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Olá, tudo bem?
Ontem iniciei minha primeira campanha de financiamento coletivo, no Catarse, para financiar a impressão da minha nova HQ chamada EUDAIMONIA.
Se ainda não viu a campanha, este é o link: https://www.catarse.me/eudaimonia
O projeto só acontece com 100% da meta alcançada então clique no link acima, conheça o projeto e escolha a recompensa que melhor lhe agradar.
Ainda ontem sairam duas matérias sobre meu Catarse, uma com entrevista e a outra falando do projeto, em grandes sites que trabalham o tema quadrinhos e cultura pop e que são: Terra Zero e Vitralizado. Você pode conferir as matérias logo abaixo do vídeo que fiz para a campanha. A formatação muda um pouco pois “copiei” e “colei” as pautas aqui ?
Qualquer dúvida, elogio ou comentário serão muito bem vindos!
Muito obrigado.
Luciano Salles.

VITRALIZADO, por Ramon Vitral:
EUDAIMONIA: a campanha de financiamento coletivo no Catarse da nova HQ de Luciano Salles.

Eudaimonia: a campanha de financiamento coletivo no Catarse da nova HQ de Luciano Salles
O quadrinista Luciano Salles colocou no ar no Catarse a campanha de financiamento coletivo de Eudaimonia, sua quinta HQ solo. A capa do livro será essa aqui em cima. Eu já apoiei o projeto e recomendo o mesmo pra você. Desde 2012, com o lançamento de Luzcia, a Dona do Boteco, Salles passou a ser um dos traços mais singulares e o autor de algumas das tramas mais mirabolantes dos quadrinhos nacionais. O Quarto Vivente, L’Amour: 12 oz e Limiar: Dark Matter tão aí pra comprovar.
Eudaimonia é o primeiro álbum em preto e branco de Salles desde Luzcia e terá 32 páginas. Segundo o autor, o quadrinho já está pronto e agora só falta imprimir. O lançamento será na Comic Con Experience 2017. O link pra página da campanha no Catarse tá aqui. Ó a sinopse da HQ:
“Piwl-Pa-Col é o nome de um estranho e solitário caçador que falha na tentativa de abater ‘uma parte’ de sua presa. Ele tem apenas uma segunda chance para o sucesso de sua caçada e, não por acaso, contará com a ajuda de uma inusitada parceira chamada Luzcia, a dona de um boteco”.

[ENTREVISTA] Luciano Salles revela detalhes exclusivos de EUDAIMONIA

Após ter lançado álbuns que mexeram com os leitores brasileiros — por oferecerem narrativas desafiadoras e temas artisticamente sérios –, Luciano Salles, um dos mais prolíficos artistas nacionais da atualidade, está prestes a lançar seu novo quadrinho, Eudaimonia. Contudo, a pegada agora é outra.
Salles está fazendo sua primeira investida no Catarse, tentando lançar Eudaimonia através de uma campanha inédita em sua carreira. O Terra Zero conversou exclusivamente com ele para saber mais detalhes sobre a HQ, o processo criativo dela e, claro, a campanha, que você pode apoiar clicando aqui.
Terra Zero: Os títulos das suas HQs são sempre enigmáticos. Como surgiu Eudaimonia?
Quando comecei a pensar na história de um caçador, minha cabeça sempre me conduzia para um leopardo. Qualquer documentário ou texto que fale sobre felinos cita o leopardo com um caçador perfeito.

Resumindo, ele não erra, pois faz somente aquilo, vive para aquilo, ou seja, a melhor coisa que um leopardo faz é ser um leopardo. A partir desse pensamento, o conceito de felicidade, da tradição antiga grega, que é basicamente viver da melhor forma possível através daquilo que você foi criado para fazer, ficou apitando em minha cabeça. Este conceito é chamado de eudaimonia.


Terra Zero: O que você pode falar sobre a HQ sem entregar as surpresas?
O posso falar é: “um estranho caçador tem apenas uma segunda chance para o êxito em capturar sua presa. Para isso, contará com a ajuda de uma velha senhora”. Essa é uma história curta e percebi que gosto disso.

