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Olá, tudo bem?
Dei uma entrevista para o fórum Multiverso Bate-Boca e o resultado ficou demais. Agradeço a iniciativa e contato do Gustavo Soares pela perguntas feitas e fundamentadas pelos leitores do site.
Batemos um longo papo e falei sobre formação, com é ser quadrinista, se dá para viver assim, influências, dinheiro, música, processo criativo, explicações sobre detalhes das minhas HQ, conversamos sobre outros quadrinistas, dificuldades, motivações, enfim, uma longa e sincera entrevista.
Adicionei todo conteúdo logo abaixo mas deixo o link para lê-la direto no MBB, com direito a imagens e comentários antes de depois da pauta.
Muito obrigado.
Luciano Salles.
– Poderia começar se apresentando? (quem é, onde nasceu e cresceu, família, formação acadêmica, como começou a ler quadrinhos e desenhar, etc.)
Meu nome é Luciano Salles, nasci no dia 14/02/1975, em Taquaritinga, uma pequena cidade no interior do estado de SP. Ainda criança minha família mudou-se para Araraquara, uma cidade vizinha cinco ou seis vezes maior. Araraquara me acolheu muito bem e chegando na cidade encontrei tudo o que mais precisava na época: fanzine, skate, música e o movimento punk.

Minha família teve que se mudar para São Carlos e eu continue morando em Araraquara, isso com 16 anos. Então já com essa idade aprendi a me virar sozinho. Me formei em Engenharia Civil, pós graduei em Engenharia de Segurança do Trabalho e atuei na área até ir trabalhar em uma instituição bancária.

Ainda em Taquaritinga já lia turma da Mônica pois gostava de desenhar e meus pais compravam uma revista no mês pra mim. Lembro que eu lia tudo e ficava tentando desenhar os personagens das histórias do Penadinho.


– Aos 37 anos você deixou de ser bancário para se dedicar exclusivamente aos quadrinhos. Como foi essa decisão? Qual a reação das pessoas mais próximas?
Eu adoeci na empresa que trabalhava e acho que adoeceria em qualquer trabalho que fizesse naquela época. Adorava trabalhar no banco porém, dos 35 aos 37 anos comecei a perceber que algo não ia bem com minha saúde. Fiquei durante um ano me consultando com médicos, das mais diversas especialidades, para tentar descobrir o que estava acontecendo comigo até que tive minha primeira crise de uma doença chamada síndrome de pânico.

É algo que não desejo para ninguém pois não existe nada mais horrível e sofrível neste mundo. É comum as pessoas confundirem ansiedade aguda, pressão no trabalho, tristeza, achar que vai morrer entre outros vários sintomas com a doença mas quem irá diagnosticar será um bom médico psiquiatra. Esse realmente foi o motivo que tive que deixar o Banco. Eu não tinha mais capacidade neurológica e psicológica de trabalhar ali.

Até tentei voltar mas o cargo que tinha não permitia erros e comecei a cometer falhas primárias até que a direção do Banco decidiu atender e, entender, meus pedidos de desligamento (foram vários) por perceber que eu não tinha mais condição. A diretoria do Banco foi extremamente atenciosa, gentil e tão humana que me demitiram, recebendo  assim, todos os meus direitos. Sou muito grato por isso.

Minha esposa foi a primeira pessoa a me dizer para pedir demissão. Ela havia percebido que algo não ia bem comigo então, tive total apoio da família.

Faço aqui um adendo: trato da minha síndrome do pânico desde 2012 com medicamentos, yoga, andando muito de bicicleta e visitando bimestralmente meu psiquiatra. Ainda tenho meus altos e baixos e o acompanhamento é fundamental. O que quero dizer é que não use o Google como um guia médico achando que tem tal doença. Se sentir que algo não está certo, vá a um médico de referência no assunto.

– Financeiramente falando, consegue hoje viver somente de sua arte?
Consigo. Claro que não ganho tão bem como ganhava com meu trabalho anterior. Tem meses que são excelentes e outros que posso não receber nada. Então, um boa gestão financeira é fundamental. Aliás, percebo que muitas pessoas são praticamente ignorantes neste aspecto.


– Quais desenhistas influenciaram seus trabalhos? E roteiristas?
Desenhistas posso citar três: Moebius (sempre em primeiro lugar), Lourenço Mutarelli e hoje percebo o quanto (e cada vez mais) Frank Miller também me influenciou. Agora roteiristas, já é algo que acredito que minhas influências vem do cinema. Aliás, minha maior influência para fazer quadrinhos vem do cinema. Sou fascinado por alguns diretores como David Lynch, Stanley Kubrick, Gaspar Noe, David Cronenberg, Pedro Almodóvar, Gus Van Sant, Lars von Trier. Penso que esses são minhas influências como e, para roteiristas.

– Você já fez ilustrações de Laranja Mecânica (cinema), The end of the f***ing world (seriado) e já fez capa de álbum musical (Os Capial). Quais suas referências nessas três artes (cinema, seriado e música)? Há alguma influência delas em suas obras?
Acabei respondendo um pouco desta pergunta na questão anterior. Existe uma total influência do cinema e música nas minhas obras. Sou fascinado por essas duas artes. Minha mãe é pianista (não exerce como profissão) e sempre tivemos piano na minha casa, sempre ouvia minha mãe tocando os mais diversos temas e compositores. Meu irmão mais novo não é pianista mas estudou um pouco e tem um ouvido incrivelmente apurado. Meu irmão mais velho também tocava violão. 
– Seu processo criativo é sempre o mesmo ou varia de acordo com a obra? Poderia descrevê-lo? (roteiriza e depois desenha; rascunha enquanto roteiriza?) Sempre trabalha com papel ou também desenha digitalmente?Geralmente é sempre o mesmo. Por vezes a ideia de uma história pode surgir de uma simples observação. Por exemplo, a história de L’Amour: 12 oz, surgiu do fato de em uma manhã, eu observar a caneca de café que eu estava tomando: o tempo passa, o café vai esfriando e eu vou gostando mais ou menos dele. Em EUDAIMONIA, a história veio toda em minha cabeça por observar e pesquisar qual felino seria o mais efetivo em suas caçadas.

Pode parecer estranho mas é assim que as ideias para as histórias surgem pra mim. Alguma coisa me chama a atenção, observo, crio a relação com algo que pode vir a ser um bom tema, uma boa história e vou montando toda ela somente na minha cabeça sem anotar absolutamente nada. Não posso ter um caderninho de notas. Isso geralmente me atrapalha.

Com toda a história pronta na cabeça, vou direto para o computador escrever o roteiro, que faço como um roteiro de cinema, bem detalhado, descritivo pois assim ganho tempo na hora de desenhar as páginas.

Tendo o roteiro finalizado, envio para uma primeira revisão. Voltando corrigido, já começo a desenhar as páginas, que sempre são em um bom papel e com pincel e nanquim. Digitalmente eu só faço as cores, se necessário.

– Todos seus trabalhos até então são de autoria somente sua (roteiro e arte). Já recebeu proposta de desenhar roteiro de terceiros? Tem vontade de trabalhar com algum outro roteirista ou desenhista? Se sim, quem?
Já recebi várias propostas de desenhar para outros roteiristas mas é algo difícil para mim e sinto que seria angustiante. Desenhei uma história do Raphael Fernandes e simplesmente parece que não fui eu que desenhei.

Penso que seria mais fácil (pra mim) desenhar algo que o público já conheça. Por exemplo, desenhar uma história do Justiceiro. Pronto, é algo que faria. E se fosse, por exemplo, com um roteiro do Frank Miller, do Mark Millar, do Gaspar Noe. Esse é um detalhe que tenho: sempre gosto de pensar alto, vai que acontece, rs.

