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Olá, tudo bem?
Segue entrevista em vídeo para o Chapéu do Presto, que aconteceu no Festival de Quadrinhos de Limeira e, na sequência, entrevista que concedi ao site Tapioca Mecânica, no FIQ 2018.
Confira e se quiser deixar alguma pergunta ou consideração, fique a vontade e use os comentários para isso.
Um abraço.
Luciano Salles.


Entrevista para Tapioca Entrevista – LUCIANO SALLES FIQ 2018
por Gabriel Fraga | 12 /09/ 2018 | Destaques, Quadrinhos
Na última semana de maio de 2018 ocorreu mais uma edição do tradicional Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) em Belo Horizonte e o Tapioca Mecânica esteve lá. Foram feitas várias e interessantes entrevistas e que depois de um trabalhinho de transcrição, agora apresentaremos nessa coluna de quarta-feira.
A primeira entrevista foi com o quadrinista Luciano Salles. Muito gentil e solícito com seu tempo, Luciano nos cedeu um dos melhores bate-papos que já fizemos, além de ser muito esclarecedora sobre seus quadrinhos e seu jeito de encarar arte.
TAPIOCA MECÂNICA: No Quarto Vivente você fala do período em que viveu em Araraquara, interior de São Paulo. Parece ter sido um momento muito importante para sua formação.
LUCIANO SALLES: Eu me mudei pra Araraquara bem pequeno, com dez anos. Caí numa ruela sem saída, pequena e foi tudo que eu poderia querer: punk rock, skate e fanzine, desenhos. Tudo que eu gostava de fazer. E foi bem formador. Nessa época zine não era só desenho, não era só história em quadrinho. Tinha matéria sobre a banda de rock da cidade e aí nós mandávamos pra Recife e eles devolviam com outras matérias e fitas cassetes das bandas de lá. E eu já sabia que era isso que eu queria fazer. Isso foi em 1985…

TM: E fazia tudo isso aos dez anos, fanzine, punk rock e skate? (risos).
SALLES: Pior que sim. Eu entrei nesse mundo com dez anos e fui até os vinte e três. Andei bastante de skate, mexi muito com música, ainda mexo um pouquinho.
TM: Tocando?
SALLES: Não toco mais nada. Meu violão tá com meu pai, minha guitarra tá indo pro meu irmão, meu trompete tá parado. Às vezes faço alguma trilha pra algum espetáculo de balé ou curta-metragem. Mas isso aí ficou incrustrado em mim.
Como eu falei, em 1985, era outro mundo, cara. Você tinha que fazer uma faculdade e seguir a carreira, por isso que sempre estudei muito, sempre gostei de estudar, estudei pra caramba, sempre fui muito CDF, CDF mesmo, nem tinha nerd no Brasil ainda e foi isso. O quadrinho veio bem depois, com 37 anos.



TM: Você fez faculdade de engenharia e me diversos momentos falou sobre a relutância que tinha em fazer quadrinhos até que chegou a hora. Como foi esse momento? Houve um catalizador? A hora que você parou e disse ‘eu tenho que fazer isso agora”.

SALLES: É, nessa época eu trabalhava no banco S*****, era gestor lá e aconteceu de eu ficar doente, na real. Se tivesse ficado era capaz de estar lá ainda. Capaz não, certamente estaria. Mas eu fiquei doente de verdade e não tinha mais condições e uma madrugada minha esposa falou “olha, amanhã você pede demissão” e eu fiz isso mesmo. Passei quatro meses pedindo demissão e eles não aceitavam, mas perceberam que eu não estava legal e aí eles foram muito gente boa e me mandaram embora. Me pagaram tudo, eu fiquei um tempão lá, me dediquei ao máximo e saí por motivo de doença. Mas saí e já fiz o Luzcia, a Dona do Boteco no mesmo mês e de lá pra cá vivo exclusivamente de quadrinhos.
TM: Isso foi em…?
SALLES: Isso foi em 2012. Saí do banco em abril e no final de maio já estava com o Luzcia pronto e tentando vender online.
TM: O Quarto Vivente fala de um mundo em que catástrofes aconteceram, a Europa, pelo que eu entendi, sumiu, os franceses vieram pro Brasil e depois disso a sociedade evoluiu. Tanto é que o nome do país é República Fraternal, parece um tempo de paz. Porém eu ainda sinto muita angústia nele e no Dark Matter, onde as pessoas consomem matéria negra – no futuro as pessoas consomem aquilo que gerou o universo. Não sei se é real, mas eu sinto muito uma angústia sua com coisas limpinhas, coisas perfeitinhas. Uma certa inquietude com ideias utópicas. Existe isso mesmo?
SALLES: Acho que todo artista é um ser angustiado. Você tem razão. O Quarto Vivente era como se fosse um mundo ideal, mas na leitura todos estão sempre de ouvido tampado e lá o acaso não existe mais. Se for pensar nisso, sem o acaso há o controle absoluto e aí fica naquilo, mas não temos como mensurar o que seria um controle absoluto. Por isso a Juliete faz o que ela faz: uma menina de quinze anos que decide… e tem muita coisa por trás, o fato de ela se chamar Juliete Manon, que é diminutivo de Maria Manon, Maria mãe de Jesus. Tem muito dessas coisas no livro. Acho que é a primeira entrevista que eu falo isso, o nome dela, o que ela faz tem a ver, o Quarto Vivente tem a ver com o apocalipse, uma parte que fala dos quatro seres viventes do apocalipse, tem muito dessas coisas por baixo da história. E tem uma análise do Quarto Vivente pelo Pipoca e Nanquim, que está num texto no site deles, em que eles destrincharam noventa por cento do que eu coloquei na obra. (Link)

TM: No final, quando ela dá à luz a baleia ou o golfinho, seria o retorno do mistério ao mundo deles?
SALLES: Seria. Ela rompeu com tudo de uma forma não casual. Ela comprou aquele tipo de parto, ela comprou aquilo. Porque não teria como ser acaso. Ela fez aquilo pra romper com tudo, pra ser a primeira pessoa, até então, que fez aquilo e é louco porque eu li há pouco tempo, há uns dois anos ou um ano e meio que uma moça no Japão estava tentando gerar um tubarão. Uma loucura.
TM: A vida imita a arte (risos).
SALLES: A vida imita a arte, mas assim… nós ainda somos muito limitados. Não conseguimos ir muito além. Se você pegar todas as histórias que estão aqui, sei lá, não estou menosprezando todo mundo que está aqui, mas sei lá. Nós somos muito limitados, é muito difícil nós extrapolarmos.
TM: Essa é a angústia presente nos seus quadrinhos então, chegar a um lugar diferente?
SALLES: É, eu gosto. É uma pretensão que não vai acontecer.
TM: Mas é muito saudável.
SALLES: É saudável e, de certo modo, pode até me prejudicar como autor porque a pessoa pode passar e ficar “ah, li e não entendi nada!”.
(Risos)
TM: Aproveitando, como você se vê então? Porque você escolhe narrar seus quadrinhos dessa forma. Como você se vê então nos quadrinhos brasileiros? Você pensa nisso?
SALLES: Já pensei nisso.
TM: Você é o Grant Morrison do Brasil?
SALLES: Não, cara.
TM: Você recebe muitas críticas que o Morrison receberia; que é difícil, que não dá pra entender…
SALLES: Sim, mas sabe o que eu penso, cara? Não estou me menosprezando. Sei que eu sou um autor e que, de alguma forma, as pessoas já leram, já ouviram falar, de alguma forma, do meu nome. Mas eu faço uma correlação com futebol, mesmo sem acompanhar: me sinto como um time da série C ou série D. Tem os quadrinhistas da série A, tem os quadrinistas de Champions League. Juro, me sinto da série C, série D.
TM: Que é isso…
SALLES: Sim. Vinil não tem um lado A e um lado B? Eu acho que sempre fui lado B.
TM: Mas por escolha, você gosta de ser o lado B.
SALLES: Eu não consigo ser o lado A. Pode ser uma escolha, mas mesmo que eu tente ser o lado A não vai rolar.
TM: Mas isso é muito bom, precisa de gente que – não que faça o que você faz, porque só você faz o que você faz – mas que saia da zona de conforto, que explore o que muitos não vão explorar.
SALLES: Sim, eu estou com umas ideias de histórias na cabeça, mas eu estou procurando que eu consiga que daqui a uns três anos quando eu ler, que eu não diga “poxa, podia ter pensado um pouquinho mais”. Eu não tenho muita pressa de entregar um quadrinho, não preciso entregar um quadrinho todo ano, a cada ano e meio, eu quero fazer algo que seja relevante pra mim e que o leitor, de certa forma, acabe de ler e pense um pouquinho, que fale “o que foi isso aqui?”, e que participe porque o quadrinho só tem sentido quando o leitor participa. Sempre li quadrinhos assim e gosto que seja assim. Lógico, eu gosto de ler uma história que seja “‘TUM’, acabei de ler, acabou, guardei”, mas eu gosto de ler coisas que me façam pensar, de ver filmes que façam pensar, de filmes que acabem e eu fico “poxa, acabou mesmo? Assim? Será? Ou caiu a internet?”.
TM: Quem te influencia então? Tanto em quadrinhos quanto em cinema. Além do Moebius. (Risos).
SALLES: Então, Moebius; a cada dia percebo que o Frank Miller é uma influência maior sobre mim, mas não percebia isso. E meus desenhos novos, que eu ainda não mostrei estão, de certa forma, diferentes. Sou eu desenhando, mas sinto que está um pouquinho diferente.
Miller, Moebius, Mutarelli, e tem pessoas assim que eu tremo na base até hoje, que é o Marcatti. O Marcatti, toda vez que ele conversa comigo eu fico um pouquinho nervoso e hoje ele tá aqui do meu lado [aponta para a mesa de Francisco Marcatti, ao lado da sua] e eu tenho coisas dele desde o Chiclete com Banana, que eu recortava.