Terra Zero: Você vem de três contos de ficção científica, que exploravam estágios humanos. Quando conversamos, há alguns anos, você disse que seu quarto trabalho seria um desafio. Como está encarando as mudanças?
Mudança é sempre bom e estou bem feliz com o resultado. Como disse, eu vim de uma trinca de ficção científica e este trabalho, com certeza, foi um grande desafio pois ele não existia até abril/maio deste ano. Estava trabalhando em outra HQ, mas Eudaimonia explodiu em minha cabeça e alterei alguns cronogramas que estavam certos pra mim e que havia determinado para 2018.

Comecei a pensar na opção de fazer um financiamento coletivo e participar do ProAC. Eudaimonia ficou com o Catarse.


Terra Zero: Como foi criar uma campanha no Catarse? Qual é a avaliação da experiência até agora?
Vou poder avaliar muito melhor a campanha com uns quinze dias corridos. Hoje [na data da realização da entrevista] estamos no primeiro dia. Estou empolgado e bastante ansioso como tudo isso.

Antes de mais nada, tive que tomar coragem para criar essa campanha. Estudei muito a plataforma, li tudo o que o Catarse fornece, pesquisei por projetos com grande êxito em suas campanhas, projetos que falharam, que foram sofridos para serem financiados, que receberam e recebem reclamações por atraso ou qualquer outro problema. Tudo isso para eu tentar reduzir a praticamente zero as surpresas que posso vir a ter.


Quando decidi pelo financiamento coletivo, tornei primordial entender que eu terei a minha expectativa exponencialmente acrescida da expectativa de cada colaborador, e isso me fez tomar cuidados redobrados. Tenho ciência que imprevistos podem acontecer, pois dependerei dos Correios, por exemplo.

Entretanto, fiz uma programação para possíveis erros, extravios e o que mais puder surgir de supetão. O cronograma está tão detalhado que o que me preocupa agora é conseguir bater a meta.


Terra Zero: Eudaimonia tem algum vínculo com suas histórias anteriores? Existe um “lucianoverso” à vista?
Hahaha, seria muita pretensão minha pensar em algo assim, mas achei engraçado. Acredito que sua pergunta surge por eu criar histórias que não são baseadas em personagens que possam ser reais e também por nunca situar as histórias em lugares que existam. Acho legal contar uma história com personagens plausíveis em lugares comuns mas isso já acontece todo dia e o acaso se incumbe dos melhores enredos. Por isso prefiro inventar e ir pelo caminho que trilho.

Eudaimonia tem um vínculo com minha primeira HQ, Luzcia, a Dona do Boteco. Aliás, a conexão se faz com a personagem Luzcia. Ela dividirá a atenção do leitor junto com o caçador, Piwl-Pa-Col. Pronto, revelei o nome do dito cujo!

Olá, tudo bem?

A primeira resenha que minha nova HQ foi por um site que aprecio muito. O Vitralizado, coordenado pelo camarada Ramon Vitral é fantástico e deixo o convite para ler o review e a entrevista por lá.

Com sempre faço, disponibilizo por aqui também. E, se ainda não comprou sua edição, agora é a hora! E só ir para o Loja Online.

Grande abraço!

Luciano Salles.

Limiar: Dark Matter e o fim de um ciclo na carreira de Luciano Salles

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Limiar: Dark Matter e o fim de um ciclo na carreira de Luciano Salles
Luciano Salles diz estar encerrando um ciclo com o lançamento de Limiar: Dark Matter. A carreira do artista no mundo dos quadrinhos começou em 2012, com o lançamento de Luzcia, A Dona do Boteco. Com tiragem pequena e poucas páginas, a HQ foi uma espécie de cartão de visitas utilizado pelo quadrinista para apresentar seus dotes artísticos. O lançamento de O Quarto Vivente em 2013 deu início a uma série de publicações encerrada com seu mais recente trabalho. Entre os dois está L’Amour: 12 oz, um dos grandes gibis brasileiros lançados em 2014 e o mais belo e impactante álbum produzido por Salles até hoje.
Limiar sempre foi anunciado pelo autor como o ponto final dessa sua trajetória inicial como quadrinista. Apesar de seus enredos independentes, as três HQs compõem um mesmo cenário, com temas em comum e um mesmo acabamentos editorial. “Criei um diferente nascimento em O Quarto Vivente. Desenvolvi o princípio e o término da vida e do amor em nossas vidas em L’Amour: 12 oz. E, de modo superlativo, um tipo de apego pós vida em Limiar: Dark Matter”, conta Salles em entrevista por email (leia a íntegra no final do texto).
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A leitura de do quadrinho recém-lançado é difícil. Como anunciado pelo próprio autor no início do ano, o livro trata de uma história de vingança envolvendo três amigos. A trama é bem mais complicada que isso. O roteiro é ambientado em um futuro distópico e os colegas em busca de justiça são usuários de uma droga de efeitos mais do que alucinógenos. Eles ganham poderes para enfrentar o assassino do amigo morto.
No início de 2015, Salles comentou por aqui que não gostava de subestimar o leitor: “Ele é a peça chave em uma história em quadrinhos. O ciclo vai se fechar na mão dele, então que o ciclo seja fechado da melhor forma, ou seja, deixando o leitor imerso no que leu. Não estou dizendo que faço isso, mas que procuro (da minha forma) deixar caminhos, atalhos, ensejos, para que o leitor participe de alguma forma do que está consumindo. Eu gosto quando assisto um filme e aquilo me toca de tal forma que me incomoda, induz a repensar algumas coisas e reflito sobre aquilo”.
Se o objetivo de Salles em seu quarto título foi criar essa mesma sensação de desconforto, o quadrinho é um sucesso. Difícil de ser compreendido e com uma colorização bastante incômoda de autoria de Marcelo Maiolo, Limiar: Dark Matter é um dos quadrinhos mais estranhos, difíceis e curiosos do ano.



