisas no livro. Acho que é a primeira entrevista que eu falo isso, o nome dela, o que ela faz tem a ver, o Quarto Vivente tem a ver com o apocalipse, uma parte que fala dos quatro seres viventes do apocalipse, tem muito dessas coisas por baixo da história. E tem uma análise do Quarto Vivente pelo Pipoca e Nanquim, que está num texto no site deles, em que eles destrincharam noventa por cento do que eu coloquei na obra. (Link)

TM: No final, quando ela dá à luz a baleia ou o golfinho, seria o retorno do mistério ao mundo deles?
SALLES: Seria. Ela rompeu com tudo de uma forma não casual. Ela comprou aquele tipo de parto, ela comprou aquilo. Porque não teria como ser acaso. Ela fez aquilo pra romper com tudo, pra ser a primeira pessoa, até então, que fez aquilo e é louco porque eu li há pouco tempo, há uns dois anos ou um ano e meio que uma moça no Japão estava tentando gerar um tubarão. Uma loucura.

TM: A vida imita a arte (risos).
SALLES: A vida imita a arte, mas assim… nós ainda somos muito limitados. Não conseguimos ir muito além. Se você pegar todas as histórias que estão aqui, sei lá, não estou menosprezando todo mundo que está aqui, mas sei lá. Nós somos muito limitados, é muito difícil nós extrapolarmos.
TM: Essa é a angústia presente nos seus quadrinhos então, chegar a um lugar diferente?
SALLES: É, eu gosto. É uma pretensão que não vai acontecer.

TM: Mas é muito saudável.
SALLES: É saudável e, de certo modo, pode até me prejudicar como autor porque a pessoa pode passar e ficar “ah, li e não entendi nada!”.
(Risos)

TM: Aproveitando, como você se vê então? Porque você escolhe narrar seus quadrinhos dessa forma. Como você se vê então nos quadrinhos brasileiros? Você pensa nisso?
SALLES: Já pensei nisso.

TM: Você é o Grant Morrison do Brasil?
SALLES: Não, cara.

TM: Você recebe muitas críticas que o Morrison receberia; que é difícil, que não dá pra entender…
SALLES: Sim, mas sabe o que eu penso, cara? Não estou me menosprezando. Sei que eu sou um autor e que, de alguma forma, as pessoas já leram, já ouviram falar, de alguma forma, do meu nome. Mas eu faço uma correlação com futebol, mesmo sem acompanhar: me sinto como um time da série C ou série D. Tem os quadrinhistas da série A, tem os quadrinistas de Champions League. Juro, me sinto da série C, série D.

TM: Que é isso…
SALLES: Sim. Vinil não tem um lado A e um lado B? Eu acho que sempre fui lado B.

TM: Mas por escolha, você gosta de ser o lado B.
SALLES: Eu não consigo ser o lado A. Pode ser uma escolha, mas mesmo que eu tente ser o lado A não vai rolar.

TM: Mas isso é muito bom, precisa de gente que – não que faça o que você faz, porque só você faz o que você faz – mas que saia da zona de conforto, que explore o que muitos não vão explorar.
SALLES: Sim, eu estou com umas ideias de histórias na cabeça, mas eu estou procurando que eu consiga que daqui a uns três anos quando eu ler, que eu não diga “poxa, podia ter pensado um pouquinho mais”. Eu não tenho muita pressa de entregar um quadrinho, não preciso entregar um quadrinho todo ano, a cada ano e meio, eu quero fazer algo que seja relevante pra mim e que o leitor, de certa forma, acabe de ler e pense um pouquinho, que fale “o que foi isso aqui?”, e que participe porque o quadrinho só tem sentido quando o leitor participa. Sempre li quadrinhos assim e gosto que seja assim. Lógico, eu gosto de ler uma história que seja “‘TUM’, acabei de ler, acabou, guardei”, mas eu gosto de ler coisas que me façam pensar, de ver filmes que façam pensar, de filmes que acabem e eu fico “poxa, acabou mesmo? Assim? Será? Ou caiu a internet?”.