TM: E em cinema?
SALLES: Pra fazer quadrinhos o que mais me influencia é cinema. Gosto muito do Gaspar Noé, de Love e Enter the Void [Viagem Alucinante], tanto que a cor de Limiar, Dark Matter quem fez foi o Marcelo Maiolo e eu disse pra ele que tinha que assistir o Enter The Void e aquela era a sensação de cores que eu queria, pra ele poder montar a paleta dele. E a cor veio perfeita.
Vou falar de um diretor chato, que muita gente odeia, o Lars Von Trier.
TM: Sabia que você ia falar Lars Von Trier. (Risos).
SALLES: Você quer dar na minha cara, não é?
TM: Não! (Risos). Eu gosto dele.
SALLES: Ele fala umas besteiras, tem uns problemas. Lars Von Trier, Gus Van Sant. Eu gosto muito do Almodóvar, até pelas cores que ele usa. Posso ficar o dia aqui, os Irmãos Coen, David Lynch. David Lynch acho que é o principal, só lembrei dele agora.
TM: Me fala do seu processo. Todo dia tem um número de páginas que você tem que atingir, ou número de horas, é meio anárquico, o quanto você tem vontade…
SALLES: Como eu tive todo esse processo antes de trabalhar com quadrinhos, trabalhar com engenharia, trabalhar em banco, você fica normatizado com muitas coisas. Lá eu tinha horário pra chegar, pra bater ponto, cobrar dos outros e eu sempre, apesar de não poder falar isso para as pessoas, mas eu sempre pensei e procurei porque as coisas… lógico que existem convenções e pode parecer que eu estou falando loucuras agora, mas eu posso começar um trilogia pelos números três, sete e nove, não precisa ser um, dois, três. Parece loucura isso, mas…
TM: Não. Star Wars está aí.
SALLES: (Risos)
TM: Só que Star Wars é o lado A.
SALLES: (Risos) É. Totalmente lado A.
TM: Criou o lado A.
SALLES: Eu não lembro quem fez Videodrome, foi o…
TM: Cronenberg.
SALLES: Cronenberg! Fantástico, eu falei Cronenberg, né?
TM: Agora falou. (Risos).
SALLES: Então está valendo. Eu não tenho mais segunda, eu não tenho mais horário. Aqui não posso porque abre e fecha. Mas se me deu sono em casa às dez da manhã eu deito e durmo. Acordo meio-dia, como alguma coisa. Se estou com um roteiro, volto a escrever o roteiro, embalo, quando percebo são dez da noite. Claro, tudo isso vivendo bem com a minha esposa. Mas não tenho mais esses horários; procuro não criar esses horários. A única coisa que eu faço sempre é acordar às quatro da manhã, mas isso aí é desde sempre.

TM: É nois. (Risos).

SALLES: Mas não por insônia. Esse é o horário que eu acordo mesmo e também durmo cedo. E só respondo mensagem de manhã.
Quando eu pego pra fazer um quadrinho, eu faço o quadrinho. Acordo, desenho até cansar, durmo, acordo, como, faço, durmo…
TM: Tem roteiro primeiro?
SALLES: Tem roteiro, penso a história inteira, do começo ao fim, tudo, frases, o que um vai falar pro outro, tenho tudo na minha cabeça, faço um roteiro bonitinho, quase de cinema, na realidade, e aí sim eu vou desenhar. Isso eu preciso fazer porque ajuda meu desenho.
TM: Então não sofre de bloqueio criativo? Uma página que tá difícil de sair, um layout?
SALLES: Não, não sofro com isso. Porque antes de eu escrever o roteiro, já pensei em tudo. Vou pensando, vou pensando, vou pensando. E eu não anoto nada de uma ideia que eu tive. Se eu tive uma ideia hoje, eu não vou marcar ela. Porque às vezes eu marco e essa ideia é tão lixo, mas eu marquei. Se marquei, me apeguei. Então não anoto. Se eu esquecer, era ruim. Se for boa eu lembro.
TM: Que incrível. (Risos).
SALLES: Eu prefiro assim. Geralmente eu esqueço um monte de ideias, mas então é porque eram lixo. Se não esqueci, aí vou dando continuidade.
TM: Já falamos sobre isso um pouco, se seus quadrinhos são difíceis de entender. É a maneira que você faz quadrinhos, né? São seus quadrinhos.
SALLES: São meus quadrinhos. Mas eu também não acho difíceis de entender. Mas aí também, eu que escrevi, né?
(Risos).
TM: Mas isso também é falta de costume de quem lê, não é?
SALLES: Então, sabe o que eu acho que acontece? Tem a história do Quarto Vivente, a primeira camada da história, que é a menina que faz isso, faz isso e isso, até chegar ao final. Mas dentro dessa história tem o porquê do nome dela, tem o porquê ela gera o que ela gera, se você for pesquisar o que ela gera, tem isso, não tem uma história que se passa dentro de uma baleia?
TM: Sim.
SALLES: Então, tem isso, também tem as coisas que eu boto no nome da história. Em Eudaimonia, por exemplo [quadrinho mais recente de Salles], só se chamou Eudaimonia por significar algo como felicidade. E o leopardo [da capa] vive em um estado de eudaimonia, porque ele só faz exatamente aquilo que a natureza criou ele pra fazer. Passa uma zebra, ele vai e come. Depois dorme. Ele não erra. Deu fome, ele pega outra coisa, isso é o estado eudaimônico dele. Qualquer animal vive em estado eudaimônico.

TM: Indo para o Eudaimonia. Por que a mudança de formato?
SALLES: Eu estava desesperado, não aguentava mais o couchê. Porque se eu for fazer um autógrafo pra alguém no couchê, eu tenho que desenhar com uma caneta retroprojetora. E é o fim desenhar com uma caneta retroprojetora, cara. É péssimo. E eu também queria fazer no papel pólen porque é gostoso de pegar. E também sem cores e no formato americano e tinha que ser preto e branco, mas aí eu coloquei tons de cinza. E a capa quem coloriu foi o Maiolo porque eu estava colorindo, mas estava péssimo.
TM: A parceria de vocês é inusitada porque ele é o cara dos títulos americanos e essas coisas. Como vocês se conheceram?
SALLES: Ele fica com pena de mim, acho. (Risos). Ele é bonzinho demais.
Eu fui numa palestra do Gustavo Duarte em Piracicaba, onde ele mora. Um bate papo. Lá o Gustavo Duarte Falou que precisava colorir um quadrinho e ficou desesperado e pensou “Ah, se o Maiolo estivesse disponível” e apontou pro Maiolo. E eu fiquei “putz, o Maiolo está aqui?”. Porque eu sempre gostei do trabalho do Maiolo, das cores. Aí já esqueci o Gustavo Duarte (RISOS) e fiquei “Quem é o Maiolo, quem é o Maiolo…?” aí acabou e fiquei conversando com o Gustavo Duarte e eu estava com o Quarto Vivente na mochila e o Maiolo chegou. Ele deu uma olhada no Quarto Vivente e falou “você está vendendo?”. Eu falei “tô”.
Ele disse “eu li essa frase ‘Georginas, ainda defecas?’”. E falou que queria comprar por causa daquela frase. Aí começou a amizade. Aí ele falou que fazia cor.
TM: Quais temas você queria botar no Eudaimonia? Porque tem a sua primeira personagem. Que você queria trabalhar no quadrinho.
SALLES: Eu encanei com o leopardo. Ao mesmo tempo eu queria trabalhar com a Luzcia. Não sei se é porque é minha primeira personagem, mas eu gosto muito da Luzcia.
TM: Ela é inspirada em alguém da vida real?
SALLES: Ela é inspirada na secretária de um médico. A secretária era muito brava. Na consulta, ela entrou no escritório gritando com o médico porque ele não tinha carimbado o CRM dele onde assinou e ela carimbou muito nervosa. Isso foi uma consulta que eu fui com meu pai. Ela interrompeu a consulta e meu pai, enquanto ela estava brava com o médico meu pai veio no meu ouvido e disse baixinho “nossa, meu, a Luzcia deve ser a dona do boteco”.
TM: (Risos) Fantástico. E esse é o nome do quadrinho.
SALLES: Isso. Luzcia, Dona do Boteco.
E o Eudaimonia, eu queria fazer a história de um caçador que caçasse uma parte do ser-humano. Uma parte só. Aí ele tem duas chances. Ele falha na primeira e na segunda ele acaba cruzando com a Luzcia no caminho dele. Ela está sofrendo com as dores dela, com a falta de medicamentos. E quem ele precisa caçar é quem fornece os medicamentos dela.

TM: E no final, sem entregar muito, o caçador vive em um estado de paz e só aceita o que acontece com ele.
SALLES: Ele vive em um estado eudaimônico e a Luzcia também. A Luzcia é daquele jeito, ela vive da forma que acha que tem que viver, ela é violenta da forma que acha que tem que ser. É natural pra ela, é o estado eudaimônico dela. Ela vive assim como ele.
Mas… posso dar um furo jornalístico aqui [brilham os olhos dos Tapioqueiros] porque o Pipacu, ele aparece na história, mas ninguém sabe quem ele caça, como ele caça, por quê ele caça… pode ser que venha uma história que… entendeu?

TM: Opa! Rolou um teaser!
SALLES: É tipo um Star Wars reverso.

TM: “Uma história Eudaimônica”. (Risos). Pra terminar: Que quadrinho você levaria pra uma olha deserta?
SALLES: Eu não levaria um quadrinho. Não levaria quadrinho pra uma ilha deserta.

TM: Levaria o que então?
SALLES: Não levaria quadrinhos, mas pra responder a pergunta e não ser um c*zão, eu iria procurar comida numa ilha deserta porque estou com fome. Se tivesse um quadrinho na ilha eu iria queimar pra fazer fogo. Mas se fosse pra levar um quadrinho mesmo eu levaria o Garagem Hermética.

TM: Dizem que toda obra carrega um pouco do seu autor. O que tem de você na sua obra, no seu trabalho? O que você coloca que é seu?
SALLES: O que eu sinto que eu coloco em todas as obras e vou continuar colocando é que eu nunca estou satisfeito com as explicações que são dadas. Nunca.

TM: Pós-modernista.
SALLES: Pode ser. Eu nunca… por exemplo, a internet é uma coisa excelente, eu consigo sobreviver das vendas na internet, vendo original pro exterior, mas ainda sinto que não é assim que ela deveria ser. De certa forma é, mas não é assim, sabe. É uma coisa muito louca isso. Eu sou meio inconformado com formatos padronizados.