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– “Não precisamos ficar presos em tipos de histórias que funcionem. Qual será sua contribuição acrescentando mais do mesmo?”
Conversei com Luciano Salles sobre Limiar: Dark Matter. Ele falou sobre suas intenções com a obra, o fim do ciclo iniciado com O Quarto Vivente, a narrativa complexa de seu mais recente trabalho e seus planos para 2016. Papo bem massa. Saca só:

Achei o Limiar o mais estranho dos seus quadrinhos. Acho que é uma pergunta meio besta, mas necessária: como essa história surgiu na sua cabeça?
Tenho um grande amigo que mora no Canadá. Em comum tínhamos outro camarada que de um momento para outro faleceu. Tudo em apenas uma semana. Estava bom e então morto. Ficamos extremamente sentidos e angustiados com a notícia (acho que falávamos ao telefone) quando comentei que somos apenas memória. Nada além de memória. Um tipo de memória que varia de pessoa para pessoa.

A memória de alguém pelo outro depende do tipo de vínculo, afeto e reciprocidade. E foi assim que essa ideia me importunou e se manteve em minha cabeça. Esse foi o mote inicial mas sempre tive a intenção de contar a história como algo claustrofóbico.
Ao longo da produção do Limiar você ressaltou que esse livro fechava uma trilogia iniciada com O Quarto Vivente. Você tem o seu estilo de texto e escrita e os livros seguem um mesmo padrão, mas não consegui encontrar um elemento padrão que fosse comum nos três livros. Acho até cada um muito autônomo em termos de história. Existe um enredo maior que compõe as três obras?
Prefiro não usar o termo ‘trilogia’ e sim ‘arco’. Cada livros independe do outro. São histórias isoladas, pontuadas e que funcionam muito bem sozinhas. Entretanto, ao meu ver, quando finalizei o roteiro de Limiar: Dark Matter, percebi um fato: trabalhei com dilemas que sofremos para aceitar. Sofremos com nossa pequenez e geralmente não aceitamos isso. Somos seres prepotentes, cheios de soberba e discursos prontos. Somos orientados pelo que o momento diz ser adequado. Não conseguimos extrair o melhor de nossos sentimentos e pensamentos. Sempre reagimos com a guarda alta e prontos para atacar pelas costas. Sempre como convém. Sempre com respaldo de outro ou de outros. Sempre imbuindo um respaldo psicológico para nos acalentar. Somos assim.

A partir disso, criei um diferente nascimento em O Quarto Vivente. Desenvolvi o princípio e o término da vida e do amor em nossas vidas em L’Amour: 12 oz. E, de modo superlativo, um tipo de apego pós vida em Limiar: Dark Matter. É exatamente neste aspecto que acredito em que esse arco se encerra.
Para cada mínima ação, uma reação adequada é iniciada. É isso a vida e nunca a aceitaremos assim. Somos prepotentes demais dentro de uma escala universal.
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Um ponto em comum que vi entre o L’Amour e o Limiar é a questão da memória. O grande mote do Limiar parece ser o esforço pela manutenção da lembrança de um amigo. O L’Amour trata da passagem do tempo, algo que está incondicionalmente ligado à memória. Esse é um tema importante pra você?
Sim. Mas são tipos diferentes de memórias. Em L’Amour: 12 oz me preocupei com o sentido termodinâmico do tempo, da vida e amor. Em Limiar: Dark Matter o tempo que quis tratar é aquele que se apaga com seu avançar. Como era o sorriso de uma pessoa querida, por exemplo? Não é estranho quando você não lembra mais de algum aspecto de uma pessoa que se foi? Sendo assim e, respondendo a sua pergunta, a memória e os tipos de memórias são das coisas mais incríveis que existem.