TM: Quem te influencia então? Tanto em quadrinhos quanto em cinema. Além do Moebius. (Risos).
SALLES: Então, Moebius; a cada dia percebo que o Frank Miller é uma influência maior sobre mim, mas não percebia isso. E meus desenhos novos, que eu ainda não mostrei estão, de certa forma, diferentes. Sou eu desenhando, mas sinto que está um pouquinho diferente.
Miller, Moebius, Mutarelli, e tem pessoas assim que eu tremo na base até hoje, que é o Marcatti. O Marcatti, toda vez que ele conversa comigo eu fico um pouquinho nervoso e hoje ele tá aqui do meu lado [aponta para a mesa de Francisco Marcatti, ao lado da sua] e eu tenho coisas dele desde o Chiclete com Banana, que eu recortava.

TM: E em cinema?
SALLES: Pra fazer quadrinhos o que mais me influencia é cinema. Gosto muito do Gaspar Noé, de Love e Enter the Void [Viagem Alucinante], tanto que a cor de Limiar, Dark Matter quem fez foi o Marcelo Maiolo e eu disse pra ele que tinha que assistir o Enter The Void e aquela era a sensação de cores que eu queria, pra ele poder montar a paleta dele. E a cor veio perfeita.
Vou falar de um diretor chato, que muita gente odeia, o Lars Von Trier.

TM: Sabia que você ia falar Lars Von Trier. (Risos).
SALLES: Você quer dar na minha cara, não é?

TM: Não! (Risos). Eu gosto dele.
SALLES: Ele fala umas besteiras, tem uns problemas. Lars Von Trier, Gus Van Sant. Eu gosto muito do Almodóvar, até pelas cores que ele usa. Posso ficar o dia aqui, os Irmãos Coen, David Lynch. David Lynch acho que é o principal, só lembrei dele agora.

TM: Me fala do seu processo. Todo dia tem um número de páginas que você tem que atingir, ou número de horas, é meio anárquico, o quanto você tem vontade…
SALLES: Como eu tive todo esse processo antes de trabalhar com quadrinhos, trabalhar com engenharia, trabalhar em banco, você fica normatizado com muitas coisas. Lá eu tinha horário pra chegar, pra bater ponto, cobrar dos outros e eu sempre, apesar de não poder falar isso para as pessoas, mas eu sempre pensei e procurei porque as coisas… lógico que existem convenções e pode parecer que eu estou falando loucuras agora, mas eu posso começar um trilogia pelos números três, sete e nove, não precisa ser um, dois, três. Parece loucura isso, mas…

TM: Não. Star Wars está aí.
SALLES: (Risos)

TM: Só que Star Wars é o lado A.
SALLES: (Risos) É. Totalmente lado A.

TM: Criou o lado A.
SALLES: Eu não lembro quem fez Videodrome, foi o…

TM: Cronenberg.
SALLES: Cronenberg! Fantástico, eu falei Cronenberg, né?

TM: Agora falou. (Risos).
SALLES: Então está valendo. Eu não tenho mais segunda, eu não tenho mais horário. Aqui não posso porque abre e fecha. Mas se me deu sono em casa às dez da manhã eu deito e durmo. Acordo meio-dia, como alguma coisa. Se estou com um roteiro, volto a escrever o roteiro, embalo, quando percebo são dez da noite. Claro, tudo isso vivendo bem com a minha esposa. Mas não tenho mais esses horários; procuro não criar esses horários. A única coisa que eu faço sempre é acordar às quatro da manhã, mas isso aí é desde sempre.

TM: É nois. (Risos).
SALLES: Mas não por insônia. Esse é o horário que eu acordo mesmo e também durmo cedo. E só respondo mensagem de manhã.
Quando eu pego pra fazer um quadrinho, eu faço o quadrinho. Acordo, desenho até cansar, durmo, acordo, como, faço, durmo…

TM: Tem roteiro primeiro?
SALLES: Tem roteiro, penso a história inteira, do começo ao fim, tudo, frases, o que um vai falar pro outro, tenho tudo na minha cabeça, faço um roteiro bonitinho, quase de cinema, na realidade, e aí sim eu vou desenhar. Isso eu preciso fazer porque ajuda meu desenho.