– Você produz, edita, divulga e vende diretamente. É uma escolha esse domínio de todo o processo ou gostaria de poder se dedicar exclusivamente à criação?
Gosto de todo esse processo (neste aspecto sou extremamente punk), gosto de receber uma resposta do leitor pois todo o caminho de se produzir uma HQ se encerra com o leitor(a). Ele(a) é a peça chave de todo ciclo.

Financeiramente, manter esse processo é mais lucrativo. Claro que gostaria muito de algum auxílio para ir aos Correios ou fazer pacotes, por exemplo, mas enquanto posso e consigo tempo para fazer isso, faço com prazer.

Seria muito bom e, diferente, somente me dedicar a criação mas ainda não chegou esse momento.

– Dos seus cinco trabalhos: três foram publicados de forma independente (Luzcia, a dona do boteco; O quarto vivente; Limiar: dark matter); um por editora (L’Amour: 12 oz pela Mino); e um  financiado através do Catarse (Eudaimonia). Quais as diferenças e qual a sua preferência?
Definitivamente o financiamento coletivo é onde melhor me encaixo. Apesar de ter publicado com a MINO, nunca tiver um editor direto. L’Amour: 12 oz estava pronta quando a MINO entrou em contato comigo e publicou então, basicamente, fiz e faço tudo sozinho entretanto, sempre confio a alguém muito competente a revisão dos meus trabalhos. Até o momento as pessoas que fizeram as revisões foram o Daniel Lopes e o Audaci Junior.
– É raro vermos quadrinistas independentes reimprimindo suas obras esgotadas. No seu caso, Luzcia, a dona do boteco esgotou faz tempo. Por que não reimprimir?
Por ter sido uma “HQzine” tão simples, feita de forma inocente, despretenciosa, toda dobrada a mão, grampeada e com uma tiragem de 100 cópias, reimprimi-la deve ser algo muito especial e quando chegar o momento, saberei como fazer.
– Atualmente o Catarse e outros sites de financiamento coletivo estão passando por um momento complexo: de um lado há crise de credibilidade em relação a projetos independentes, pois muitos projetos (inclusive de HQ) recolheram o dinheiro e não entregaram as recompensas; de outro lado cada vez mais editoras buscam ali financiar suas publicações, como a Figura e a Editora 85. Como foi sua experiência de financiamento coletivo? Pretende repetir?
Minha experiência foi fantástica e minha próxima publicação será pela mesma plataforma. Existem esses casos que citou, que deveria prejudicar a imagem de quem fez e faz as besteiras e não a plataforma, pois o método do financiamento coletivo é algo fantástico. É uma das grandes benesses que a internet pode proporcionar.

Estudando a plataforma, entendendo bem como funciona aqui no Brasil, sabendo dos riscos e padrões, fazer uma campanha bem sucedida não é somente bater a meta do valor requerido. É fazer todos as apoiadores receberem suas recompensas antes de qualquer distribuição ou venda da revista. O apoiador terá sempre a preferência.

– Em seu blog (dimensaolimbo.com.br) você já compartilhou algumas trocas de informações entre você e outros quadrinistas, como Rafael Grampá, Fabio Bá e Marcelo Maiolo – este com direito até a print da conversa. Você também ministra cursos e oficinas de quadrinhos. Entretanto você é autodidata. Busca oferecer algo que acredita ter lhe faltado? Faltam professores e informações sobre quadrinhos?
Essa realmente é uma pergunta complexa. Como autodidata, aprendo todos os dia alguma coisa nova no tocante a fazer quadrinhos. E também, como autodidata, aprendo muito quando aceito todas as criticas que meu trabalho possa receber de pessoas como o Grampá, o Bá e o Maiolo.

Foram pessoas que conheci, admiro muito e que sinceramente criticam meu trabalho de um forma que só faz crescer. Todas essas criticas são lições que aprendo para nunca mais esquecer. Me sinto um privilegiado de o Bá, chegar em mim no FIQ 2018, e falar o que achou da minha nova HQ. Isso pelo fato de eu ter pedido um sincero feedback. Aqueles 15 minutos que conversamos foram uma das melhores aulas que já tive sobre fazer quadrinhos.

Nos curso que coordeno, procuro passar tudo o que aprendi e tenho aprendido, como faço, o motivo de fazer daquele jeito, meios de como procurar uma ideia não tão comum, enfim, meus cursos são muito mais subjetivos e introspectivos do que me propor a ensinar como fazer um desenho realista, técnicas de aguada, aquarela, cores e o que for, até porque, não sei nada disso.

– [PERGUNTA COM SPOILER DE QUARTO VIVENTE E LIMIAR: DARK MATTER] Suas obras são marcadas por flertarem com o abstrato em algum momento. Há algo de nonsense ou tudo tem algum sentido específico? Alguns autores preferem não comentar pontos específicos de suas obras, deixando as interpretações para o público. Como pensa sobre isso? O que diria para alguém que lhe perguntasse “o que significa aquela beluga” ou “Nadio e Carino morreram”?
Não tem nada de nonsense nas minhas histórias e tudo que está ali tem um sentido específico e função. O que acontece é que insiro alguns níveis de camadas na história e faço isso propositalmente, pois cada pessoa é única assim como sua leitura. O processo de ler é igual para todos(as) mas a absorção no interior da mente daquela pessoa, junto de toda bagagem de vida que ela carrega, é que moldam o que escrevi. Bem, sei que isso é arriscado mas trabalho assim. Existem os(as) que gostam e os(as) que não gostam assim como tem que gosta de repolho e outros(as) não.

Não tenho problema em comentar pontos específicos dos meus trabalhos. Se vier uma pergunta direta, como essa que fez, respondo que a beluga foi o ponto máximo que pude conceber e que traria uma ruptura brusca no processo de evolução da humanidade.

Se Nádio e Carino morreram? Sim, claro que morreram! Até deixo isso bem claro no texto da última página da HQ. Nádio está nocauteado no chão enquanto Carino sofre as consequências de uma overdose de Dark Matter. Ali uso o recurso de quadros narrativos onde Nádio relata ao leitor: “Tudo isso me foi informado e este sou eu memorizado” lembrando que o termo “memorizado” criei para ser um sinônimo para “estar morto”, algo que deixo claro durante toda HQ.

E então ele continua e comenta que Carino é “…nossa fagulha memorizada, a explosão não contida, a ordem para um novo limiar”. Aqui também, se ler atentamente, junto do caminhar da HQ, perceberá que Carino não suportou a overdose de Dark Matter e como uma fagulha basta para uma explosão, o corpo dele explode como uma bomba atômica, dizimando tudo e todos ao seu redor, ou seja, “…a ordem se dissipando para um novo limiar” ou simplificando, um modelo fracassado se desfazendo para o início de uma nova proposta.

Existem HQ que tem um leitura direta, simples (o que não vejo problema algum e gosto também), como se faz uma simples redação com uma introdução, o desenvolvimento da ideia e a conclusão, mas formulas foram criadas para dimensionar uma ponte, um viga que suporta um vão livre de 30 metros. Gosto de usar formulas para isso e não para escrever uma história

– Você, assim como 90% dos quadrinistas autorais brasileiros, produz obras curtas. As poucas exceções como Marcelo D’Salete (Cumbe e Angola Janga), Rafael Coutinho (Mensur) e Marcelo Quintanilha (Tungstênio e Talco de vidro) são sucesso de público e crítica. Por que essas obras longas aqui ainda são tão raras? Pretende fazer algo assim?
Eu produzo obras curtas pelo fato de gostar muito de ler obras curtas, de fazer obras curtas e por ser um quadrinista independente que precisa bancar a impressão, depois carregar o peso dos gibis nas costas, distribuir, pagar os envios pelos correios, organizar e fazer lançamentos e finalmente, apresentar um preço coerente com o mercado editorial sem essas distorções que tem acontecido ultimamente com o efeito Amazon.