Mas também há outros aspectos na história que estão muito presentes e de fato são tão importantes quanto o que citou. O fato do desconhecimento da composição da matéria escura e do uso dela para catalizar a memória, os elementos químicos que compõem todo o universo desde o big bang, o peso e especificidade de uma fagulha para um requerido reinicio (o limiar a que estamos sujeitos a todo momento), o delicado equilíbrio entre caos e ordem, o nome do personagem, alguns cenários, além do poder de imagens inseridas para uma compreensão e vínculos com as histórias anteriormente publicadas. E tudo isso amarrado dentro de uma típica e simples história de vingança.
Quando conversamos pela primeira vez você comentou comigo que “nunca e jamais se deve subestimar o leitor”. Acho o L’Amour uma HQ mais ousada, mas o Limiar parece exigir mais. Não sei se consegui entender a obra plenamente e creio que essa confusão na minha cabeça faz parte da dinâmica que você propôs ao gibi. Entendo o seu ponto de vista, mas você já pensou se existe um limite para a quantidade de crédito que deve ser dado ao leitor?
É claro que você entendeu a obra e os questionamentos ou sua chamada ‘confusão’ fazem parte da dinâmica. E, sinceramente, não acredito que este limite de crédito deva existir. Qual o motivo que supomos que alguma coisa é incompreensível para alguém? Há não ser que seja um estudo específico que exige uma base muito boa em, por exemplo, cálculo avançado. Mas é história em quadrinhos. Leitura com imagens. Gosto de tentar instigar o leitor de alguma forma.

Agora o que aceito é que esse limite geralmente não existe e é empurrado goela abaixo há todo momento e em todo lugar. Tudo pronto, pasteurizado e pronto para digerir. Muito do entretenimento é assim. Música, cinema, quadrinhos e muito mais. Sei que é arriscado trabalhar desta forma mas, às vezes, ler uma HQ ou mesmo um livro como se vira as páginas de uma revista ‘Caras’ não me deixa satisfeito. Fico entediado e geralmente não termino a leitura.
Assim como na música, existem diversos andamentos e tempos para uma HQ. Não precisamos ficar presos em tipos de histórias que funcionem. É mais ou menos como aplicar um fórmula matemática ideal para a solução de um problema. Penso que desta forma, qual será sua contribuição acrescentando mais do mesmo? Não quero que me entenda como prepotente ou que esteja dizendo que o que eu faço é algo novo e diferenciado. Não, muito ao contrário. Não inovo em nada. Não inovo no traço, no formato e nem na diagramação do álbum que seria o mais fácil em um primeiro momento. A tecla que insisto em fazer soar é a que temos que acrescentar sempre. Nem que seja em um mínimo detalhe.
Deixando de divagar e voltando a resposta de sua pergunta, acredito demais na empatia para com o leitor. Até pelo fato que sou mais leitor e espectador do que um camarada que faz quadrinhos. Faço uma HQ por ano enquanto leio, assisto e escuto muitas coisas dentro deste mesmo período.
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Aliás, pensando nisso, eu fui atrás daquela nossa primeira conversa e lá você fala de alguns cineastas que são referência pra você. Na época você citou David Lynch, Alejandro Iñáritto, Gaspar Noé, Lars Von Trier, Darren Aronofsky e Pedro Almodóvar. Vejo dois padrões óbvios nesses diretores: nenhum facilita o trabalho do público dos seus filmes e as obras deles não costumam ser as mais confortáveis de assistir. Até onde você acha que pode ir em termos narrativos sem afastar o leitor da obra?
Afastar o leitor da obra? Realmente não acredito nisso. Até pelo fato que conto a história que sinto que devo contar. Procuro ser 100% honesto comigo mesmo em cada página que produzo. Como disse, sei que pode ser arriscado trabalhar por essa linha tênue que, pra mim, é uma forma natural de executar o que pretendo. Meus trabalhos são escritos desta forma.