TM: Então não sofre de bloqueio criativo? Uma página que tá difícil de sair, um layout?
SALLES: Não, não sofro com isso. Porque antes de eu escrever o roteiro, já pensei em tudo. Vou pensando, vou pensando, vou pensando. E eu não anoto nada de uma ideia que eu tive. Se eu tive uma ideia hoje, eu não vou marcar ela. Porque às vezes eu marco e essa ideia é tão lixo, mas eu marquei. Se marquei, me apeguei. Então não anoto. Se eu esquecer, era ruim. Se for boa eu lembro.

TM: Que incrível. (Risos).
SALLES: Eu prefiro assim. Geralmente eu esqueço um monte de ideias, mas então é porque eram lixo. Se não esqueci, aí vou dando continuidade.

TM: Já falamos sobre isso um pouco, se seus quadrinhos são difíceis de entender. É a maneira que você faz quadrinhos, né? São seus quadrinhos.
SALLES: São meus quadrinhos. Mas eu também não acho difíceis de entender. Mas aí também, eu que escrevi, né?
(Risos).

TM: Mas isso também é falta de costume de quem lê, não é?
SALLES: Então, sabe o que eu acho que acontece? Tem a história do Quarto Vivente, a primeira camada da história, que é a menina que faz isso, faz isso e isso, até chegar ao final. Mas dentro dessa história tem o porquê do nome dela, tem o porquê ela gera o que ela gera, se você for pesquisar o que ela gera, tem isso, não tem uma história que se passa dentro de uma baleia?

TM: Sim.
SALLES: Então, tem isso, também tem as coisas que eu boto no nome da história. Em Eudaimonia, por exemplo [quadrinho mais recente de Salles], só se chamou Eudaimonia por significar algo como felicidade. E o leopardo [da capa] vive em um estado de eudaimonia, porque ele só faz exatamente aquilo que a natureza criou ele pra fazer. Passa uma zebra, ele vai e come. Depois dorme. Ele não erra. Deu fome, ele pega outra coisa, isso é o estado eudaimônico dele. Qualquer animal vive em estado eudaimônico.

TM: Indo para o Eudaimonia. Por que a mudança de formato?
SALLES: Eu estava desesperado, não aguentava mais o couchê. Porque se eu for fazer um autógrafo pra alguém no couchê, eu tenho que desenhar com uma caneta retroprojetora. E é o fim desenhar com uma caneta retroprojetora, cara. É péssimo. E eu também queria fazer no papel pólen porque é gostoso de pegar. E também sem cores e no formato americano e tinha que ser preto e branco, mas aí eu coloquei tons de cinza. E a capa quem coloriu foi o Maiolo porque eu estava colorindo, mas estava péssimo.

TM: A parceria de vocês é inusitada porque ele é o cara dos títulos americanos e essas coisas. Como vocês se conheceram?
SALLES: Ele fica com pena de mim, acho. (Risos). Ele é bonzinho demais.
Eu fui numa palestra do Gustavo Duarte em Piracicaba, onde ele mora. Um bate papo. Lá o Gustavo Duarte Falou que precisava colorir um quadrinho e ficou desesperado e pensou “Ah, se o Maiolo estivesse disponível” e apontou pro Maiolo. E eu fiquei “putz, o Maiolo está aqui?”. Porque eu sempre gostei do trabalho do Maiolo, das cores. Aí já esqueci o Gustavo Duarte (RISOS) e fiquei “Quem é o Maiolo, quem é o Maiolo…?” aí acabou e fiquei conversando com o Gustavo Duarte e eu estava com o Quarto Vivente na mochila e o Maiolo chegou. Ele deu uma olhada no Quarto Vivente e falou “você está vendendo?”. Eu falei “tô”.
Ele disse “eu li essa frase ‘Georginas, ainda defecas?’”. E falou que queria comprar por causa daquela frase. Aí começou a amizade. Aí ele falou que fazia cor.