Todos os autores e exemplos que citou foram publicados por excelentes editoras e não sei a forma que receberam para fazer as obras, por isso, não posso argumentar sobre algo que não tenho conhecimento.

– Falando sobre obras mais longas, aproximadamente um ano atrás você postou no blog que por diversos motivos pessoais (lá detalhados) estava engavetando um projeto mais longo, chamado Ela (136 páginas, enquanto suas maiores tiveram 50). Alguma novidade sobre essa HQ?
Por enquanto não mas quando houver, logo saberão.

_ Quais as grandes dificuldades no mercado de quadrinhos nacional? E o que o motiva a seguir nesse caminho?
Eu vivo pelos quadrinhos pois sempre adorei desenhar e criar histórias. Sejam quais forem as dificuldades, não sou um colecionador delas. Tento me ajustar para estar em eventos de quadrinhos, me adequar em como divulgar melhor meus trabalhos e procuro sempre fazer tudo com excelência para que o leitor(a) tenha uma experiência  única, boa e intimista com a HQ e, que valha o valor que ele pagou pelo produto.

Outra coisa que me motiva é que posso viver também pelas ilustrações. Isso, cada vez mais, tem me empolgado! Pensando melhor, existe uma dificuldade que posso apontar. Há algo de natural aos brasileiros, que é a formação de grupos que se preservam e só validam o que acontece entre eles. Acredito que essa seja uma dificuldade que sempre haverá entre qualquer circuito criativo.

– Antes os quadrinistas nacionais tinham dois objetivos: entrar no mercado de super-heróis ou trabalhar para o Mauricio de Souza. Já hoje em dia os quadrinhos autorais parecem ser uma terceira boa opção. Acredita que essa mudança perdurará? O que acha dessa cada vez maior quantidade de editoras e lançamentos?
Penso que esses dois objetivos que citou no início da sua pergunta ainda perduram. Vejo inúmeras publicações genéricas as Graphics MSP e outras tantas similares ao mercado de super-heróis. Acho que ainda exista um novo e terceiro objetivo que é fazer quadrinhos para ser vendido para o cinema, Netflix.

O quadrinhos autorais são a quarta opção e ainda bem que estão cada vez mais valorizados dentro do mercado em geral. Eu tenho certeza de que isso continuará por um bom tempo e que temos uma produção consistente para manter o mercado fortalecido em títulos e diversidade.

Quando mais editoras e lançamentos tivermos é melhor para todos e todas. Muitas editora surgirão e sumirão assim como autores(as). É assim mesmo, um ciclo onde, por um momento, haverá uma ebulição e de repente, um arrefecimento, entretanto, hoje, a oscilação entre as ondas estão brandas e tendem a ser cada vez mais serenas.

– Você é presença constante em eventos de quadrinhos. Ainda o faz pelo prazer de estar no evento ou encara como um compromisso de trabalho?
Adoro estar em eventos de quadrinhos pois faço dele um compromisso de trabalho onde encontro colegas, amigos, vinculados a ganhar novos leitores que não conhecem o que faço.

A logística para se ir ao evento é financeiramente dispendiosa e por isso priorizo o FIQ, a CCXP e priorizava a Bienal de Quadrinhos de Curitiba.

– Apesar de somente ter trabalhos autorais você já tem um belo acervo de ilustrações de super-heróis. Tem vontade de trabalhar no mainstream? Se pudesse escolher personagens da Marvel e da DC para trabalhar, quais seriam?
Tenho pensado nisso ultimamente. Acho que gostaria de trabalhar neste mercado mas de uma forma muito particular. Sei que não sou um desenhista para fazer uma série mensal de algum título mas adoraria fazer histórias curtas, capas variantes e outras coisas. Se pudesse escolher um personagem seria o Aranha e o Bizarro.
– Pelos seus relatos, você é próximo do Rafael Grampá e suas artes possuem semelhanças. O que acha do rumo que o amigo tomou profissionalmente? Tem vontade de atuar no mercado publicitário, mesmo que isso signifique se afastar dos quadrinhos?
Acho que jamais conseguiria trabalhar no mercado publicitário. Acho que é um tipo de trabalho que não combina com meu jeito de ser. Quanto ao Grampá escolher o que quiser fazer é critério dele. Cada um é livre para fazer o que quiser, como quiser e se tem uma coisa que ele faz bem é isso! O cara é um gênio, excelente profissional e se engana quem acha que ele se afastou das HQ.
Ele acha estranho quando dizem que dizem que nossas artes possuem semelhanças. Na animação Dark Noir, que dirigiu com o apoio do pessoal da Red Knuckle, ele me chamou para desenhar as tatuagens do personagem principal e fazer boa parte do storyboard. Acredito que nossos trabalhos conversam entre si e funcionam muito bem quando juntos.
– Tem algum novo trabalho em andamento? Pode nos dizer algo sobre ele?
Sim, tenho. O que posso dizer por enquanto é que a história esta pronta em minha cabeça e desta vez, só vou mostrar algo ou falar sobre ele quando tudo estiver pronto.

– Você já disse que tudo na sua carreira é pensado e planejado. Quais os seus planos para o futuro mais distante?
Tenho realmente tudo pensado e planejado mas só tenho o controle sobre o agora. Então, se eu quiser que as coisas aconteçam, tenho que zelar e viver somente pelo instante em que estou respirando. O futuro será feito das ações que tomar hoje. Ou seja, eu sei onde quero chegar mas só tenho o agora para trabalhar.

– O que não falta no MBB é leitor querendo indicações, do mainstream a obras mais obscuras. Quais suas HQs preferidas?
Gosto muito de quadrinho japonês e europeu. Leia qualquer coisa do Suehiro Maruo e também recomendo Pluto. Agora mainstream… bom, acho que Pluto é mainstream.