Foi assim nossa entrevista com Luciano. Foi muito interessante poder cutucar a cabeça do cara um pouco e tentar ver como sua mente funciona e como gerou tantas ideias mirabolantes pros seus trabalhos. Mal posso aguardar encontros futuros. Fica aqui nosso muito obrigado a ele e a você que leu até o fim e se quiser encontrar mais quadrinhos do Luciano Salles, basta clicar aqui e até semana que vem com a próxima entrevista do FIQ 2018.
Olá, tudo bem?
Dei uma entrevista para o fórum Multiverso Bate-Boca e o resultado ficou demais. Agradeço a iniciativa e contato do Gustavo Soares pela perguntas feitas e fundamentadas pelos leitores do site.
Batemos um longo papo e falei sobre formação, com é ser quadrinista, se dá para viver assim, influências, dinheiro, música, processo criativo, explicações sobre detalhes das minhas HQ, conversamos sobre outros quadrinistas, dificuldades, motivações, enfim, uma longa e sincera entrevista.
Adicionei todo conteúdo logo abaixo mas deixo o link para lê-la direto no MBB, com direito a imagens e comentários antes de depois da pauta.
Muito obrigado.
Luciano Salles.
– Poderia começar se apresentando? (quem é, onde nasceu e cresceu, família, formação acadêmica, como começou a ler quadrinhos e desenhar, etc.)
Meu nome é Luciano Salles, nasci no dia 14/02/1975, em Taquaritinga, uma pequena cidade no interior do estado de SP. Ainda criança minha família mudou-se para Araraquara, uma cidade vizinha cinco ou seis vezes maior. Araraquara me acolheu muito bem e chegando na cidade encontrei tudo o que mais precisava na época: fanzine, skate, música e o movimento punk.

Minha família teve que se mudar para São Carlos e eu continue morando em Araraquara, isso com 16 anos. Então já com essa idade aprendi a me virar sozinho. Me formei em Engenharia Civil, pós graduei em Engenharia de Segurança do Trabalho e atuei na área até ir trabalhar em uma instituição bancária.

Ainda em Taquaritinga já lia turma da Mônica pois gostava de desenhar e meus pais compravam uma revista no mês pra mim. Lembro que eu lia tudo e ficava tentando desenhar os personagens das histórias do Penadinho.


– Aos 37 anos você deixou de ser bancário para se dedicar exclusivamente aos quadrinhos. Como foi essa decisão? Qual a reação das pessoas mais próximas?
Eu adoeci na empresa que trabalhava e acho que adoeceria em qualquer trabalho que fizesse naquela época. Adorava trabalhar no banco porém, dos 35 aos 37 anos comecei a perceber que algo não ia bem com minha saúde. Fiquei durante um ano me consultando com médicos, das mais diversas especialidades, para tentar descobrir o que estava acontecendo comigo até que tive minha primeira crise de uma doença chamada síndrome de pânico.

É algo que não desejo para ninguém pois não existe nada mais horrível e sofrível neste mundo. É comum as pessoas confundirem ansiedade aguda, pressão no trabalho, tristeza, achar que vai morrer entre outros vários sintomas com a doença mas quem irá diagnosticar será um bom médico psiquiatra. Esse realmente foi o motivo que tive que deixar o Banco. Eu não tinha mais capacidade neurológica e psicológica de trabalhar ali.

Até tentei voltar mas o cargo que tinha não permitia erros e comecei a cometer falhas primárias até que a direção do Banco decidiu atender e, entender, meus pedidos de desligamento (foram vários) por perceber que eu não tinha mais condição. A diretoria do Banco foi extremamente atenciosa, gentil e tão humana que me demitiram, recebendo  assim, todos os meus direitos. Sou muito grato por isso.

Minha esposa foi a primeira pessoa a me dizer para pedir demissão. Ela havia percebido que algo não ia bem comigo então, tive total apoio da família.

Faço aqui um adendo: trato da minha síndrome do pânico desde 2012 com medicamentos, yoga, andando muito de bicicleta e visitando bimestralmente meu psiquiatra. Ainda tenho meus altos e baixos e o acompanhamento é fundamental. O que quero dizer é que não use o Google como um guia médico achando que tem tal doença. Se sentir que algo não está certo, vá a um médico de referência no assunto.

– Financeiramente falando, consegue hoje viver somente de sua arte?
Consigo. Claro que não ganho tão bem como ganhava com meu trabalho anterior. Tem meses que são excelentes e outros que posso não receber nada. Então, um boa gestão financeira é fundamental. Aliás, percebo que muitas pessoas são praticamente ignorantes neste aspecto.


– Quais desenhistas influenciaram seus trabalhos? E roteiristas?
Desenhistas posso citar três: Moebius (sempre em primeiro lugar), Lourenço Mutarelli e hoje percebo o quanto (e cada vez mais) Frank Miller também me influenciou. Agora roteiristas, já é algo que acredito que minhas influências vem do cinema. Aliás, minha maior influência para fazer quadrinhos vem do cinema. Sou fascinado por alguns diretores como David Lynch, Stanley Kubrick, Gaspar Noe, David Cronenberg, Pedro Almodóvar, Gus Van Sant, Lars von Trier. Penso que esses são minhas influências como e, para roteiristas.

– Você já fez ilustrações de Laranja Mecânica (cinema), The end of the f***ing world (seriado) e já fez capa de álbum musical (Os Capial). Quais suas referências nessas três artes (cinema, seriado e música)? Há alguma influência delas em suas obras?
Acabei respondendo um pouco desta pergunta na questão anterior. Existe uma total influência do cinema e música nas minhas obras. Sou fascinado por essas duas artes. Minha mãe é pianista (não exerce como profissão) e sempre tivemos piano na minha casa, sempre ouvia minha mãe tocando os mais diversos temas e compositores. Meu irmão mais novo não é pianista mas estudou um pouco e tem um ouvido incrivelmente apurado. Meu irmão mais velho também tocava violão. 
– Seu processo criativo é sempre o mesmo ou varia de acordo com a obra? Poderia descrevê-lo? (roteiriza e depois desenha; rascunha enquanto roteiriza?) Sempre trabalha com papel ou também desenha digitalmente?Geralmente é sempre o mesmo. Por vezes a ideia de uma história pode surgir de uma simples observação. Por exemplo, a história de L’Amour: 12 oz, surgiu do fato de em uma manhã, eu observar a caneca de café que eu estava tomando: o tempo passa, o café vai esfriando e eu vou gostando mais ou menos dele. Em EUDAIMONIA, a história veio toda em minha cabeça por observar e pesquisar qual felino seria o mais efetivo em suas caçadas.

Pode parecer estranho mas é assim que as ideias para as histórias surgem pra mim. Alguma coisa me chama a atenção, observo, crio a relação com algo que pode vir a ser um bom tema, uma boa história e vou montando toda ela somente na minha cabeça sem anotar absolutamente nada. Não posso ter um caderninho de notas. Isso geralmente me atrapalha.

Com toda a história pronta na cabeça, vou direto para o computador escrever o roteiro, que faço como um roteiro de cinema, bem detalhado, descritivo pois assim ganho tempo na hora de desenhar as páginas.

Tendo o roteiro finalizado, envio para uma primeira revisão. Voltando corrigido, já começo a desenhar as páginas, que sempre são em um bom papel e com pincel e nanquim. Digitalmente eu só faço as cores, se necessário.

– Todos seus trabalhos até então são de autoria somente sua (roteiro e arte). Já recebeu proposta de desenhar roteiro de terceiros? Tem vontade de trabalhar com algum outro roteirista ou desenhista? Se sim, quem?
Já recebi várias propostas de desenhar para outros roteiristas mas é algo difícil para mim e sinto que seria angustiante. Desenhei uma história do Raphael Fernandes e simplesmente parece que não fui eu que desenhei.

Penso que seria mais fácil (pra mim) desenhar algo que o público já conheça. Por exemplo, desenhar uma história do Justiceiro. Pronto, é algo que faria. E se fosse, por exemplo, com um roteiro do Frank Miller, do Mark Millar, do Gaspar Noe. Esse é um detalhe que tenho: sempre gosto de pensar alto, vai que acontece, rs.

– Você produz, edita, divulga e vende diretamente. É uma escolha esse domínio de todo o processo ou gostaria de poder se dedicar exclusivamente à criação?
Gosto de todo esse processo (neste aspecto sou extremamente punk), gosto de receber uma resposta do leitor pois todo o caminho de se produzir uma HQ se encerra com o leitor(a). Ele(a) é a peça chave de todo ciclo.

Financeiramente, manter esse processo é mais lucrativo. Claro que gostaria muito de algum auxílio para ir aos Correios ou fazer pacotes, por exemplo, mas enquanto posso e consigo tempo para fazer isso, faço com prazer.

Seria muito bom e, diferente, somente me dedicar a criação mas ainda não chegou esse momento.

– Dos seus cinco trabalhos: três foram publicados de forma independente (Luzcia, a dona do boteco; O quarto vivente; Limiar: dark matter); um por editora (L’Amour: 12 oz pela Mino); e um  financiado através do Catarse (Eudaimonia). Quais as diferenças e qual a sua preferência?
Definitivamente o financiamento coletivo é onde melhor me encaixo. Apesar de ter publicado com a MINO, nunca tiver um editor direto. L’Amour: 12 oz estava pronta quando a MINO entrou em contato comigo e publicou então, basicamente, fiz e faço tudo sozinho entretanto, sempre confio a alguém muito competente a revisão dos meus trabalhos. Até o momento as pessoas que fizeram as revisões foram o Daniel Lopes e o Audaci Junior.
– É raro vermos quadrinistas independentes reimprimindo suas obras esgotadas. No seu caso, Luzcia, a dona do boteco esgotou faz tempo. Por que não reimprimir?
Por ter sido uma “HQzine” tão simples, feita de forma inocente, despretenciosa, toda dobrada a mão, grampeada e com uma tiragem de 100 cópias, reimprimi-la deve ser algo muito especial e quando chegar o momento, saberei como fazer.
– Atualmente o Catarse e outros sites de financiamento coletivo estão passando por um momento complexo: de um lado há crise de credibilidade em relação a projetos independentes, pois muitos projetos (inclusive de HQ) recolheram o dinheiro e não entregaram as recompensas; de outro lado cada vez mais editoras buscam ali financiar suas publicações, como a Figura e a Editora 85. Como foi sua experiência de financiamento coletivo? Pretende repetir?
Minha experiência foi fantástica e minha próxima publicação será pela mesma plataforma. Existem esses casos que citou, que deveria prejudicar a imagem de quem fez e faz as besteiras e não a plataforma, pois o método do financiamento coletivo é algo fantástico. É uma das grandes benesses que a internet pode proporcionar.

Estudando a plataforma, entendendo bem como funciona aqui no Brasil, sabendo dos riscos e padrões, fazer uma campanha bem sucedida não é somente bater a meta do valor requerido. É fazer todos as apoiadores receberem suas recompensas antes de qualquer distribuição ou venda da revista. O apoiador terá sempre a preferência.