O que me encanta nesses diretores são suas distintas peculiaridades. Me atento demais em figurinos, nas cores, na fotografia e também me encanta o fato de apresentarem o que pretendem. Penso que o Pedro Almodovar não vai filmar algo pelo fato de estar na mídia, saca? Acho que é desta forma que o diálogo com o espectador está aberto.
Não é pelo fato da discussão de gênero, sexismo e outros assuntos estarem tão em voga que vou trabalhar com um destes assuntos, certo?
E você publicou o L’Amour pela Mino e depois quis publicar de forma independente outra vez. Durante a produção do Limiar você foi mostrando seu trabalho para conhecidos e amigos, certo? Que tipo de retorno você recebeu? Você chegou a mudar ou cogitou mudar alguma coisa em função de retorno desses leitores?
As únicas pessoas que conheciam a história desde o roteiro foram o Daniel Lopes, que é o editor da HQ e o Marcelo Maiolo, o colorista.

O trabalho com o Lopes é extremamente tranquilo. Ele entende perfeitamente o que pretendo e todas as sugestões que ele me concedeu eu atendi prontamente pois só tinham a acrescentar e melhorar a narrativa da história. Com o Maiolo é só deixar o monstro trabalhar que é certeza que vai ficar lindo.

No lançamento do quadrinho você comentou comigo que o Viagem Alucinante do Gaspar Noé foi a principal referência que você passou para o Marcelo Maiolo na hora de fazer as cores. O longa tem nas drogas uma de suas temáticas principais. O seu quadrinho também fala de drogas e fiquei com a impressão de vocês estarem querendo remeter a algum tipo de experiência alucinógena. A cor tem um peso mais intenso pra trama nessa HQ do que nas anteriores?
Sim, você está certo. Indico sempre um filme ao Maiolo para eu conseguir transmitir para ele a sensação das cores que pretendo. Acho muito mais fácil indicar um filme do que tentar verbalizar isso. Desta forma as cores para Limiar foram fundamentais para o melhor andamento da narrativa.

E como foi o trabalho com o Marcelo Maiolo? Foi tranquilo chegar à paleta ideal do quadrinho?
Trabalhar com o Maiolo é incrível. Como disse, eu queria transmitir a sensação das cores que desejava e assim indiquei um filme para ele. Não sou um colorista profissional e desta forma não sei como chegar a definir o que desejo nas cores. Por isso indico filmes para ele. Com o roteiro em mãos e o filme para assistir, ele tem a liberdade plena para criar a paleta.

Quando ele começou a me passar as páginas fiquei impressionado! Era exatamente como eu poderia imaginar e queria que as páginas ficassem mas, com certeza, jamais chegaria sozinho naquelas cores. Por isso deixo a dica: se você não é um colorista, chame alguém que entende para fazer isso. Só tem a agregar ao trabalho.
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Estamos às vésperas do FIQ e da CCXP. Como autor independente, o que vão representar para você esses eventos no final do ano? Você estabeleceu alguma estratégia de venda para cada uma dessas convenções?
Esses eventos são extremamente importantes para quadrinistas independentes. É onde posso angariar com os leitores o necessário fundo para quitar minha dívida com a gráfica. Além do fato de fidelizar e fornecer um novo quadrinho as pessoas que acompanham e gostam dos meus trabalhos.

Não montei nada especifico para o FIQ mas para a CCXP vou apresentar prints exclusivos.
E já falamos do seu comentário dizendo que essa HQ representava o final de um ciclo. O que esse final de ciclo significa pra você? Em termos da sua carreira, a publicação do Limiar é o fim de uma fase iniciada com o Luzcia?
Não com Luzcia, mas com O Quarto Vivente. Agora estou livre em relação a um formato físico, de como contar uma história e de novas propostas de roteiro. Terminar esse novo álbum me concedeu uma liberdade criativa imensa.

Esse final de ciclo só me traz imensa vontade de apresentar algo totalmente novo e assim deve ser seguido.