– Ainda tem tempo para ser leitor? Se sim, o que tem lido ultimamente?
Tenho lido pouco quadrinhos. Estou relendo Lobo Solitário, Pluto e AKIRA.
Olá camarada, tudo certo?
Concedi uma entrevista para o site O Quadro e o Risco do camarada Thiago Borges. Foi uma entrevista super bem feita e bacana. Convido você para a leitura por aqui mesmo (logo abaixo) ou, no site O Quadro e o Risco que por sinal, é bem bonito!
Acompanhe também a contagem regressiva para o lançamento da minha nova HQ pois, já na segunda, a revista estará a venda aqui na Loja Online.
Grande abraço!
Luciano Salles.
Não há dúvidas de que o paulistano Luciano Salles seja uma das forças criativas mais fortes do quadrinho nacional atual. Um verdadeiro feito pra quem, até 2012, trabalhava como engenheiro e bancário – mas compreensível quando se entra em contato com suas obras, complexas e inquietantes, com traços que remetem à arte científica e hiperdetalhada de Moebius e Geof Darrow.
Na próxima segunda-feira, dia 12 de outubro, Salles lança sua nova HQ, chamada Limiar: Dark Matter. Ficção científica viajandona, que envolve três personagens (Carino, Nádio e Amerício) em uma aventura sobre amizade, vingança, morte e os mistérios da existência – mais detalhes sobre o enredo só lendo a obra. O álbum é um projeto totalmente independente e poderá ser adquirido (por enquanto) na lojinha do site dele a partir de segunda.
No bate-papo abaixo, Salles explica a concepção de Limiar: Dark Matter e outros detalhes desse projeto.
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Capa de Limiar: Dark Matter: lançamento é feito de forma independente, sem passar por editoras
Luciano, com Limiar: Dark Matter você volta ao terreno da ficção científica – gênero ao qual pertence outra obra sua, O Quarto Vivente. Qual sua relação com a ficção científica?
Luciano Salles: Sempre adorei o tema, mas o fato de Limiar ser sobre o assunto foi algo natural. Não fico matutando sobre o que será minha próxima HQ, se vou escrever algo de terror, erótico ou mesmo outra ficção. Simplesmente algum tema me intriga e vou montando uma história em minha cabeça.
E como será a abordagem da história? Seguirá uma linha narrativa mais reflexiva, assim como seus outros trabalhos?
Diferente de L’Amour: 12 oz, sigo reto em Limiar, inclusive narrativamente. Entretanto, eu gosto de me comunicar com o leitor, de poder deixar aberto algumas questões dentro da história e quem sabe, de alguma forma, incentivá-lo a conhecer uma nova zona de interesse. Mas tudo isso é a história que me concede. Não fico forçando a barra.
Dark matter significa “matéria escura”, um dos elementos mais importantes para a formação do universo, porém menos compreendidos pela ciência. Por que usar um termo tão desconhecido logo no título?
A matéria escura compõe praticamente 95% do universo. Há teorias, hipóteses e muitos testes sendo feitos sobre ela, mas não a compreendemos por enquanto. E o fato de não compreender algo me intriga. Quando estava trabalhando na produção da obra, tinha duas opções: ou Limiar ou Dark Matter. Queria muito usar a primeira, mas achava a segunda muito sonora. Para resolver o conflito, foi só acrescentar dois pontinhos ali.

Você já comentou que Limiar fecha um arco de histórias iniciado em O Quarto Vivente e aprofundado em L’Amour: 12 oz. Essas obras foram pensadas para funcionar como uma trilogia ou a ligação temática surgiu naturalmente?
Elas nunca foram pensadas em funcionar como trilogia – até pelo fato de que imaginar isso me traz certo incomodo. Somente quando estava relendo o roteiro de Limiar para a primeira revisão (feita pelo Daniel Lopes, do Pipoca e Nanquim) que percebi que havia unido de forma sutil as três histórias. Não há elementos em comum entre elas, mas se conversam. O que abri em 2013 com O Quarto Vivente se encerra subjetivamente em Limiar: Dark Matter. Quem acompanhou a sequência das histórias sentirá isso. Todavia, se alguém for ler Limiar sem ter lido as outras, não há nada que atrapalhe.
Limiar traz ainda sua segunda parceria com o colorista Marcelo Maiolo (nota do blog: entrevistei o Maiolo aqui). Como se dá a questão criativa quando outro profissional trabalha com você?
Antes de mais nada, ter a honra de trabalhar com um profissional da estirpe do Marcelo Maiolo é algo incrível. E, respondendo sua pergunta, dou liberdade criativa total para ele criar a paleta de cores. O que faço é enviar o roteiro e indicar um filme para ele assistir. Esse filme mostra o caminho por onde desejo que as sensações das cores fluam – para este trabalho, indiquei Enter the Void, do argentino Gaspar Noé.
E, a partir desse ponto, ele vai me enviando as páginas – e fico assustado como ele entende perfeitamente o que eu imaginava. Acredito que deixo a liberdade criativa dele trabalhar associada a uma ideia primária minha.
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Página de Limiar: a arte de Salles remete ao hiperdetalhismo de um Moebius, um Geof Darrow
Seu trabalho reflete uma visão europeia sobre a arte, na qual o sentido de uma obra só se completa no espectador/leitor. Digo isso pois muitos resenhistas de quadrinhos consideram que suas HQs são leituras mais complexas, pois você não costuma entregar os significados de bandeja para o público. Você busca, de forma consciente, instigar a participação do leitor na construção da obra?
Sim, faço de forma consciente – e não quer dizer que vá fazer isso sempre -, contudo acredito ser algo fundamental no modo em que trabalho. Eu gosto que o leitor, com sua carga afetiva e seus embasamentos de vida, leia e se aproprie conforme sua condição o conforta ou, principalmente, o desconforta. Parece ser coisa de doido isso, mas me incomoda a pasteurização da cultura.
Isso pode soar presunçoso, mas é a melhor forma que descobri para me comunicar com as pessoas. Não quero dizer que meu trabalho é bom, e talvez não seja nada além de outra pasteurização, porém é como consigo levar minha voz por textos e imagens. De nenhuma outra forma conseguiria. Não é presunção e, sim, contato.
Um tema recorrente em seus quadrinhos é a existência humana: ao mesmo tempo em que somos seres físicos, ocupando um espaço físico no mundo, também somos formados por conceitos, símbolos (que podem ser sentimentos, memórias). Existe algum motivo pessoal para essa sua busca em entender o que é ser humano?
A condição humana sempre me instigou. Não tenho resposta para nada, somente milhões de “por ques” em minha cabeça. Muitos conceitos me incomodam. Qualquer forma de poder, controle ou mesmo grupos seletivos trazem certo desconforto. Um exemplo simples, ordinário e que existe em todos os lugares: clubes.
Clubes privativos, em que o ingresso se dá mediante um convite ou mesmo mensalidade, mostram nossa mesquinharia e segregação. Qualquer tipo de partido me incomoda pois sempre defenderá primordialmente seus interesses. Entretanto, pelo fato de termos duas orelhas e uma boca, eu prefiro ouvir mais do que falar.
Quanto tempo você levou entre a concepção e a finalização de Limiar?
Demorei uns nove meses. Não gosto de fazer um álbum correndo. Se, por exemplo, a dois meses de um FIQ ou Comic Con Experience eu não tiver uma nova HQ para ser lançada, não farei algo somente para ter o quê apresentar. Durante quase vinte anos, trabalhei contra o relógio com metas, gestão de pessoas, orçamentos, prazos e tudo mais que possa deixar alguém doente. Não quero que as histórias em quadrinhos tomem esse caminho.
E, aproveitando a ideia da trilogia inconsciente formada pelos seus três últimos álbuns: existe alguma chance de você revisitar os personagens de Limiar em trabalhos futuros?
Sinceramente, se for pra fazer isso será com Luzcia, protagonista da minha primeira HQ, Luzcia, A Dona do Boteco (pode ser lida online aqui). Adoro a pinga dela.
Olá, tudo bem?
Há pouco tempo recebi o pedido de uma entrevista do site Colecionadores de HQ. Sigo a página deles no Facebook, os camaradas são gente boa pacas e fiquei contente com as perguntas do Alexandre Morgado. Hoje, para a minha surpresa, o site deles foi atualizado com essa pauta.
Conheça os site do Colecionadores de HQ e já leia a entrevista neste link ou se preferir, toda ela está disponível logo abaixo.
Espero que goste do bate-papo e fique a vontade para comentar!
Grande abraço.
Luciano Salles.

Entrevista | Luciano Salles: Quanto vale um sonho?