– Em seu blog (dimensaolimbo.com.br) você já compartilhou algumas trocas de informações entre você e outros quadrinistas, como Rafael Grampá, Fabio Bá e Marcelo Maiolo – este com direito até a print da conversa. Você também ministra cursos e oficinas de quadrinhos. Entretanto você é autodidata. Busca oferecer algo que acredita ter lhe faltado? Faltam professores e informações sobre quadrinhos?
Essa realmente é uma pergunta complexa. Como autodidata, aprendo todos os dia alguma coisa nova no tocante a fazer quadrinhos. E também, como autodidata, aprendo muito quando aceito todas as criticas que meu trabalho possa receber de pessoas como o Grampá, o Bá e o Maiolo.

Foram pessoas que conheci, admiro muito e que sinceramente criticam meu trabalho de um forma que só faz crescer. Todas essas criticas são lições que aprendo para nunca mais esquecer. Me sinto um privilegiado de o Bá, chegar em mim no FIQ 2018, e falar o que achou da minha nova HQ. Isso pelo fato de eu ter pedido um sincero feedback. Aqueles 15 minutos que conversamos foram uma das melhores aulas que já tive sobre fazer quadrinhos.

Nos curso que coordeno, procuro passar tudo o que aprendi e tenho aprendido, como faço, o motivo de fazer daquele jeito, meios de como procurar uma ideia não tão comum, enfim, meus cursos são muito mais subjetivos e introspectivos do que me propor a ensinar como fazer um desenho realista, técnicas de aguada, aquarela, cores e o que for, até porque, não sei nada disso.

– [PERGUNTA COM SPOILER DE QUARTO VIVENTE E LIMIAR: DARK MATTER] Suas obras são marcadas por flertarem com o abstrato em algum momento. Há algo de nonsense ou tudo tem algum sentido específico? Alguns autores preferem não comentar pontos específicos de suas obras, deixando as interpretações para o público. Como pensa sobre isso? O que diria para alguém que lhe perguntasse “o que significa aquela beluga” ou “Nadio e Carino morreram”?
Não tem nada de nonsense nas minhas histórias e tudo que está ali tem um sentido específico e função. O que acontece é que insiro alguns níveis de camadas na história e faço isso propositalmente, pois cada pessoa é única assim como sua leitura. O processo de ler é igual para todos(as) mas a absorção no interior da mente daquela pessoa, junto de toda bagagem de vida que ela carrega, é que moldam o que escrevi. Bem, sei que isso é arriscado mas trabalho assim. Existem os(as) que gostam e os(as) que não gostam assim como tem que gosta de repolho e outros(as) não.

Não tenho problema em comentar pontos específicos dos meus trabalhos. Se vier uma pergunta direta, como essa que fez, respondo que a beluga foi o ponto máximo que pude conceber e que traria uma ruptura brusca no processo de evolução da humanidade.

Se Nádio e Carino morreram? Sim, claro que morreram! Até deixo isso bem claro no texto da última página da HQ. Nádio está nocauteado no chão enquanto Carino sofre as consequências de uma overdose de Dark Matter. Ali uso o recurso de quadros narrativos onde Nádio relata ao leitor: “Tudo isso me foi informado e este sou eu memorizado” lembrando que o termo “memorizado” criei para ser um sinônimo para “estar morto”, algo que deixo claro durante toda HQ.

E então ele continua e comenta que Carino é “…nossa fagulha memorizada, a explosão não contida, a ordem para um novo limiar”. Aqui também, se ler atentamente, junto do caminhar da HQ, perceberá que Carino não suportou a overdose de Dark Matter e como uma fagulha basta para uma explosão, o corpo dele explode como uma bomba atômica, dizimando tudo e todos ao seu redor, ou seja, “…a ordem se dissipando para um novo limiar” ou simplificando, um modelo fracassado se desfazendo para o início de uma nova proposta.

Existem HQ que tem um leitura direta, simples (o que não vejo problema algum e gosto também), como se faz uma simples redação com uma introdução, o desenvolvimento da ideia e a conclusão, mas formulas foram criadas para dimensionar uma ponte, um viga que suporta um vão livre de 30 metros. Gosto de usar formulas para isso e não para escrever uma história

– Você, assim como 90% dos quadrinistas autorais brasileiros, produz obras curtas. As poucas exceções como Marcelo D’Salete (Cumbe e Angola Janga), Rafael Coutinho (Mensur) e Marcelo Quintanilha (Tungstênio e Talco de vidro) são sucesso de público e crítica. Por que essas obras longas aqui ainda são tão raras? Pretende fazer algo assim?
Eu produzo obras curtas pelo fato de gostar muito de ler obras curtas, de fazer obras curtas e por ser um quadrinista independente que precisa bancar a impressão, depois carregar o peso dos gibis nas costas, distribuir, pagar os envios pelos correios, organizar e fazer lançamentos e finalmente, apresentar um preço coerente com o mercado editorial sem essas distorções que tem acontecido ultimamente com o efeito Amazon.

Todos os autores e exemplos que citou foram publicados por excelentes editoras e não sei a forma que receberam para fazer as obras, por isso, não posso argumentar sobre algo que não tenho conhecimento.

– Falando sobre obras mais longas, aproximadamente um ano atrás você postou no blog que por diversos motivos pessoais (lá detalhados) estava engavetando um projeto mais longo, chamado Ela (136 páginas, enquanto suas maiores tiveram 50). Alguma novidade sobre essa HQ?
Por enquanto não mas quando houver, logo saberão.

_ Quais as grandes dificuldades no mercado de quadrinhos nacional? E o que o motiva a seguir nesse caminho?
Eu vivo pelos quadrinhos pois sempre adorei desenhar e criar histórias. Sejam quais forem as dificuldades, não sou um colecionador delas. Tento me ajustar para estar em eventos de quadrinhos, me adequar em como divulgar melhor meus trabalhos e procuro sempre fazer tudo com excelência para que o leitor(a) tenha uma experiência  única, boa e intimista com a HQ e, que valha o valor que ele pagou pelo produto.

Outra coisa que me motiva é que posso viver também pelas ilustrações. Isso, cada vez mais, tem me empolgado! Pensando melhor, existe uma dificuldade que posso apontar. Há algo de natural aos brasileiros, que é a formação de grupos que se preservam e só validam o que acontece entre eles. Acredito que essa seja uma dificuldade que sempre haverá entre qualquer circuito criativo.

– Antes os quadrinistas nacionais tinham dois objetivos: entrar no mercado de super-heróis ou trabalhar para o Mauricio de Souza. Já hoje em dia os quadrinhos autorais parecem ser uma terceira boa opção. Acredita que essa mudança perdurará? O que acha dessa cada vez maior quantidade de editoras e lançamentos?
Penso que esses dois objetivos que citou no início da sua pergunta ainda perduram. Vejo inúmeras publicações genéricas as Graphics MSP e outras tantas similares ao mercado de super-heróis. Acho que ainda exista um novo e terceiro objetivo que é fazer quadrinhos para ser vendido para o cinema, Netflix.

O quadrinhos autorais são a quarta opção e ainda bem que estão cada vez mais valorizados dentro do mercado em geral. Eu tenho certeza de que isso continuará por um bom tempo e que temos uma produção consistente para manter o mercado fortalecido em títulos e diversidade.

Quando mais editoras e lançamentos tivermos é melhor para todos e todas. Muitas editora surgirão e sumirão assim como autores(as). É assim mesmo, um ciclo onde, por um momento, haverá uma ebulição e de repente, um arrefecimento, entretanto, hoje, a oscilação entre as ondas estão brandas e tendem a ser cada vez mais serenas.

– Você é presença constante em eventos de quadrinhos. Ainda o faz pelo prazer de estar no evento ou encara como um compromisso de trabalho?
Adoro estar em eventos de quadrinhos pois faço dele um compromisso de trabalho onde encontro colegas, amigos, vinculados a ganhar novos leitores que não conhecem o que faço.

A logística para se ir ao evento é financeiramente dispendiosa e por isso priorizo o FIQ, a CCXP e priorizava a Bienal de Quadrinhos de Curitiba.

– Apesar de somente ter trabalhos autorais você já tem um belo acervo de ilustrações de super-heróis. Tem vontade de trabalhar no mainstream? Se pudesse escolher personagens da Marvel e da DC para trabalhar, quais seriam?
Tenho pensado nisso ultimamente. Acho que gostaria de trabalhar neste mercado mas de uma forma muito particular. Sei que não sou um desenhista para fazer uma série mensal de algum título mas adoraria fazer histórias curtas, capas variantes e outras coisas. Se pudesse escolher um personagem seria o Aranha e o Bizarro.
– Pelos seus relatos, você é próximo do Rafael Grampá e suas artes possuem semelhanças. O que acha do rumo que o amigo tomou profissionalmente? Tem vontade de atuar no mercado publicitário, mesmo que isso signifique se afastar dos quadrinhos?
Acho que jamais conseguiria trabalhar no mercado publicitário. Acho que é um tipo de trabalho que não combina com meu jeito de ser. Quanto ao Grampá escolher o que quiser fazer é critério dele. Cada um é livre para fazer o que quiser, como quiser e se tem uma coisa que ele faz bem é isso! O cara é um gênio, excelente profissional e se engana quem acha que ele se afastou das HQ.
Ele acha estranho quando dizem que dizem que nossas artes possuem semelhanças. Na animação Dark Noir, que dirigiu com o apoio do pessoal da Red Knuckle, ele me chamou para desenhar as tatuagens do personagem principal e fazer boa parte do storyboard. Acredito que nossos trabalhos conversam entre si e funcionam muito bem quando juntos.
– Tem algum novo trabalho em andamento? Pode nos dizer algo sobre ele?
Sim, tenho. O que posso dizer por enquanto é que a história esta pronta em minha cabeça e desta vez, só vou mostrar algo ou falar sobre ele quando tudo estiver pronto.

– Você já disse que tudo na sua carreira é pensado e planejado. Quais os seus planos para o futuro mais distante?
Tenho realmente tudo pensado e planejado mas só tenho o controle sobre o agora. Então, se eu quiser que as coisas aconteçam, tenho que zelar e viver somente pelo instante em que estou respirando. O futuro será feito das ações que tomar hoje. Ou seja, eu sei onde quero chegar mas só tenho o agora para trabalhar.

– O que não falta no MBB é leitor querendo indicações, do mainstream a obras mais obscuras. Quais suas HQs preferidas?
Gosto muito de quadrinho japonês e europeu. Leia qualquer coisa do Suehiro Maruo e também recomendo Pluto. Agora mainstream… bom, acho que Pluto é mainstream.