O Limiar acabou de sair, mas você já tem planos para o ano que vem, certo? Você comentou que tem em mente produzir algo menor e com um formato e estilo diferente do que usou até agora. Tem algo mais que você pode dizer sobre isso?
Basicamente só isso. Inclusive o modo de produção da minha futura HQ será diferente. Costumo atualizar em meu blog como anda a produção dos trabalhos. Nesse futuro próximo não farei assim. É difícil inovar mas vou tentar algo diferente.

Então para 2016 pretendo trabalhar muito mais com ilustração. Tentar abrir minha primeira lista de commission, quem sabe…

Contando é claro com uma nova história em quadrinhos. Resumindo é isso.

Olá, tudo bem?

Camarada tenho que afirmar que essa foi uma das entrevista com as perguntas mais legais que já respondi. Aqui o autor da pauta, Ramon Vitral, conversou comigo sabendo de tudo e um pouco mais sobre minha pequena contribuição aos quadrinhos nacionais.
Uma entrevista bem legal que você pode conferir aqui mesmo e logo abaixo ou, direto no Vitralizado.

Grande abraço!

Ramon Vitral

O primeiro quadrinho que li do Luciano Salles foi seu mais recente lançamento, L’Amour: 12 oz. O gibi foi uma das minhas leituras preferidas de 2014 e fui correr atrás de O Quarto Vivente, seu segundo trabalho. Foi eu passar a última página pra acessar correndo o site dele pra procurar Luzcia, A Dona do Boteco, sua primeira publicação – a versão impressa esgotou, mas tá na íntegra aqui. E agora não tenho mais nada inédito dele pra ler. Por enquanto, Salles publicou apenas três títulos e vejo um imenso crescente em sua produção. Fui apresentado ao trabalho dele pouco antes do lançamento de L’Amour, pelos editores da Mino responsáveis pelo trabalho. Entre a minha leitura de L’Amour e de O Quarto Vivente, encontrei esse texto dele no Stout Club, sobre o início de sua carreira como quadrinista e algumas opiniões suas sobre o mercado brasileiro de quadrinhos. E em seguida veio um depoimento em estilo de making-of do autor pro blog do Érico Assis. Caso não conheça o trabalho do quadrinista, não pense duas vezes, dê um jeito de ler – seus trabalhos estão a venda no blog dele. Trata-se definitivamente de alguém com traços e textos atípicos no mundo dos quadrinhos. E caso você conheça ou não, por favor, dê uma lida nesse papo que batemos. Ele tem muita coisa interessante a dizer:

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Gosto muito do seu texto no Stout Club sobre como você largou 20 anos de trabalho como engenheiro e depois em uma instituição financeira pra trabalhar com quadrinhos. A minha curiosidade é sobre como as pessoas próximas de você reagiam quando você dizia que ia largar uma coisa pra viver de histórias em quadrinhos. Alguém achou uma mudança de áreas meio drástica?
Na realidade eu não comentava isso com ninguém além da minha esposa, que me incentivou todo momento. Entre outubro de 2011 até 04 de abril de 2012, enfrentei alguns problemas de saúde que foram os catalisadores da minha decisão. Sempre fui uma pessoa organizada e me preparei bem para a mudança radical que faria. Quando digo que me preparei bem é que tinha metas do que exatamente queria e faria. Isso me deixava mais tranquilo apesar de nunca haver publicado nada. Mas estava tranquilo. Tinha aquelas metas na minha cabeça e tinha a certeza que daria certo.
Daí você resolve investir em quadrinhos: escrevendo, desenhando, editando, imprimindo e vendendo o Luzcia, certo? A revista esgotou, as pessoas gostaram e você acabou lançando O Quarto Vivente e o L’Amour. Mas você chegou a cogitar a possibilidade da primeira revista não ter dado certo? Você tinha um plano B caso as pessoas não tivessem gostado do Luzcia?
Não tinha exatamente um plano B. Eu imaginava que poderia trabalhar como ilustrador. Poderia adequar o meu traço para ilustrar livros, literatura infantil, jornal, revista, mas eu estava (e ainda continuo) tão confiante no que poderia produzir de forma independente e em quadrinhos, que acho que esse foi o motivo de Luzcia, a Dona do Boteco ter funcionado. Mas existe um pequeno detalhe. Desde que deixei a Instituição Financeira que fiquei por quase onze anos, eu trabalho hoje, em quantidade de horas, mais tempo do que quando era funcionário.
Eu fiz a opção de acabar com os dias da semana instituídos e preparatórios para um sábado e domingo. Eu acabei com os horários matutino, diurno e noturno. Trabalho quando preciso trabalhar e paro quando sinto que preciso parar. Meu corpo e mente me dizem quando devo parar, quando devo dormir e quando devo voltar ao trabalho. Eu trabalho todos os dias as revistas que já publiquei. Procuro novos pontos de venda, sempre ando com minhas HQ por onde vou, tenho o meu blog https://dimensaolimbo.com atualizado semanalmente e assim, por consequência, as coisas vão acontecendo.
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Eu gosto muito quando você fala no seu texto do Stout Club que “o mercado de quadrinhos autorais e independentes é apenas reativo ao seu trabalho”. Acho que muita gente pensa da mesma forma que você: tanto na internet quanto em lojas de quadrinhos eu vejo lançamentos e mais lançamentos. A minha dúvida é em relação à percepção que você tem do público: o mercado tem sido receptivo, mas os leitores que consomem esses trabalhos vão além do nicho de consumidores usuais de quadrinhos?
Essa é uma pergunta difícil de responder, mas acredito que nos últimos anos o mercado tem ganhado novos leitores. Penso que o cinema tenha favorecido isso. Às vezes o cara assiste ao filme do Guardiões da Galáxia, com toda aquela ambientação e fica interessado de onde tudo aquilo saiu. O mesmo senti na Comic Con Experience. Muitas pessoas que visitaram o evento não imaginavam a cena de quadrinhos que haveria ali. Inclusive o mercado independente de quadrinhos. Em um evento de tantas marcas de alcance mundial, ali estavam centenas de quadrinistas vendendo suas obras. O mercado nunca esteve melhor.
Você pensou os projetos do Luzcia e do Quarto Vivente do início ao fim, certo? Já o L’Amour foi lançado pela Mino. Houve alguma grande diferença entre trabalhar sozinho nos dois primeiros e depois pensar em equipe com o pessoal da Mino?
Essa é uma pergunta recorrente. L’Amour: 12 oz estava praticamente pronta quando o pessoal da MINO entrou em contato comigo. Antes da MINO aparecer, eu estava negociando com outra editora mas não fechamos um acordo. Entretanto a revista já estava toda desenhada e colorida pelo Maiolo. O letreiramento já estava concluído também. Enfim, a revista estava pronta. Quando a MINO entrou, o que foi alterado foi a capa. A nova capa com certeza ficou muito melhor. Então, L’Amour: 12 oz quase que foi lançada independente também, porém, nos últimos minutos a MINO surgiu com a proposta e eu topei.
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Outra questão sobre trabalhar sozinho e ser independente. Poucos dos trabalhos lançados dessa forma contam com o olhar de um editor. E são poucas pessoas editando quadrinhos ao pé da letra aqui no Brasil. Fez/Faz alguma falta pra você ter alguém que te ajuda a pensar a HQ?
Eu tenho a sorte de conhecer o Daniel Lopes, antes mesmo dele editar quadrinhos profissionalmente. Conheci em Araraquara, em um exposição de quadrinhos no SESC Araraquara. A partir de então, ficamos amigos e como o camarada tem um conhecimento absurdo de quadrinhos, ele sempre faz as revisões dos meus roteiros. Inclusive sempre deixo aberto para ele sugerir qualquer alteração. E foi assim desde minha primeira empreitada com Luzcia, a Dona do Boteco. O Daniel inclusive acompanha o desenvolvimento das páginas que vou desenhando. Enquanto vou produzindo a revista, envio para ele as páginas para sugestões e ainda uma segunda revisão nos textos já nos balões. Tenho essa sorte e com certeza, sem o Daniel Lopes, essa seria um figura que faria falta.