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Para o desenhista Luciano Salles vale muito. Após abandonar sua carreira de bancário, Luciano apostou em uma de suas paixões de garoto, e começou a focar na sua nova carreira de quadrinista.
Luciano Salles vem acumulando vários trabalhos de alto nível. Estreou com sua Hqzine “Luzcia, a Dona do Boteco”, trabalho esse que se tornou um curta metragem. Depois vieram “O Quarto Vivente”, trabalho autofinanciado, sobre um futuro distópico com referências ao livro do Apocalipse. Luciano foi o primeiro artista a lançar pela Editora Mino, com o seu “L’Amour: 12 oz”.
Em breve, teremos o seu mais novo trabalho “Limiar: Dark Matter”, programado para outubro desse ano. Nessa entrevista, Luciano conta um pouco sobre seus projetos, seus gostos e de como fez para concretizar os seus sonhos.
Como e quando você começou a desenhar?
O desenho é nato para a criança. É só entregar uma folha em branco e qualquer coisa que a risque que ela tentará desenhar algo. Todos nós desenhamos, mas em algum momento muitos escolhem parar de fazer isso. Eu nunca parei e confesso que é o que mais gosto de fazer na vida. Sendo objetivo, desenho desde os 04 ou 05 anos.
Você deixou a sua carreira de bancário, pra se tornar quadrinista. Como foi deixar tudo para trás e começar a trabalhar com desenhos?
É verdade. Eu ‘abandonei’ minha formação específica e minha carreira como bancário. Digo carreira, pois sabia que lá dentro eu estava em uma ascendente. Eu gostava muito do meu trabalho, mas tive que pedir para ser desligado. Ainda hoje recebo perguntas por e-mail, mensagens pelo meu blog sobre esse processo. Não foi alguma coisa simples, pois tudo aconteceu pelo fato de uma doença. E quando isso acontece você instintivamente opta pela sua sobrevivência. Porém, saí sabendo que deveria fazer algo relacionado com meus desenhos. Sempre tive como paixão os quadrinhos, então, estava fechado o acordo comigo mesmo.
Muitas pessoas pensam que o seu primeiro trabalho foi o “Quarto Vivente”. Mas o primeiro é o Fanzine chamado “Luzcia, a Dona do Boteco”, não é?
Isso mesmo. Meu primeiro quadrinho é algo que chamo de HQzine. É uma história curta, de 12 páginas, que fiz em uma gráfica rápida no formato A5. Para certo esmero, fiz uma capa em folha de seda vermelha, pois conversava com o que o leitor encontraria dentro da HQ. Acho legal ressaltar que “Luzcia, a Dona do Boteco” foi impresso em uma gráfica rápida. Recortei todas as folhas, capas de folha de seda, grampeei uma por uma. Um trabalho artesanal de 100 unidades. Com a revista pronta e em mãos, montei meu blog e criei uma conta no PayPal para vender a revista online. Foi assim que começou tudo.

“Luzcia, a Dona do Boteco” virou um curta metragem, dirigido por Paulo Delfini. Conte como foi que sua HQ se tornou um curta e como foi ver esse trabalho ganhar vida? 
Tudo isso foi incrível. Acho importante um adendo aqui. Eu sempre estive envolvido com artes em geral. Assim, conhecia de longa data o cineasta Paulo Delfini. Aliás, o Paulinho é um grande amigo que tenho em Araraquara. Um dia, do nada, o camarada chegou na Memento 832, meu estúdio e produtora cultural da qual sou um dos sócios e ele simplesmente falou que queria adaptar minha HQzine como um curta-metragem. Achei a ideia fantástica. Tudo aconteceu muito rápido e em três meses o filme já estava pronto e sendo enviado para festivais de curtas. Essa foi uma experiência fantástica, pois ver seu personagem vivo, andando e falando como eu escrevi é surreal.
O que você acha de histórias longas, com mais de 200, 300 páginas, já que é pouco explorado aqui pelos autores nacionais? Você pretende algum dia se arriscar em história desse tipo?
Se uma história for boa, 200 páginas fluem e quando perceber você fechou a revista e se passaram 3 horas. Como sou praticamente um autor independente, trabalhar com histórias mais longas é caro. Basicamente é isso. Penso em escrever algo de fôlego, mas que não ultrapasse 150 páginas, entretanto, ainda não é o momento. Sigo muito o que estou sentindo que devo fazer. Quando chegar a hora irei saber.
Você desenhou uma história com roteiro escrito pelo Raphael Fernandes na HQ “Quatro Estações” e com Marcelo Maiolo numa história do primeiro volume de “321 Fast Comics”. Como é desenhar histórias escritas por outros artistas?
Confesso que não me sinto tão confortável fazendo isso. Com o Maiolo foi mais tranqüilo, pois ele já estava colorindo “L’Amour: 12 oz”, era uma história de apenas três páginas e eu já havia desenvolvido com ele uma certa desenvoltura. Não que houve problemas com o Raphael Fernandes, muito pelo contrário! Entretanto eu gosto tanto de desenhar como de escrever. Antes de escrever o roteiro de uma HQ eu já tenho pronta na minha cabeça. Toda ela, aliás. Resolvo tudo mentalmente para depois digitar. E em todas essas fases estou criando os desenhos antes mesmo de riscar no papel. Tenho certa dificuldade em enfrentar uma folha em branco. Preciso ter exatamente tudo pronto em minha cabeça para depois descarregar no papel.
Conte como é trabalhar com o colorista Marcelo Maiolo!
Fantástico. Sempre fui fã do trabalho do Maiolo. Poder contar com suas cores em um trabalho meu é uma honra. Sem contar o fato de que ele valoriza demais o meu traço… aliás, o traço de qualquer um. Sei que ele gosta do meu trabalho, de como escrevo e acredito que por isso já temos dois quadrinhos juntos. Agora pessoalmente, parece que o Marcelo tem apenas um órgão dentro daquele tamanho todo. Um coração enorme habita ali. E um detalhe que acho fundamental acrescentar: o pessoal do HQMIX deveria criar uma categoria “Colorista Nacional” para reconhecer ainda mais o trabalho do Marcelo Maiolo.
“Quarto Vivente” é um trabalho bem elaborado, com várias referências não explicitas na HQ. Surpreendeu-te o fato desse seu trabalho ter tido uma repercussão tão grande em tão pouco tempo? 
Sim, muito. Nunca imaginei que isso fosse acontecer, afinal faço quadrinhos há três anos. Eu trabalho sempre no limite do que eu posso oferecer tanto com os textos e desenhos que quero para aquela história. Então ali, naquelas poucas páginas, está tudo de mim. Considero “O Quarto Vivente” como um passaporte que me inseriu como quadrinista no mercado nacional. E é incrível que mesmo após mais de dois anos de publicada, ainda vendo semanalmente a HQ através do meu blog. Até uma “Análise e Interpretação” de “O Quarto Vivente” foi escrita e esse texto está hospedado no site Pipoca e Nanquim.
L’Amour é o seu terceiro trabalho, sendo o primeiro a ser lançado por uma editora. O que você achou de ter lançado esse trabalho por uma editora, no caso a Editora Mino?
“L’Amour: 12 oz” estava praticamente pronta quando a editora Mino apareceu com a proposta de publicar a revista. Foi o álbum que inaugurou as publicações da editora e me sinto muito honrado como esse fato. A Mino é uma editora atenta a detalhes e prima principalmente pelos autores. Para “L’Amour: 12 oz” foi excelente e essencial a publicação pela Editora Mino. Como disse acima, eu escuto muito pela minha intuição e senti que era o momento de lançar por uma editora. Não podia ter acontecido melhor casamento.
L’Amour é uma história que não segue o padrão começo meio e fim. Você gosta de desafiar os leitores com as suas histórias, não?
Essa é uma pergunta recorrente. Eu gosto quando leio algo que me incomoda ou me inspira através daquilo que estou consumindo. Adoro assistir a um filme que me faça refletir de alguma forma. Gosto de ir ao teatro e sentir sensações além do que estou vendo. Dessa mesma forma procuro (tento) trazer o leitor para dentro do que estou passando através de palavras e desenhos. Desenhos (imagens) têm um poder absurdo de sintetizar muita informação. Finalizando, não é que eu desafio o leitor, mas sim que o imagino imerso com sua bagagem emocional, intelectual e de vida dentro da história que quis contar. Acredito que assim tudo fica melhor.
A Folha de São Paulo convidou você e outros quadrinistas para ilustrar semanalmente uma mini-história em seu caderno cultural. Como você analisa o trabalho que a mídia faz para o mercado de HQs?
Estamos no começo de tudo novamente. Sabe quando um começo começa de novo? Então, é isso. Engatinhamos e acredito que o que a mídia fizer para o mercado do quadrinho nacional é lucro. A grande exposição e de qualidade só ajuda o mercado. Agora não posso esperar que a mídia sempre enfatize algo. Preciso produzir independente do que ou de quem vai divulgar. Uso meu blog para isso.
O seu próximo trabalho será a HQ chamada “Limiar: Dark Matter”, Por que você decidiu lançá-la como independente?
Por um princípio. Depois que acabei de escrever o roteiro de “Limiar: Dark Matter” percebi que eu estava encerrando um arco aberto em “O Quarto Vivente”. E como abri esse arco de forma independente, preciso encerrá-lo da mesma forma. A Editora Mino entendeu e deixou as portas abertas (ainda bem) para um futuro trabalho.
Limiar: “Dark Matter” é uma sequência do “Quarto Vivente”? 
Não, não é uma sequência. Apenas as histórias entre “O Quarto Vivente”, “L’Amour: 12 oz” e “Limiar: Dark Matter” de certa forma se conversam. Não são continuidades, mas que as três formam um arco, isso formam.
Quem são os artistas que te influenciaram?
Nas HQ minha maior influência é Moebius. Ainda acho que Moebius é uma referência imensa para meus quadrinhos. Entretanto sou muito influenciado por cinema e especificamente seus diretores. Gaspar Noé, David Lynch, Stanley Kubrick, Lars von Trier, Almodóvar, sempre me fascinam. Também sou fã do trabalho do diretor de teatro Bob Wilson. Isso sem contar a música!
O que você leu recentemente que mais gostou? 
Li “A Era das Máquinas Espirituais” de Ray Kurzweil e adorei. Em quadrinhos gostei bastante de “Shazam” do Jeff Smith.