– Ainda tem tempo para ser leitor? Se sim, o que tem lido ultimamente?
Tenho lido pouco quadrinhos. Estou relendo Lobo Solitário, Pluto e AKIRA.
Olá, tudo bem?
Ontem iniciei minha primeira campanha de financiamento coletivo, no Catarse, para financiar a impressão da minha nova HQ chamada EUDAIMONIA.
Se ainda não viu a campanha, este é o link: https://www.catarse.me/eudaimonia
O projeto só acontece com 100% da meta alcançada então clique no link acima, conheça o projeto e escolha a recompensa que melhor lhe agradar.
Ainda ontem sairam duas matérias sobre meu Catarse, uma com entrevista e a outra falando do projeto, em grandes sites que trabalham o tema quadrinhos e cultura pop e que são: Terra Zero e Vitralizado. Você pode conferir as matérias logo abaixo do vídeo que fiz para a campanha. A formatação muda um pouco pois “copiei” e “colei” as pautas aqui ?
Qualquer dúvida, elogio ou comentário serão muito bem vindos!
Muito obrigado.
Luciano Salles.

VITRALIZADO, por Ramon Vitral:
EUDAIMONIA: a campanha de financiamento coletivo no Catarse da nova HQ de Luciano Salles.

Eudaimonia: a campanha de financiamento coletivo no Catarse da nova HQ de Luciano Salles
O quadrinista Luciano Salles colocou no ar no Catarse a campanha de financiamento coletivo de Eudaimonia, sua quinta HQ solo. A capa do livro será essa aqui em cima. Eu já apoiei o projeto e recomendo o mesmo pra você. Desde 2012, com o lançamento de Luzcia, a Dona do Boteco, Salles passou a ser um dos traços mais singulares e o autor de algumas das tramas mais mirabolantes dos quadrinhos nacionais. O Quarto Vivente, L’Amour: 12 oz e Limiar: Dark Matter tão aí pra comprovar.
Eudaimonia é o primeiro álbum em preto e branco de Salles desde Luzcia e terá 32 páginas. Segundo o autor, o quadrinho já está pronto e agora só falta imprimir. O lançamento será na Comic Con Experience 2017. O link pra página da campanha no Catarse tá aqui. Ó a sinopse da HQ:
“Piwl-Pa-Col é o nome de um estranho e solitário caçador que falha na tentativa de abater ‘uma parte’ de sua presa. Ele tem apenas uma segunda chance para o sucesso de sua caçada e, não por acaso, contará com a ajuda de uma inusitada parceira chamada Luzcia, a dona de um boteco”.

[ENTREVISTA] Luciano Salles revela detalhes exclusivos de EUDAIMONIA

Após ter lançado álbuns que mexeram com os leitores brasileiros — por oferecerem narrativas desafiadoras e temas artisticamente sérios –, Luciano Salles, um dos mais prolíficos artistas nacionais da atualidade, está prestes a lançar seu novo quadrinho, Eudaimonia. Contudo, a pegada agora é outra.
Salles está fazendo sua primeira investida no Catarse, tentando lançar Eudaimonia através de uma campanha inédita em sua carreira. O Terra Zero conversou exclusivamente com ele para saber mais detalhes sobre a HQ, o processo criativo dela e, claro, a campanha, que você pode apoiar clicando aqui.
Terra Zero: Os títulos das suas HQs são sempre enigmáticos. Como surgiu Eudaimonia?
Quando comecei a pensar na história de um caçador, minha cabeça sempre me conduzia para um leopardo. Qualquer documentário ou texto que fale sobre felinos cita o leopardo com um caçador perfeito.

Resumindo, ele não erra, pois faz somente aquilo, vive para aquilo, ou seja, a melhor coisa que um leopardo faz é ser um leopardo. A partir desse pensamento, o conceito de felicidade, da tradição antiga grega, que é basicamente viver da melhor forma possível através daquilo que você foi criado para fazer, ficou apitando em minha cabeça. Este conceito é chamado de eudaimonia.


Terra Zero: O que você pode falar sobre a HQ sem entregar as surpresas?
O posso falar é: “um estranho caçador tem apenas uma segunda chance para o êxito em capturar sua presa. Para isso, contará com a ajuda de uma velha senhora”. Essa é uma história curta e percebi que gosto disso.

Terra Zero: Você vem de três contos de ficção científica, que exploravam estágios humanos. Quando conversamos, há alguns anos, você disse que seu quarto trabalho seria um desafio. Como está encarando as mudanças?
Mudança é sempre bom e estou bem feliz com o resultado. Como disse, eu vim de uma trinca de ficção científica e este trabalho, com certeza, foi um grande desafio pois ele não existia até abril/maio deste ano. Estava trabalhando em outra HQ, mas Eudaimonia explodiu em minha cabeça e alterei alguns cronogramas que estavam certos pra mim e que havia determinado para 2018.

Comecei a pensar na opção de fazer um financiamento coletivo e participar do ProAC. Eudaimonia ficou com o Catarse.


Terra Zero: Como foi criar uma campanha no Catarse? Qual é a avaliação da experiência até agora?
Vou poder avaliar muito melhor a campanha com uns quinze dias corridos. Hoje [na data da realização da entrevista] estamos no primeiro dia. Estou empolgado e bastante ansioso como tudo isso.

Antes de mais nada, tive que tomar coragem para criar essa campanha. Estudei muito a plataforma, li tudo o que o Catarse fornece, pesquisei por projetos com grande êxito em suas campanhas, projetos que falharam, que foram sofridos para serem financiados, que receberam e recebem reclamações por atraso ou qualquer outro problema. Tudo isso para eu tentar reduzir a praticamente zero as surpresas que posso vir a ter.


Quando decidi pelo financiamento coletivo, tornei primordial entender que eu terei a minha expectativa exponencialmente acrescida da expectativa de cada colaborador, e isso me fez tomar cuidados redobrados. Tenho ciência que imprevistos podem acontecer, pois dependerei dos Correios, por exemplo.

Entretanto, fiz uma programação para possíveis erros, extravios e o que mais puder surgir de supetão. O cronograma está tão detalhado que o que me preocupa agora é conseguir bater a meta.


Terra Zero: Eudaimonia tem algum vínculo com suas histórias anteriores? Existe um “lucianoverso” à vista?
Hahaha, seria muita pretensão minha pensar em algo assim, mas achei engraçado. Acredito que sua pergunta surge por eu criar histórias que não são baseadas em personagens que possam ser reais e também por nunca situar as histórias em lugares que existam. Acho legal contar uma história com personagens plausíveis em lugares comuns mas isso já acontece todo dia e o acaso se incumbe dos melhores enredos. Por isso prefiro inventar e ir pelo caminho que trilho.

Eudaimonia tem um vínculo com minha primeira HQ, Luzcia, a Dona do Boteco. Aliás, a conexão se faz com a personagem Luzcia. Ela dividirá a atenção do leitor junto com o caçador, Piwl-Pa-Col. Pronto, revelei o nome do dito cujo!

Olá, tudo bem?

Saiu uma pauta bem legal e com entrevista, na Revista O Grito. Paulo Floro conversou comigo por e-mail. Logo abaixo inseri toda matéria e clicando aqui, você vai direto para a revista.

Espero que curta o texto e fique livre para perguntas aqui no blog.

Um abraço.

Luciano Salles.

 

 


Luta livre, detalhismo em preto e branco, protagonista feminina forte. Os bastidores da nova HQ do autor de O Quarto Vivente
Demorou apenas três obras para que Lucianno Salles se tornasse um dos quadrinistas com uma das assinaturas mais marcantes de sua geração. Parte de um momento muito criativo (e prolífico) das HQs nacionais ele foi responsável pela trilogia L’Amour: 12 ozO Quarto Vivente e Limiar: Dark Matter, em que mistura elementos de ficção científica e toques de surrealismo. Antes disso ele lançou uma outra HQ independente, Luzcia, a Dona do Boteco
Agora ele prepara o novo álbum, ELA, em que segue caminhos pouco usuais dentro de sua proposta artística. A começar pelo uso do preto e branco. Quem leu a trilogia sabe o impacto que a colorização tem no trabalho de Salles, com o uso inusitado de tons vibrantes. “Neste processo em PB estou sendo muito mais detalhista e criterioso. Não que nos meus outros trabalhos não tivesse sido, apenas sinto que estou 100% em cada linha traçada, em cada dialogo pensado e em cada cena montada”, explica Salles nesta entrevista por e-mail. 
Saca a sinopse de ELA. “Dette é uma jovem lutadora de artes marciais. Após uma derrota inesperada e análises de exames pós luta, foi informada pela sua equipe que não poderia mais lutar profissionalmente. Ao procurar ajuda especializada, encontra mais do que um problema de saúde. Dette e sua médica descobrem um obscuro torneio anual de artes marciais onde não há regras para os combates e tudo é permitido. Doutora e paciente vão para o torneio com a esperança de poder tratar a doença de modo não convencional perante os formais conselhos de medicina”. 
Parece bem interessante. Para nos adiantar detalhes sobre a obra, que deve sair esse ano, batom um
papo rápido com Luciano Salles. 
Quais foram as principais diretrizes criativas que você pensou para ELA, sua nova HQ?
O processo de criação começou com uma ideia que me apeteceu e que sabia que poderia ser uma boa história. A partir dela entrei no processo de manipular a ideia mentalmente por um bom tempo. Entretanto, um fato aconteceu e foi bastante divulgado na mídia muito similar ao que estava trabalhando em minha cabeça. Foi um balde de água fria. Desde esse fato comecei a embutir diretrizes criativas no processo. Comecei a inserir variáveis dentro da ideia anterior, onde o principal conceito passou para um bom adendo à história.

O que tem te inspirado para compor a personalidade de Dette, a protagonista? 
Sou fã de lutas. De qualquer tipo. Se estiver passando algum campeonato na TV, para o que estiver fazendo para assistir. Sempre observo muito os(as) lutadores(as) em todos os aspectos. Como ele(as) falam muito pouco com seus técnicos ali no minuto de descanso entre os rounds, as posturas antes das lutas, no momento em que o juiz explica as regras do combate e principalmente, no momento do embate. É nítido as expressões corporais enquanto os minutos se desenrolam. Sempre haverá duas hipóteses: um(a) vence e o(a) outro(a) é derrotado(a), entretanto, luta é luta e uma reviravolta pode acontecer em um golpe, em apenas um movimento, em uma fração de segundos. Tudo isso para dizer que Dette é uma lutadora em todos os aspectos. Daquelas pessoas que só se dedicaram para o esporte e tem potencial para aquilo. Dette é naturalmente combativa.

