Luciano Salles é quadrinista, ilustrador freelancer da Folha de S.Paulo e 1/3 da Produtora Cultural Memento 832.
Autor das Histórias em Quadrinhos Limiar: Dark Matter (2015, Publicação Independente), L'Amour: 12 oz (2014, MINO) indicada ao 27º HQMIX, O Quarto Vivente (2013, Publicação Independente) indicada ao 26º HQMIX e da HQzine Luzcia, a Dona do Boteco (2012, Publicação Independente), indicada ao 27º HQMIX.

14.9.13

Resenha : As Muitas Leituras de 'O Quarto Vivente'.

Olá, camarada. Tudo certo?

Ontem saiu uma resenha de O Quarto Vivente no site Contraversão. Confesso que fui surpreendido pela resenha. Aqui o link direto para a matéria. Abaixo, texto na integra.

Abraço...

Luciano Salles.


As muitas leituras de O Quarto Vivente

Por:   |  em 13/09/2013  |  0 comentários

Capa da frente
Quando li O Quarto Vivente pela primeira vez, minha sensação foi a de ter visto uma janela para um futuro paralelo, mas que o tempo que eu tinha para ver era de apenas alguns poucos minutos. Luciano Salles  é um autor que gosta de provocar sensações, estranhezas e dar choques de 220 volts na sua cachola pra ver se sai alguma coisa. O que ele faz não é contar histórias. Ele faz arte. Meu segundo contato com essa história em quadrinhos foi em uma resenha escrita por Gustavo Vícola, publicada na edição46 da revista Mundo dos Super-heróis. Depois de elogiar o desenho e a qualidade da impressão, o crítico afirma o seguinte “É uma pena que, em meio a tantos acertos, o argumento da HQ seja confuso e Salles não consiga apresentar com clareza o estranho mundo futurista que criou, resultando em diálogos às vezes incompreensíveis.” Inicialmente, discordei com muita veemência da resenha! Afinal, eu havia me encantado com o trabalho lisérgico, futurista e com altas doses de surrealismo de Luciano Salles. Porém, ao reler “O Quarto Vivente”, acabei concordando em parte com o Gustavo Vícola.
Page 10
  “O Quarto Vivente” é uma história em quadrinhos futurista protagonizada pela jovem Juliett-E, que quer ser mãe e busca os métodos mais modernos para ter autonomia masculina nessa história. No entanto, a história não se trata desta personagem. Em minha segunda leitura, percebi que o quarto vivente sou eu. Sim, leitor. O Quarto Vivente é o próprio leitor, que é convidado por Luciano Salles para entender esse sonho, vislumbre, visão. Para ajudá-lo a interpretar. No posfácio, existe um texto de Daniel Lopes, parceiros do Pipoca e Nanquim, afirmando todas as suspeitas que um leitor mais versado em outras artes poderia sacar. Segundo ele, Luciano é herdeiro de David Lynch, Moebius, Philip K. Dick… Mesmo essa visão ainda não pegou o pulo do gato de Luciano Salles. “O Quarto Vivente” não é uma história, mas uma experiência que deve ser vivenciada como tal. Algumas coisas são impossíveis de contar e só podem ser compreendidas quando vividas. Foi isso que o supracitado autor tentou fazer, contar algo que ele considera inviável de ser contado. Para isso, ele nos pede que o ajudemos a interpretar esse sonho louco distópico, sujo e artificial.
Page 21
  O grande mote da história é que tudo soa falso, tudo soa dentro da moda e com altas dosagens de mentalidade de gado. Quando nos tornamos parte desse sistema que perde o sentido? Quando a influência norte-americana foi mais forte que a francesa, tão apreciada pelo meio acadêmico brasileiro? Até quando vamos ver a concepção como algo feito por um homem e uma mulher? O julgamento do próximo dá o tom de toda a história, parecem páginas sem sentido, mas elas são a chave decodificadora. O mundo é das aparências e até os velhos reacionários sabem disso. Algumas obras não estão aqui para dar respostas, para pegar na sua mão e te levar a todas as conclusões do autor. Outras são muito mais inspiradas em Carlos Castañeda, Timothy Leary, Robert Anton Wilson, Aleister Crowley, William Burroughs, Alejandro Josorowsky e outros pensadores que rompem com a necessidade de serem entendidos ou óbvio.
Page 25
O Quarto Vivente não é para ser lido, mas vivido. Sua experiência de leitura não é para trazer respostas, mas para que você seja forçado a fazer perguntas. Por isso, devo concordar com a resenha de Gustavo Vícola. Realmente, Luciano Salles não mostrou com clareza esse mundo futurista e deixou seu argumento confuso, mas não é uma pena. Ele nunca quis que você soubesse do que a obra estava falando. Na verdade, ele provou pra você que a nossa visão de hoje para “o estranho mundo futurista que criou” seria essa. Afinal, vemos o mundo pelos olhos do nosso tempo. As minhas perguntas foram: Quem diabos é esse “O Quarto Vivente”? O que significa o nascimento de uma criança? Por que você ainda não leu Moby Dick? Você já é um dos conformados com a rotina e o óbvio? O que leva alguém a querer ter um filho? Muita gente se apaixona por quem quer ter filhos e se casar, pois isso tem aquele cheirinho de nostalgia, certo? Partos na água são uma moda sem o menor sentido ou somos criaturas aquáticas? Será que o Luciano Salles pensou alguma coisa ao fazer isso tudo? Ele teria apenas sonhado

Saiba mais: www.dimensaolimbo.com


Editor da MAD, do blog Contraversão e dos quadrinhos da Editora Draco. Atua como social media e roteirista das HQs Ditadura No Ar, Ida e Volta e Apagão. Quadrinhos, humor, terror, literatura e subversão.


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