Olá camarada, tudo certo?

O fotógrafo Deivide Leme iniciou uma série em vídeo chamada Perfil. Tive a honra de ser convidado para inaugurar os filmes. Ali falo sobre minha profissão, escolhas, encontros e vida como quadrinista.
Deixo aqui o vídeo e o link do canal: https://www.youtube.com/watch?v=D1TnhaF3tyY

Grande abraço.

Luciano Salles.

Olá camarada, tudo certo?

Na terça-feira passada (03/03/2015) eu concedi uma entrevista para a rádio CBN e o autor da pauta, o estudante de jornalismo Lucas Allencar, aproveitou para fazer mais algumas perguntas e com estas inaugurar seu blog sobre quadrinhos. A entrevista para a rádio ainda não foi ao ar mas assim que for informado da publicação, aviso por aqui.

O site é o Em Solo Nacional e lá está a entrevista. Também foi criada uma página do blog no Facebook. Então fica a dica para mais um blog para você, camarada quadrinista com eu, divulgar seu trabalho em quadrinhos. Agora confira a entrevista por aqui mesmo ou já leia e conheça no Em Solo Nacional.

Grande abraço.

Luciano Salles.

12 Perguntas para Luciano Salles

Pra inaugurar o blog, bati um papo com o Luciano Salles, autor de ‘L’Amour: 12 oz.’, ‘O Quarto Vivente’ e ‘Luzcia – A Dona do Boteco’. Se você ainda não conhece o trabalho dele, pode clicar aqui e conferir ou dar uma olhada no blog dele, o Dimensão Limbo.



Luciano, como você escolheu fazer quadrinhos? Foi uma decisão repentina ou algo pensado?

Apesar de ter me formado em engenharia civil, trabalhado um pouquinho na área e trabalhado também 12 anos em banco, eu sempre desenhei. Me alfabetizei com quadrinhos, desenho desde muito novo. Onde eu estive, a arte esteve comigo. Quando eu saí do banco, porque lá já não dava mais pra mim e porque fiquei doente, fazer quadrinhos foi natural. Ou era isso ou era isso.

No começo, rolou um medo de as coisas não dessem certo?
Não rolou, não. Eu tinha que fazer alguma coisa e experimentei os quadrinhos. Minha primeira HQ, um fanzine, na verdade, ‘Luzcia – A Dona do Boteco’, teve uma tiragem de 100 cópias. Elas esgotaram rápido e aí eu me empolguei e fiz minha segunda história. Não fiquei pensando se ia dar certo ou não.

Para imprimir e começar a vender suas HQs, você teve que investir dinheiro do seu bolso. Como foi isso?
Tudo o que eu gastei teve retorno. Meu primeiro trabalho “se pagou”. Eu vendi as 100 cópias de ‘Luzcia – A Dona do Boteco’ por um valor suficiente para pagar a impressão. Quando pensei em ‘O Quarto Vivente’, queria fazer um trabalho mais caprichado, em formato grande e melhor, graficamente. Como o custo era maior, vendi minha moto para pagar a impressão. Além de não precisar mais dela, eu podia, sei lá, sofrer um acidente, me machucar e ficar sem poder desenhar. Então, eu vendi, financiei a impressão e deu tudo certo. Acho que o fato de ter trabalhado em banco me ajuda a manter meu controle financeiro.

Além do investimento financeiro, é preciso investir seu tempo para o trabalho gráfico, impressão, divulgação, distribuição. Isso é desgastante ou você gosta desse processo todo?

Cara, vou ser sincero: gosto dessa correria. São etapas e gosto delas. Gosto tanto de desenhar quanto gosto de escrever a história ou de pintar. Vender, divulgar no meu blog, colocar nos envelopes, mandar pelo correio, fazer contato com livrarias de outros estados… É tudo muito legal. Eu curto todo esse processo. Tudo isso, acho que faz parte. Não adianta querer só escrever, tem que fazer acontecer. Apesar de ‘L’Amour: 12 oz.’ ter sido lançado pela Editora Mino, me considero independente. Faço meu trabalho, com editora ou sem. Sou tipo um punk que não usa visual punk.

Por que você optou por lançar sua terceira revista por uma editora?
Quando a Editora Mino entrou em contato comigo, a revista já estava pronta. Ia sair com editora ou sem. A proposta foi legal e pensei que só iria saber como é trabalhar assim se eu experimentasse. Está sendo legal, tem seus prós e contras. A impressão e distribuição fica por conta deles, então se eu quero colocar a HQ em uma banca de Araraquara ou São Carlos, é complicado porque eles é que precisam fazer esse contato. ‘L’amour: 12 oz.’, ainda não está em algumas lojas que eu sei que venderia bem, nessas cidades. Tenho que dar meus pulos, tipo o que faço na loja Mondrean Ambiente, que me apoia culturalmente. Lá, fiz uma promoção: eu deixo umas cinco cópias da revista para vender e quem compra já tem um café pago. Faço essas coisinhas onde não conseguem chegar com a HQ.

Então, você não acha que trabalhar com uma editora seja subir um degrau? A qualquer momento, você pode voltar a ser independente?
Posso, sim. Mas tenho que experimentar. Meu novo trabalho, por exemplo, não tem editora, por enquanto. A Editora Mino está correndo com um monte de trabalhos e não sei se eles vão lançar essa nova revista comigo. Eu não fico desesperado. Acho que não vai ter uma explosão de editoras no Brasil. Aqui, tem outros métodos, como o Catarse e o Kickante. Se você já tem um trabalho legal e vendas boas, consegue fazer uma impressão, tranquilamente. Mas pra quem está começando, querendo lançar o primeiro quadrinho, gastar mais de R$5 mil em gráfica, é complicado. Essas ferramentas viabilizam isso.