Esta é sua primeira obra toda em preto e branco? Como está sendo a experiência?
O minha primeira HQ, chamada Luzcia, a Dona do Boteco, é em preto e branco. Até pelo fato que havia acabado de deixar meu emprego e não vi outra alternativa para produzi-la. ELA já foi pensada e desejada para ser em preto e branco. Neste processo em PB estou sendo muito mais detalhista e criterioso. Não que nos meus outros trabalhos não tivesse sido, apenas sinto que estou 100% em cada linha traçada, em cada dialogo pensado e em cada cena montada. Estou realmente muito feliz de estar fazendo esse trabalho.

Seus três últimos livros formaram uma trilogia. Como foi terminar esse projeto a longo prazo e como acha que evoluiu nesse período?
A trilogia foi um processo basicamente intuitivo. Até mesmo em percebê-la. Eu estava bastante ansioso para terminar a trinca quando ainda desenhava Limiar: Dark Mattermas tive que me conter! Eu já estava trabalhando mentalmente a ideia de ELA quando já estava com uns 50% de Dark Matter desenhada e isso ajudou a mitigar minha ânsia. Mas tenho de ser sincero em dizer do alívio que senti quando peguei o último álbum da trilogia nas mãos. A partir dali eu estava livre para escrever o que quisesse. O processo de evolução sempre existe quando você tem consciência, entende o que está fazendo e a que se propõe. Neste aspecto posso dizer que evoluí.

Agora uma evolução quando a história, aos desenhos e a tudo mais que estou produzindo em ELA, os gabaritados para dizer isso será um(a) provável leitor(a). Sinto que meus desenhos melhoram e que escrevi uma boa história. É claro que isso é o que acho! Se eu não achar legal o que estou fazendo quem vai achar? Aprendo muito com alguns amigos que tenho a liberdade de mostrar o que estou fazendo. Ficar no interior é algo que amo e sou um caipira de coração e alma mas por vezes, preciso consultar esses amigos. São poucas pessoas, mas muito criteriosas e isso me ajuda. 

O que pode nos adiantar em relação à obra? Já tem previsão de lançamento ou formato da publicação?
Esse é o meu primeiro trabalho que não coloquei data de lançamento logo que comecei a desenhar a revista. Até mesmo pelo fato de ter terminado a trilogia e sentir que poderia fazer o que quisesse. Então, não há data de lançamento. Ano sim! Será em 2018. No tocante ao formato, quero sair do formato A4 que mantive nas três últimas publicações. Quero publicar algo em tamanho menor, em um papel diferente ao couchê e que converse melhor com o que estou preparando. Outro fato que posso adiantar é que será o trabalho mais diferente que já produzi. Isso posso dizer com a máxima certeza.

Desenho de Salles para Limiar: Dark Matter, parte da trilogia do autor.
Olá, tudo bem?
O site Quadrinhosfera, através do Luan Zuchi, entrou em contato e faz uma pequena entrevista sobre ELA. Você pode conferir toda entrevista aqui mesmo ou aproveitar, ler a entrevista e conhecer o Quadrinhosfera.
Um abraço.
Luciano Salles.

11/03/2017

1 – Olá, Luciano! Tudo bem por aí? Muito trabalho nas páginas de ELA, sua nova HQ, eu acredito. E afinal de contas: Quem é ELA?

Olá Luan, tudo bem sim. Bom, não vou dar assim de bandeja quem é ELA mas acho que posso dizer que ELA é tudo que permeará essa minha nova história em quadrinhos. Essa é uma boa resposta.

2 – Nos seus trabalhos anteriores, você construiu um universo futurista com uma cultura própria e um novo português. Li em algum post seu que O Quarto Vivente, Limiar e L’amour compunham uma trilogia. Sendo assim, ELA será o começo de uma nova trilogia?

Não. Tenho a certeza que não será o começo de uma nova trilogia. Afirmo isso até pelo fato de já saber o que vou fazer depois deste trabalho.
3 – Complementando o tópico anterior, podemos esperar a criação de uma cultura nova, como visto nos teus trabalhos precedentes, ou ELA terá referênciais espaciais, temporais e culturais mais próximos ao cotidiano atual?

ELA tem referências mais próximas do que vivenciamos. Mas não exatamente pois, simplesmente, não consigo fazer isso. Posso citar um simples exemplo. Enquanto escrevia o roteiro, dentro da história, a protagonista recebe um aviso. Poderia simplesmente fazer ela receber uma mensagem no celular. Mas é exatamente neste ponto que fico incomodado. Não gosto de usar nada do que usamos diariamente nas minhas histórias. 
Veja, não estou dizendo será uma história futurista ou coisa assim. Digo apenas que desviar das nossas contemporaneidades é uma obsessão. Posso buscar algo do passado para que ela receba essa notícia.

4 – Em um dos seus posts, comentando sobre o novo trabalho, você liberou uma breve sinopse e dentro dela disse que ELA se trata da história de uma lutadora de artes marciais. Por que a opção por essa temática?

Porque adoro artes marciais. Na real adoro qualquer tipo de luta. Sempre acompanhei lutas de boxe, campeonatos de judo, karatê, luta greco-romana, ou seja, se tiver alguma luta para assistir eu assisto. Lembro que bem no começo dos anos 90 fiquei sabendo que havia lutas que valiam tudo, os “vale tudo”. Logo depois descobri que tinha um conhecido que, não sei como, conseguia gravações dessas lutas em fitas de videocassete. Era um prato cheio! Enfim, gosto de ver lutas.

5 – Fingindo que sou uma criança, seguirei com os “porquês”: Por que preto e branco? Como está sendo a experiência de trabalhar com o nankin e só?

Há algum tempo queria trabalhar somente em PB mas como estava na toada da trilogia, sabia que não poderia abandonar as cores até finalizar Limiar: Dark Matter. O desenho em preto e branco se mostra um desafio quando você sabe que não haverá cores. Precisava disso. Não via a hora de fazer isso!

6 – Você é um desenhista com o estilo caracterizado pelo cuidado e pelo detalhismo, quanto tempo, em média, você está levando para produzir uma página de ELA?

Eu não consigo ficar direto em cima de uma página de ELA pois tenho a Memento 832, que é minha produtora cultural, que preciso dar atenção. Sempre aparecem ilustrações para eu fazer para a Folha de S.Paulo, cursos, bate-papos, oficinas, produções, reuniões e então o trabalho vai aos goles. Mas se for contabilizar, estou fazendo uma página a cada 3 ou 4 dias. Acho que está bom.

7 – Você já teve a experiência de publicar completamente de forma independente e também por meio de uma editora (MINO). Como você avalia essa experiência, que, com o aumento do interesse das editoras pela produção nacional, cada vez mais se misturam na realidade dos autores nacionais?

Acho fantástico tudo o que aconteça em prol do quadrinho nacional. Temos uma cena, um mercado salpicado pelos estados do Brasil. Então, se for para contribuir legal, tudo é válido.

As editoras estão aí e há muita gente fazendo excelentes trabalhos independentes. Poxa, é um prato cheio para os editores mais antenados. Por mais que, por vezes, sempre existe a exposição ou a super exposição de um ou outro quadrinista, o que chamam de “hype”, termo que não acho legal. Acho estranho usar termos em inglês com sinônimos para nossa língua portuguesa. Imagino o tanto de sinônimos que Mario de Andrade ou Machado de Assis teria para isso.

Enfim, sou um quadrinista de Araraquara, bem do interior do estado de São Paulo e me encaro com os times de futebol do interior, aqueles da terceira, quarta divisão, sabe? Sou um quadrinista da terceira divisão. Então, o fato de já ter publicado por um editora é uma vitória legal. O fato de ter participado do livro Mônica(s) foi incrível. Acho que desviei um pouco da pergunta, mas é isso.

8 – Como sei que você é um workaholic extremamente dedicado e organizado, acredito que já tenha tudo planejado, então me arrisco a perguntar: Quando ELA estará pronta?

Para essa HQ eu não coloquei data de lançamento. Para todas as anteriores havia data de lançamento assim que começava a desenhar. Como farei tudo em PB, decidi que cada página vai merecer minha melhor atenção e dedicação. O leitor que adquirir um exemplar de ELA vai notar todo meu empenho em cada linha e por isso não determinei uma data de lançamento. Quero fazer valer cada centavo de um provável leitor. E não somente no tocante aos desenhos. Tomei um cuidado absurdo com o roteiro e tudo mais. Decidi até que não irei para nenhum evento de quadrinhos até essa revista estar impressa na minha mão. É claro que se for convidado para algum evento irei com certeza, mas preparar toda logística para ir a um evento por conta não vai acontecer. Mas garanto que se eu sumir um pouquinho será por um bom motivo.

9 – Bom, muito obrigado pela entrevista e bom trabalho por aí, Luciano! Se quiser acrescentar algo sobre o qual não lhe foi perguntado, sinta-se à vontade, o espaço é seu.

Eu que agradeço a gentileza de abrir um espaço no seu site. Só gostaria de enfatizar que tudo o que faço está no meu blog dimensaolimbo.com. É o melhor jeito de me achar.
Mais uma vez, muito obrigado, Luan.

Olá camarada, tudo certo?

O fotógrafo Deivide Leme iniciou uma série em vídeo chamada Perfil. Tive a honra de ser convidado para inaugurar os filmes. Ali falo sobre minha profissão, escolhas, encontros e vida como quadrinista.
Deixo aqui o vídeo e o link do canal: https://www.youtube.com/watch?v=D1TnhaF3tyY

Grande abraço.

Luciano Salles.

Olá, camarada. Tudo bem?

Já conferiu a entrevista que concedi ao blog Quadrinhosfera? Se não, aqui você pode ir direto para o blog do Luan Zuchi e ler a entrevista.

Se preferir, toda pauta está logo abaixo!
Grande abraço.
Luciano Salles.

Quadrinhosfera, orgulhosamente, entrevista: Luciano Salles!

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Quase todos que visitam a Quadrinhosfera conhecem o Luciano, afinal, desde seu primeiro trabalho na área dos quadrinhos ele é assunto por aqui, pelo simples motivo do cara ser, extremamente, talentoso. 


Após o sucesso de O Quarto Vivente, agora ele está trabalhando em L’Amour: 12 oz seu novo projeto. Porém, mesmo com o tempo curto ele não negou uma ilustração do Comandante Key(personagem da webcomic que está sendo publicada na Quadrinhosfera, com roteiros do Luciano Ribeiro e com as minhas ilustrações), por encontrar este tempinho na sua agenda: Muito obrigado Salles.