Tanto em relação a alguns temas que você aborda, quanto no estilo do seu desenhos e de suas cores, tem hora que seus trabalhos me lembram da fase boa do Frank Miller – a boa, vale ressaltar. Faz sentido pra você essa comparação? Ele é uma influência? Tem algum artista/quadrinista que te influencia mais ou que você tem como grande referência?
Minha grande referência de quadrinista é o Moebius. Minha consciência pelos quadrinhos mudou quando conheci Garagem Hermética. Mas é claro que o Frank Miller é uma influência e que também, acredito eu, foi muito influenciado pelo Moebius também. Mas apesar disso, sou muito influenciado pelo cinema e especificamente por alguns cineastas. David Lynch, Alejandro Iñáritto, Gaspar Noé, Lars Von Trier, Darren Aronofsky, Pedro Almodovar entre outros, em certos aspectos, são grandes influências nos meus trabalhos.
Eu gosto muito do L’Amour – da arte, da história e do texto. Ainda assim, o que me pegou foi a forma como você brinca com a passagem do tempo, repleta de digressões. Eu adoro quando autores de HQs exploram as possibilidades de brincar com a passagem do tempo, pois acho que existem poucos elementos tão característicos dessa linguagem quanto a forma como o tempo pode ser retratado. Esse ponto foi importante pra você durante a produção do gibi? Deu trabalho pensar em todas essas idas e vindas?
A questão tempo é o principal em L’Amour: 12 oz. A história gira em torno do amor e do tempo. Sempre leio resenhas que dizem que não é uma leitura fácil e essas coisas. Isso não me incomoda mas me leva a reflexão: qual é o parâmetro para isso?
Eu sempre enfatizo que nunca e jamais se deve subestimar o leitor. Aliás, o leitor é a peça chave em uma história em quadrinhos. O ciclo vai se fechar na mão dele então, que o ciclo seja fechado da melhor forma ou seja, deixando o leitor imerso no que leu. Não estou dizendo que faço isso, mas que procuro (da minha forma) deixar caminhos, atalhos, ensejos, para que o leitor participe de alguma forma do que está consumindo. Eu gosto quando assisto um filme e aquilo me toca de tal forma que me incomoda, induz a repensar algumas coisas e reflito sobre aquilo. Esse é um filme que eu gosto. E qual o motivo de não ser assim com os quadrinhos.
Voltando a pergunta! Quando escrevi o roteiro de L’Amour: 12 oz, eu já tinha toda história articulada em minha cabeça. Inclusive com as digressões. Mas confesso que colocar em palavras na hora de escrever o roteiro…camarada, eu tive que ficar atento.
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E o L’Amour é ambientado num cenário mais fechado, definido principalmente pelos personagens. Já O Quarto Vivente tem uma ambientação quase épica, num futuro distante que você apresenta alguns recortes pro leitor. Eu queria saber muito mais sobre esse mundo. Você apresentou tudo que tenha pra contar desse universo ou ainda tem algo na sua cabeça sobre ele que não foi pro papel?
Você tem razão sobre estas observações, mas a abertura que dei em O Quarto Vivente foi exatamente para esse mote. A experiência de abertura de um mundo onde abruptamente foi interrompido com o final da história. Enfim, eu apresentei tudo que queria apresentar.
Eu li no blog do Érico Assis você comentando sobre seu próximo trabalho, como de certa forma ele compõe um arco de histórias junto com O Quarto Vivente e o L’Amour. Eu tenho uma pergunta sobre o seu próximo lançamento, mas antes eu queria saber mais da relação do Quarto Vivente com o L’Amour. A primeira é uma espécie de drama ambientado num futuro distópico e a outra tá mais pra um romance retrô. Claro, tem o seu traço e tem todo o seu estilo ali, mas qual a relação que você vê entre obras tão distantes? Aliás, elas são tão distantes assim pra você?
Se eu disser claramente a relação entre as obras eu entrego o que virá no meu novo trabalho. O individualismo em O Quarto Vivente foi rebatido, de certa forma, em L’Amour: 12 oz. Entretanto a busca dos personagens é a mesma em ambas as histórias, mas de um ponto de vista e argumentos diferentes. No meu novo trabalho existe realmente uma busca física que de certa forma vai encerrar o que deixei aberto em O Quarto Vivente e em L’Amour: 12 oz.
E sobre o Limiar: Dark Matter, você adiantou um pouco sobre a trama (uma história de vingança de dois amigos pela memória de um terceiro colega morto). Você pode falar algo mais da obra? Tem algo de diferente que você está fazendo agora em comparação com seus três lançamentos anteriores?
O que posso falar sobre a revista é que o roteiro foi revisado e estou desenhando as páginas. A trama é esta mesmo, uma pequena história de vingança. Mas acho que posso abrir um pouco mais. Sempre, em qualquer ato feito, você pode esperar uma resposta. Agora, quanto a produção do álbum, não existe algo que esteja fazendo de diferente. Tudo está bem ajustado dentro dos cronogramas e no dia 12 de outubro de 2015, Limiar: Dark Matter será lançada. Por enquanto é isso!