TM: Quais temas você queria botar no Eudaimonia? Porque tem a sua primeira personagem. Que você queria trabalhar no quadrinho.
SALLES: Eu encanei com o leopardo. Ao mesmo tempo eu queria trabalhar com a Luzcia. Não sei se é porque é minha primeira personagem, mas eu gosto muito da Luzcia.

TM: Ela é inspirada em alguém da vida real?
SALLES: Ela é inspirada na secretária de um médico. A secretária era muito brava. Na consulta, ela entrou no escritório gritando com o médico porque ele não tinha carimbado o CRM dele onde assinou e ela carimbou muito nervosa. Isso foi uma consulta que eu fui com meu pai. Ela interrompeu a consulta e meu pai, enquanto ela estava brava com o médico meu pai veio no meu ouvido e disse baixinho “nossa, meu, a Luzcia deve ser a dona do boteco”.

TM: (Risos) Fantástico. E esse é o nome do quadrinho.
SALLES: Isso. Luzcia, Dona do Boteco.
E o Eudaimonia, eu queria fazer a história de um caçador que caçasse uma parte do ser-humano. Uma parte só. Aí ele tem duas chances. Ele falha na primeira e na segunda ele acaba cruzando com a Luzcia no caminho dele. Ela está sofrendo com as dores dela, com a falta de medicamentos. E quem ele precisa caçar é quem fornece os medicamentos dela.

TM: E no final, sem entregar muito, o caçador vive em um estado de paz e só aceita o que acontece com ele.
SALLES: Ele vive em um estado eudaimônico e a Luzcia também. A Luzcia é daquele jeito, ela vive da forma que acha que tem que viver, ela é violenta da forma que acha que tem que ser. É natural pra ela, é o estado eudaimônico dela. Ela vive assim como ele.
Mas… posso dar um furo jornalístico aqui [brilham os olhos dos Tapioqueiros] porque o Pipacu, ele aparece na história, mas ninguém sabe quem ele caça, como ele caça, por quê ele caça… pode ser que venha uma história que… entendeu?

TM: Opa! Rolou um teaser!
SALLES: É tipo um Star Wars reverso.

TM: “Uma história Eudaimônica”. (Risos). Pra terminar: Que quadrinho você levaria pra uma olha deserta?
SALLES: Eu não levaria um quadrinho. Não levaria quadrinho pra uma ilha deserta.

TM: Levaria o que então?
SALLES: Não levaria quadrinhos, mas pra responder a pergunta e não ser um c*zão, eu iria procurar comida numa ilha deserta porque estou com fome. Se tivesse um quadrinho na ilha eu iria queimar pra fazer fogo. Mas se fosse pra levar um quadrinho mesmo eu levaria o Garagem Hermética.

TM: Dizem que toda obra carrega um pouco do seu autor. O que tem de você na sua obra, no seu trabalho? O que você coloca que é seu?
SALLES: O que eu sinto que eu coloco em todas as obras e vou continuar colocando é que eu nunca estou satisfeito com as explicações que são dadas. Nunca.

TM: Pós-modernista.
SALLES: Pode ser. Eu nunca… por exemplo, a internet é uma coisa excelente, eu consigo sobreviver das vendas na internet, vendo original pro exterior, mas ainda sinto que não é assim que ela deveria ser. De certa forma é, mas não é assim, sabe. É uma coisa muito louca isso. Eu sou meio inconformado com formatos padronizados.

Foi assim nossa entrevista com Luciano. Foi muito interessante poder cutucar a cabeça do cara um pouco e tentar ver como sua mente funciona e como gerou tantas ideias mirabolantes pros seus trabalhos. Mal posso aguardar encontros futuros. Fica aqui nosso muito obrigado a ele e a você que leu até o fim e se quiser encontrar mais quadrinhos do Luciano Salles, basta clicar aqui e até semana que vem com a próxima entrevista do FIQ 2018.