E o Luciano Salles ainda topou uma entrevista, que você confere em seguida:
Luan Zuchi (Quadrinhosfera) – Bem vindo à Quadrinhosfera, Luciano Salles! 
Depois de O Quarto Vivente você realmente se estabeleceu  no cenário dos quadrinhos autorais. Na sua visão, existe, realmente, um mercado diferente surgindo no Brasil? Estaríamos às portas de um mercado, verdadeiramente, nacional de quadrinhos?
Luciano Salles – Acredito nisso. Depois de O Quarto Vivente, tenho sido convidado por algumas instituições para falar da minha trajetória como quadrinista, que aliás, é bem curta. O fato de me convidarem é para falar o que ando fazendo e como ando fazendo, para conseguir viver pelos quadrinhos.


O número de lançamentos nacionais que temos por mês no Brasil está cada vez aumentando. Hoje temos um mercado horizontal no âmbito vendas, mas cada vez maior de títulos autorais. Então, o autores nacionais estão percebendo que o importante é apostar na sua obra, colocar tudo no papel, buscar um financiamento coletivo, uma impressão por conta própria e fazer o trabalho. As editoras também estão percebendo que o mercado está se transmutando.

Acredito muito no faça você mesmo.

Luan (Quadrinhosfera) – Para o pessoal que ainda não está sabendo do teu novo projeto: poderia resumir o conceito de ‘L’Amour: 12 oz’?

Luciano Salles – ‘L’Amour: 12 oz’ é minha nova história em quadrinhos e que ainda estou desenhando. Ao mesmo tempo, está recebendo as cores pelo incrível camarada, Marcelo Maiolo!

Estou fazendo com o maior carinho e tomando cuidado, em cada linha que traço, em cada texto e em cada composição para que o leitor que comprar a revista, leve para sua casa algo que realmente o faça sentir algo pelo álbum e pela história.
Agora, uma breve sinopse do que está por vir é esse texto, que tenho utilizado para teaser e outros:

‘A precisão do tempo não se curva as exigências de um sincero amor. Seja qual for ou haja o que houver, você o fará. Você tem o tempo a seu favor. Você tem o controle do início ao fim.’
Luan (Quadrinhosfera) – Com o sucesso de O Quarto Vivente, L’Amour já foi sondada por alguma editora?

Luciano Salles – Sim. E tudo leva a crer que esse será o caminho.

Luan (Quadrinhosfera) – Agora aquela pergunta de sempre: como é sua rotina de trabalho e que material usa na produção das suas páginas?


Luciano Salles – Faço o que tenho que fazer independente de horários. Entretanto, sou mega CDF! Enquanto estou produzindo minha nova HQ, trabalho por horas e horas até o cansaço me pegar. Tenho sempre minha metas focadas e odeio quebrar meus cronogramas. Acho que por minha formação específica e por ter trabalhado muito tempo em uma instituição bancária e inclusive como gestor de pessoas, me acostumei (o que para os quadrinhos é ótimo) a sempre estabelecer o que vou entregar, com data e prazos.
Deadlines são deadlines. Prazos são prazos.

De material uso basicamente nanquim. Faço um lápis bem fraco, simples, sem muitos detalhes e venho com nanquim e pincel arte finalizando. No caso do Comandante Key, usei nanquim, uma aguada com o próprio nanquim e as cores no Photoshop.


Luan (Quadrinhosfera) – Sei que você estará presente no Comic Con Experience; em quais outros eventos você tem intenção de participar em 2014?

Luciano Salles – Já fui no Festcomix, mas apenas um dia. Não tinha mesa nem nada. Fiz um bate e volta para São Paulo, com apenas uns prints na mochila e minha HQ, O Quarto Vivente. Acabei vendendo alguns exemplares, prints, revendo amigos e conhecendo pessoalmente muitos outros.
Agora tenho que estudar o lance da ‘Brasil Comic Con’. Essa ainda não sei com vou fazer. Meus prazos para L’Amour: 12 oz estão justinhos, então é para se pensar. 

Luan (Quadrinhosfera) – Falando sobre a ilustração do Comandante Key: eu gostaria de dizer que foi o momento que mais me senti feliz como artista até agora, ver o personagem que o Luciano Ribeiro idealizou e que eu criei graficamente, sendo reinterpretado por você (que é um dos meus grandes ídolos) foi emocionante. Vi que usou uma técnica diferente nela. Poderia falar um pouco sobre a criação da ilustração? 
Luciano Salles – Sim. Até citei acima. Decidi utilizar um técnica de aguada, que na real, foi a primeira vez que fiz para valer. Apenas dilui o nanquim em vários tons e fiz os volumes. Achei que ficou legal!

Luan (Quadrinhosfera) – Agora coloco a Quadrinhosfera à sua disposição pra falar o que quiser: alguma coisa que queira contar e não lhe foi perguntado; mandar recado pra mãe, pro pai e pra Xuxa, enfim qualquer coisa. 
Luciano Salles – Gostaria de agradecer você e a Quadrinhosfera por me apoiarem desde quando larguei tudo para viver pelos quadrinhos. Muito obrigado! Cheers!!!

Luan (Quadrinhosfera) – Obrigado pela atenção e pela ilustração. Sucesso, Camarada!

E por fim, a ilustração (colorida) que o Luciano Salles fez do Comandante Key:


Olá, camarada, tudo certo?

Mais uma entrevista bem legal e agora para o site, Cenário HQ. Confira aqui na integra!
Abraço…
Luciano Salles.

Entrevista – Luciano Salles

Por  Em  · 1 Comentários · Em Sem categoria
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A primeira vez que vi O Quarto Vivente foi na Monkix. Um dia entrei lá e o Marcelo me mostrou, “esse cara deixou esse livro aqui, ele é do interior”. Peguei o livro e comecei a folhear. Me lembrou muito os europeus nos quadrinhos. Perguntei quem era o cara. “Ele era bancário”. Eu pensei “porra, mas gente nesse emprego, quando surta, sai metralhando gente na rua, não faz quadrinhos”. Na verdade, o Luciano sempre foi ilustrador. Trabalhou no banco pra ajudar a pagar as contas. Enfim peguei o livro e levei para casa. Meses depois ele participou de uma tarde de autógrafos na Monkix, junto com o pessoal da Miolo Frito e da LOKI. Vi o cara lá, sentado, na dele, autografando os livros. Ali comecei a falar com ele. Lembro que fazia frio e o cara de bermuda. Conversamos sobre quadrinhos, o interior de São Paulo, o Batman com seu suspensório de utilidades, e, claro, peguei meu autógrafo. E acompanhando as publicações em seublog, suas postagens no Facebook e outras entrevistas que ele deu, você vê que o cara é muito tranquilo, simpático, atencioso e preocupado com seu trabalho e a recepção do público. Além do Quarto Vivente, o Luciano participou da publicação Quatro Estações e da edição comemorativa Mônica(s). Baita ilustrador e um cara muito legal. Agora passou o FIQ, fiz uma pequena entrevista com ele sobre seus trabalhos e o mercado de quadrinhos.


P: Como tem sido a receptividade d’O Quarto Vivente?
Luciano SallesMuito boa, para não dizer excelente!Tenho recebido ótimas críticas e resenhas. Em quase todas as vendas que faço pelo meu bloguesaite Dimensão Limbo sempre recebo um feedback espontâneo do comprador. Acho isso demais de legal. É o fechamento perfeito do ciclo, Obra : Autor : Leitor. A receptividade no FIQ também foi demais.As lojas especializadas também tem sido muito receptivas para acolher minha revista.
P: Você acha que hoje o grande divulgador de Quadrinhos no Brasil é o Independente e não as editoras? Pergunto isso por 

Capa da frente

causa da FIQ. Eu não fui, mas pelo que vi nas fotos e no que o pessoal comentou pelas redes sociais, o FODA da FIQ foram os Independentes, os que publicaram por conta própria ou através de financiamento coletivo.

L.S.Sempre trabalhei de forma independente com os meus quadrinhos e, que não são muitos. Na realidade, são dois. A HQzine ‘Luzcia, a Dona do Boteco’ e agora, a HQ ‘O Quarto Vivente’. Agora, não acredito que um ou outro seja o grande divulgador. O mercado está para todos na mesma proporção. Sempre pensei assim. As ferramentas, como a internet, redes sociais, blogs, apps e outros milhões de formas para se divulgar seu trabalho, estão prontas e aguardando o seu trabalho. Acredito enfim, em trabalho. Minha próxima HQ, que devo lançar no final de 2014, já está com o roteiro pronto e já estou na terceira revisão. Quero trabalhar e muito bem, em cada página, quando começar a desenhá-la. Acredito piamente em uma fórmula simples e eficiente. Seu trabalho será valorizado se for feito com amor, dedicação diária, intensidade, verdade e dando as caras para bater. Uma editora terá acesso a alguns pontos de venda que ainda não consegui, a distribuição será muito melhor mas se eu, no conforto do meu estúdio, não me mexer, nada acontece. Trabalho muito e todos os dias. Independente da minha revista já ter vendido quase 500 unidades. Continuo firme e forte!

P: E vendo esse mercado independente crescer, você tem vontade de ver um livro seu publicado por uma editora, ou, ser chamado por uma editora para produzir um livro?

L.S.Seria uma experiência nova que teria que analisar. Os prós e contras. Não posso julgar ou falar sobre algo que nunca aconteceu. Com certeza, ouviria a proposta com carinho e iria procurar o melhor para a obra, para os meus leitores e também, é claro, para a Editora, que estaria bancando o livro. Sempre estou aberto a novas ideias, propostas e interesses.

P: O que falta no mercado independente para chegar no nível das editoras? (estou pensando em distribuição e renda. Já peguei algumas publicações independentes que foram lançadas na FIQ que estão pau a pau com edições lançadas por editoras, por exemplo a QUAD… ou o seu próprio Quarto Vivente…O Inspiração do Solano, etc.)

L.S.Eu acredito que a distribuição é o grande diferencial entre os independentes e as editoras. Para ser independente é necessário, antes de tudo, ter uma visão ampla do mercado, aprender a mexer com a logística da sua publicação, ter controle sobre vendas, pontos de vendas, parceiros, parcerias entre outras tantas coisas. Hoje, é possível um independente ter uma publicação tão boa quanto qualquer editora. A minha revista, por exemplo, foi impressa na mesma gráfica que são impressos alguns gibis da turma da Mônica. O atendimento foi excelente e eles entendem que o mercado independente está se estruturando.

P: Por fim, quais os planos para 2014?

L.S.: Já estou, como disse, com o roteiro da minha nova HQ pronto. Só estou fazendo uma terceira revisão, para dirimir continuidades e outros pontos. Também tomo bastante cuidado com o texto no roteiro. Mas, voltando a pergunta, meus planos para 2014, basicamente é, finalizar com a impressão dessa nova revista, trabalhar bastante com ilustração (que adoro) e divulgar muito a minha revista ‘O Quarto Vivente’. Fiz 2000 cópias e que pretendo vender todas.
Olá!
Uma resenha bem legal, junto de uma entrevista muito bem elaborada, acabou de ser postada no site do Terra Zero!
A pauta O Quarto Vivente e Luciano Salles, inaugura a coluna HQ Brasil! Fico feliz e me sinto lisonjeado, por ser lembrado para estreiar a nova atração aos leitores do site. Agradeço ao convite de Felipe Morcelli.
Fique por aqui mesmo e leia a entrevista ou, vá até o incrível site do Terra Zero, confira a matéria e muito mais do que a página tem para oferecer!
Forte abraço…
Luciano Salles.

HQ Brasil: “O Quarto Vivente” e Luciano Salles

Postado em 06/12/2013, por Morcelli
Em: Análise , Destaque , Matérias

Nesta sexta-feira o Terra Zero inicia uma nova atração aos leitores: a coluna “HQ Brasil“. A ideia é promover uma HQ nacional fazendo comentários sobre ela e entrevistando seu(s) autor(es). Depois de um ano abarrotado de lançamentos no Festival Internacional de Quadrinhos e de projetos de quadrinhos bem sucedidos nas plataformas de financiamento coletivo ficou claro que os sites de quadrinhos, independente de qual escopo possuem, precisam promover o que está acontecendo no Brasil.
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Para a estreia da coluna foi escolhida a HQ “O Quarto Vivente” do araraquarense Luciano Salles. Esta é sua segunda HQ publicada e mais uma vez o autor optou pelo formato independente de lançamento. Focada na vida de uma jovem brasileira num mundo distópico e futurista a história figura entre as grandes obras nacionais de 2013.
A HQ
Luciano criou um universo à parte para sua história. A personagem principal, Juliett-e, é quem se conecta com o leitor, pois é ela que tenta sair da ordem dominadora no mundo. A Europa e a Ásia (chamadas aqui pelo seu antigo nome de Eurásia) afundaram e algumas sociedades se fundiram aos países que sobrevivem às mazelas do Século XXI – entre eles, o Brasil, onde a história se passa. A França foi anexada ao território brasileiro. Portanto, idioma e cultura se confundem e é muito importante que o leitor esteja atento a isso para não se perder nas falas dos personagens. Aliás, a única coisa que poderia fluir um pouco melhor na HQ são os diálogos. Por vezes confusas, as conversas possuem uma estrutura estranha e muitas vezes desconexa. Claro, isto faz parte do mundo em que o leitor imerge ao começar a ler a HQ, mas, às vezes, a coisa fica estranha demais.
Por outro lado, com muito bom gosto, Luciano questiona o marasmo mental de uma sociedade cada vez mais preguiçosa, colocando em xeque a dualidade do individualismo com o pensamento coletivo: como alguém pode se tornar tão individualista e, ao mesmo tempo, fazer exatamente o que todas as outras pessoas fazem? Seria culpa da ordem governamental opressora? Seria uma característica humana que nunca vai mudar? Quando as pessoas vão acordar para desbravarem a vida como a personagem principal tenta fazer nesta história? Estes são alguns dos muitos (e inteligentes) questionamentos que podem ser levantados durante a leitura da HQ.
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“O Quarto Vivente” é um grande trabalho dos quadrinhos nacionais. Luciano conseguiu criar uma distopia que obedece as regras mais clássicas do tema. Ao somar estas características com seu jeito ímpar de trabalhar a ideia e com o tempero brasileiro, o autor entrega uma obra interessantíssima e com um universo cheio de possibilidades de exploração.
Nota: 9/10
A Entrevista
Luciano, lendo “O Quarto Vivente” deu pra notar o quanto seu trabalho é influenciado, principalmente, por obras de ficção científica, em especial aquelas que tratam de possíveis futuros distópicos para o planeta. Quais são suas principais influências para expressar sua arte desta forma?
Acredito que para essa obra, uma grande influência, do gênero que citou, foi o filme Blade Runner. Entretanto gosto muito de alguns romances como “Admirável Mundo Novo” (“Brave New World“) de Aldous Huxley, 1984 e “A Revolução dos Bichos” (“Animal Farm“) de George Orwell. Voltando aos filmes (que são minha maiores influência para qualquer quadrinhos que eu faça), o filme “Fahrenheit 451″ também cito com uma influência para essa obra. E, para o ódio de muitos, acredito que a estética de Lars Von Trier e David Lynch existe nos meus trabalhos.
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Juliett-e é a protagonista da história. É aquela que nasceu ao acaso e quebra as regras da distopia seguindo seu próprio coração. Como artista, você acredita que o acaso está se perdendo e que os quadrinhos (assim como qualquer outra forma de arte) podem mostrar isso aos leitores?
Sim. Acredito no acaso como a mãe da evolução e também acredito, que o fim do acaso, é trabalhado diariamente e por muitas vertentes. Trabalhei com Juliett-e, nascida ao acaso, justamente para ter, como disse, a quebra do paradigma na história. Juliett-e vem com o ímpeto que é tão inerte hoje em dia. Ninguém arrisca contra o que já está imposto e decretado. Vivemos um estágio de torpor. Não sabemos conduzir nada. Somos apenas respostas automáticas. Não quero parecer pessimista e não sou pessimista. A realidade simplesmente é tirada do nosso foco. Simples assim.
A arte tem o poder e deve ser utilizada para o questionamento. Qualquer tipo de arte.
O manual de funcionamento da inseminação possui um olho em sua capa. Este mesmo olho está na contra-capa de “O Quarto Vivente” e nos autógrafos que você deu a cada fã que adquiriu o volume. Seria “O Quarto Vivente” um manual para que as pessoas deem mais atenção ao acaso e não à forma sistemática em que vivem? Todos deviam ser como Juliett-e?
Não só o olho. Cada página da revista. Se eu for falar do olho, posso entregar a história para quem ainda não leu a revista! Em cada página da HQ, coloquei intencionalmente, detalhes que acredito que muitos podem notar o que quero dizer. Não só detalhes em forma de desenho. Os nomes dos personagens foram pensados dentro da coesão da história. O nome da revista sintetiza muita coisa.
Mas também, acredito que fui direto ao que queria, no texto da história. Recebo críticas que dizem que é uma história linda e que, após o término da primeira leitura, a pessoa fechou a revista, pensou e, leu novamente. Esse é o maior feedback que posso receber. Consegui a atenção do leitor e o ciclo se fechou.
Ainda no aspecto filosófico que Juliett-e representa para a obra, o diálogo dela com o camaleão sugere que, mesmo sendo adaptável, nem mesmo ele evitou a própria extinção. Estaria você, como autor, sugerindo que a natureza adaptável do ser-humano não é mais suficiente para o mundo de hoje?
O ser humano foi adaptável em uma época pré histórica ou coisa assim. Hoje somos confortáveis. E o motivo de sermos seres confortáveis é que os pensamentos estão cada vez mais voltados para o ‘um’, para o único. Assim, temos a sensação de tudo certo. Funcionamos na base de choques. A limitação é tamanha, que somente acontecendo um hiper impacto, para mudarmos algo ou ligar a chave da adaptação. Isso é da essência humana e em todos os aspectos. Somos substâncias reativas e rasas. Acho que respondi sua pergunta (risos).
Já no começo da obra, especialmente na primeira página, é perceptível o quanto o português foi mudado para se adaptar à situação geo-política que você criou para “O Quarto Vivente”. Chega a ser intrigante como uma história que toma por inspiração autores estrangeiros tenha conseguido funcionar tão bem dentro do Brasil. Por outro lado, o país sempre foi um abrigo de várias culturas. Em que momento do roteiro você percebeu que misturar nações seria benéfico para sua narrativa?
Eu já tinha o roteiro pronto e já havia começado a desenhar a revista, quando fiz uma viagem de 21 dias para a França. Interrompi o trabalho. Lá, em um estúdio alugado, no frio de fim do outono e andando por toda Paris com minha esposa, comecei a fazer muitas conexões com minha história. Muito das coisas que havia procurado ambientar na HQ, acabei buscando dessa viagem. O silêncio que havia em alguns lugares, mesmo com muitas pessoas e, em especial, no dia que estava embarcando para o Brasil, sendo levado pela imensa esteira do aeroporto Charles De Gaulle, em um ambiente de isolamento imenso.
Ali, naqueles 21 dias, troquei os nomes das personagens, inclui a Europa na história e as Unidades Fraternais, mas o motivo central do roteiro não foi alterado.
E falando em nações e na nova geo-política proposta pela sua obra, por que a França foi a escolhida como principal parceira do Brasil? Outros países e culturas foram considerados enquanto você preparava a obra?
A França foi a escolhida pelo motivo real da viagem que fiz. Muitas lacunas que poderiam haver no roteiro foram preenchidas. E dessa forma, não havia dúvida que a França deveria ser acolhida fraternalmente. E um outro detalhe que devo citar é que me incomodou muito visitar alguns museus. Muito da parte egípcia que existe no Louvre, está lá pois foi saqueado, de alguma forma. E milhões de pessoas, assim com eu fiz, pagam para ver um produto que é parte de furto, roubo e atentado violente contra uma cultura. Somos uma coisa estranha e bizarra.
Juliett-e tem todo um futuro pela frente, mas muitos momentos da história podem ser explorados em futuras obras que revisitem este universo – tais como mostrar o dia-a-dia brasileiro do futuro mais detalhadamente e possíveis outros “dissidentes” desta distopia com mentalidade um pouco diferente de Juliett-e. Você tem planos para isso?
Esse universo que criei está congelado com essa história. Ainda não é o momento de revisitá-lo. E quando isso for feito, não será exatamente no momento que a deixei. Já pensei em opções.
Mas, na realidade, já tenho pronto o roteiro da minha nova história em quadrinhos. Estou fazendo uma terceira revisão e pretendo ter a revista pronta para impressão, no mais tarde, em Outubro de 2014. Mas já posso adiantar o nome da revista, que será: “L’Amour“.