O crowdfunding tem sido um método bastante eficaz para publicar quadrinhos no Brasil. Você acha que, com essas ferramentas, é um momento legal para quem quer se lançar no mercado?
Acho que essa é a hora de usar esse método, que eu acho fantástico. Ele te possibilita financiar sua revista sem ter que gastar. Mas, com isso, vem uma responsabilidade absurda. As ferramentas são excelentes, contanto que você tenha planejamento. É preciso fazer uma infinidade de contas pra não errar na dosagem de tempo e dinheiro. Eu sou louco com prazos. Então, se você prometeu e tem que entregar o trabalho pronto em 4 meses, é melhor cumprir o prazo ou você se queima.

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Em comparação à maioria das histórias em quadrinhos, você tem um jeito diferente e característico de contar suas histórias. Você não teme ser incompreendido?

Nunca tive esse receio, também. Quando lancei o ‘L’amour: 12 oz.’, até comentei com a minha esposa: “acho que, às vezes, eu me arrisco demais”. Mas acho que é besteira isso. Geralmente, histórias em quadrinhos seguem um formato pronto. Aí, você lê e fechou, acabou. Mas por que tem que ser assim, cara? Tem tantos gêneros diferentes no cinema, por exemplo. Uma coisa que eu sempre digo é que o artista nunca pode subestimar o leitor. Eu sei que tenho minha forma peculiar de escrever e pode ser que muita gente não goste ou goste, mas escrevo também para o leitor sentir que… Se o cara lê o quadrinho uma duas vezes, fecha a revista e percebe que aquilo serviu para alguma coisa ou deu um toque nele, do tipo “eu não tinha pensado nisso”, pra mim, já valeu a pena. Não tenho medo de escrever como escrevo porque, pra falar a verdade, é o jeito que eu sei escrever.

Acha que esse seu tipo de narrativa e traço e quebra do lugar comum pode despertar em alguém a iniciativa de desenhar assim, também?

Quando eu li Garagem Hermética, do Moebius, em 1994 ou 1993, eu falei: “então pode fazer assim, cara?”. O sentimento que eu tive com aquela revista, talvez, seja o sentimento que eu quero que o leitor tenha quando lê o meu trabalho. Até então, eu lia X-Men, Batman, Superman e, quando eu peguei aquela revista, eu percebi que existem outros caminhos. Desde que inventaram o jeito de contar história, lá na Grécia, o modelo é sempre o mesmo: apresentação do personagem, desenvolvimento da trama e encerramento. Tudo bem, é assim que contamos histórias. Mas não precisamos seguir essa ordem. Podemos contar uma história dentro da história. Enfim,fazer o que você quiser.

Em que medida a arte do Moebius te influenciou e quais são suas outras inspirações?
Sempre falo do Moebius, porque foi ele quem me deu esse estalo. Eu me encantava com ele, admirava cada quadro, cada traço, cada nariz que o cara fez e ficava babando em cima daquilo. Sou muito fã também do Lourenço Mutarelli, daquelas perspectivas tortas dele. Mas sou mais influenciado pelo cinema, principalmente por alguns diretores, como o Gaspar Noé, Lars Von Trier, Alejando González Iñárritu e o Pedro Almodóvar e aquelas coisas meio bregas que ele faz. Acho que meus personagens são todos meio bregas (risos).

Em algumas entrevistas, você disse que, de alguma maneira, ‘O Quarto Vivente’ e ‘L’Amour: 12 oz.’ estão conectados. Qual é a ligação entre eles?

Esse lance… Assim, quando eu escrevi minha nova HQ, ‘Limiar: Dark Matter’, que já estou desenhando e sai em outubro, eu percebi que, sem querer, fiz um arco entre as três. Nenhuma é continuação da outra, você não precisa ler em ordem nenhuma. Não tem como ser. Mas percebi que as histórias se complementam de uma forma biológica, uma forma como a vida. Eu não posso falar mais porque ou vou dar spoiler do que vem por aí. Quem leu as duas primeiras, vai sacar um arremate ali na terceira revista. Sem querer, amarrei as três histórias e dei um ponto final em ‘Limiar: Dark Matter’.

É um ponto final mesmo ou todas as suas histórias vão estar conectadas, de alguma maneira?

O contexto dessas três histórias acaba em ‘Limiar: Dark Matter’. Meu jeito de escrever e desenhar vai continuar o mesmo, mas as temáticas serão outras. Eu ainda não tenho definido minha próximas história. Tenho, brevemente, algumas coisas na cabeças e, baseado nelas, tenho certeza que essa temática se encerra, mesmo.
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Na última sexta-feira, o Luciano atualizou o blog dele com algumas novidades sobre ‘Limiar: Dark Matter’. A HQ vai ser lançada em 12 de outubro e já ganhou uma sinopse. Confira:
“A revista conta a história de dois confrades que decidem vingar a morte de um camarada, um irmão fraternal. Todavia, tudo através da memória dele. Nesse ínterim, algumas regras são quebradas e outras são tomadas para que a vingança se concretize.”
Pra mais novidades sobre o novo trabalho dele, dá uma olhada no post original, lá no Dimensão Limbo.

Olá, tudo bem?

Camarada tenho que afirmar que essa foi uma das entrevista com as perguntas mais legais que já respondi. Aqui o autor da pauta, Ramon Vitral, conversou comigo sabendo de tudo e um pouco mais sobre minha pequena contribuição aos quadrinhos nacionais.
Uma entrevista bem legal que você pode conferir aqui mesmo e logo abaixo ou, direto no Vitralizado.

Grande abraço!

Ramon Vitral

O primeiro quadrinho que li do Luciano Salles foi seu mais recente lançamento, L’Amour: 12 oz. O gibi foi uma das minhas leituras preferidas de 2014 e fui correr atrás de O Quarto Vivente, seu segundo trabalho. Foi eu passar a última página pra acessar correndo o site dele pra procurar Luzcia, A Dona do Boteco, sua primeira publicação – a versão impressa esgotou, mas tá na íntegra aqui. E agora não tenho mais nada inédito dele pra ler. Por enquanto, Salles publicou apenas três títulos e vejo um imenso crescente em sua produção. Fui apresentado ao trabalho dele pouco antes do lançamento de L’Amour, pelos editores da Mino responsáveis pelo trabalho. Entre a minha leitura de L’Amour e de O Quarto Vivente, encontrei esse texto dele no Stout Club, sobre o início de sua carreira como quadrinista e algumas opiniões suas sobre o mercado brasileiro de quadrinhos. E em seguida veio um depoimento em estilo de making-of do autor pro blog do Érico Assis. Caso não conheça o trabalho do quadrinista, não pense duas vezes, dê um jeito de ler – seus trabalhos estão a venda no blog dele. Trata-se definitivamente de alguém com traços e textos atípicos no mundo dos quadrinhos. E caso você conheça ou não, por favor, dê uma lida nesse papo que batemos. Ele tem muita coisa interessante a dizer:

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Gosto muito do seu texto no Stout Club sobre como você largou 20 anos de trabalho como engenheiro e depois em uma instituição financeira pra trabalhar com quadrinhos. A minha curiosidade é sobre como as pessoas próximas de você reagiam quando você dizia que ia largar uma coisa pra viver de histórias em quadrinhos. Alguém achou uma mudança de áreas meio drástica?
Na realidade eu não comentava isso com ninguém além da minha esposa, que me incentivou todo momento. Entre outubro de 2011 até 04 de abril de 2012, enfrentei alguns problemas de saúde que foram os catalisadores da minha decisão. Sempre fui uma pessoa organizada e me preparei bem para a mudança radical que faria. Quando digo que me preparei bem é que tinha metas do que exatamente queria e faria. Isso me deixava mais tranquilo apesar de nunca haver publicado nada. Mas estava tranquilo. Tinha aquelas metas na minha cabeça e tinha a certeza que daria certo.
Daí você resolve investir em quadrinhos: escrevendo, desenhando, editando, imprimindo e vendendo o Luzcia, certo? A revista esgotou, as pessoas gostaram e você acabou lançando O Quarto Vivente e o L’Amour. Mas você chegou a cogitar a possibilidade da primeira revista não ter dado certo? Você tinha um plano B caso as pessoas não tivessem gostado do Luzcia?
Não tinha exatamente um plano B. Eu imaginava que poderia trabalhar como ilustrador. Poderia adequar o meu traço para ilustrar livros, literatura infantil, jornal, revista, mas eu estava (e ainda continuo) tão confiante no que poderia produzir de forma independente e em quadrinhos, que acho que esse foi o motivo de Luzcia, a Dona do Boteco ter funcionado. Mas existe um pequeno detalhe. Desde que deixei a Instituição Financeira que fiquei por quase onze anos, eu trabalho hoje, em quantidade de horas, mais tempo do que quando era funcionário.
Eu fiz a opção de acabar com os dias da semana instituídos e preparatórios para um sábado e domingo. Eu acabei com os horários matutino, diurno e noturno. Trabalho quando preciso trabalhar e paro quando sinto que preciso parar. Meu corpo e mente me dizem quando devo parar, quando devo dormir e quando devo voltar ao trabalho. Eu trabalho todos os dias as revistas que já publiquei. Procuro novos pontos de venda, sempre ando com minhas HQ por onde vou, tenho o meu blog https://dimensaolimbo.com atualizado semanalmente e assim, por consequência, as coisas vão acontecendo.
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Eu gosto muito quando você fala no seu texto do Stout Club que “o mercado de quadrinhos autorais e independentes é apenas reativo ao seu trabalho”. Acho que muita gente pensa da mesma forma que você: tanto na internet quanto em lojas de quadrinhos eu vejo lançamentos e mais lançamentos. A minha dúvida é em relação à percepção que você tem do público: o mercado tem sido receptivo, mas os leitores que consomem esses trabalhos vão além do nicho de consumidores usuais de quadrinhos?
Essa é uma pergunta difícil de responder, mas acredito que nos últimos anos o mercado tem ganhado novos leitores. Penso que o cinema tenha favorecido isso. Às vezes o cara assiste ao filme do Guardiões da Galáxia, com toda aquela ambientação e fica interessado de onde tudo aquilo saiu. O mesmo senti na Comic Con Experience. Muitas pessoas que visitaram o evento não imaginavam a cena de quadrinhos que haveria ali. Inclusive o mercado independente de quadrinhos. Em um evento de tantas marcas de alcance mundial, ali estavam centenas de quadrinistas vendendo suas obras. O mercado nunca esteve melhor.
Você pensou os projetos do Luzcia e do Quarto Vivente do início ao fim, certo? Já o L’Amour foi lançado pela Mino. Houve alguma grande diferença entre trabalhar sozinho nos dois primeiros e depois pensar em equipe com o pessoal da Mino?
Essa é uma pergunta recorrente. L’Amour: 12 oz estava praticamente pronta quando o pessoal da MINO entrou em contato comigo. Antes da MINO aparecer, eu estava negociando com outra editora mas não fechamos um acordo. Entretanto a revista já estava toda desenhada e colorida pelo Maiolo. O letreiramento já estava concluído também. Enfim, a revista estava pronta. Quando a MINO entrou, o que foi alterado foi a capa. A nova capa com certeza ficou muito melhor. Então, L’Amour: 12 oz quase que foi lançada independente também, porém, nos últimos minutos a MINO surgiu com a proposta e eu topei.
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Outra questão sobre trabalhar sozinho e ser independente. Poucos dos trabalhos lançados dessa forma contam com o olhar de um editor. E são poucas pessoas editando quadrinhos ao pé da letra aqui no Brasil. Fez/Faz alguma falta pra você ter alguém que te ajuda a pensar a HQ?
Eu tenho a sorte de conhecer o Daniel Lopes, antes mesmo dele editar quadrinhos profissionalmente. Conheci em Araraquara, em um exposição de quadrinhos no SESC Araraquara. A partir de então, ficamos amigos e como o camarada tem um conhecimento absurdo de quadrinhos, ele sempre faz as revisões dos meus roteiros. Inclusive sempre deixo aberto para ele sugerir qualquer alteração. E foi assim desde minha primeira empreitada com Luzcia, a Dona do Boteco. O Daniel inclusive acompanha o desenvolvimento das páginas que vou desenhando. Enquanto vou produzindo a revista, envio para ele as páginas para sugestões e ainda uma segunda revisão nos textos já nos balões. Tenho essa sorte e com certeza, sem o Daniel Lopes, essa seria um figura que faria falta.
Tanto em relação a alguns temas que você aborda, quanto no estilo do seu desenhos e de suas cores, tem hora que seus trabalhos me lembram da fase boa do Frank Miller – a boa, vale ressaltar. Faz sentido pra você essa comparação? Ele é uma influência? Tem algum artista/quadrinista que te influencia mais ou que você tem como grande referência?
Minha grande referência de quadrinista é o Moebius. Minha consciência pelos quadrinhos mudou quando conheci Garagem Hermética. Mas é claro que o Frank Miller é uma influência e que também, acredito eu, foi muito influenciado pelo Moebius também. Mas apesar disso, sou muito influenciado pelo cinema e especificamente por alguns cineastas. David Lynch, Alejandro Iñáritto, Gaspar Noé, Lars Von Trier, Darren Aronofsky, Pedro Almodovar entre outros, em certos aspectos, são grandes influências nos meus trabalhos.
Eu gosto muito do L’Amour – da arte, da história e do texto. Ainda assim, o que me pegou foi a forma como você brinca com a passagem do tempo, repleta de digressões. Eu adoro quando autores de HQs exploram as possibilidades de brincar com a passagem do tempo, pois acho que existem poucos elementos tão característicos dessa linguagem quanto a forma como o tempo pode ser retratado. Esse ponto foi importante pra você durante a produção do gibi? Deu trabalho pensar em todas essas idas e vindas?
A questão tempo é o principal em L’Amour: 12 oz. A história gira em torno do amor e do tempo. Sempre leio resenhas que dizem que não é uma leitura fácil e essas coisas. Isso não me incomoda mas me leva a reflexão: qual é o parâmetro para isso?
Eu sempre enfatizo que nunca e jamais se deve subestimar o leitor. Aliás, o leitor é a peça chave em uma história em quadrinhos. O ciclo vai se fechar na mão dele então, que o ciclo seja fechado da melhor forma ou seja, deixando o leitor imerso no que leu. Não estou dizendo que faço isso, mas que procuro (da minha forma) deixar caminhos, atalhos, ensejos, para que o leitor participe de alguma forma do que está consumindo. Eu gosto quando assisto um filme e aquilo me toca de tal forma que me incomoda, induz a repensar algumas coisas e reflito sobre aquilo. Esse é um filme que eu gosto. E qual o motivo de não ser assim com os quadrinhos.
Voltando a pergunta! Quando escrevi o roteiro de L’Amour: 12 oz, eu já tinha toda história articulada em minha cabeça. Inclusive com as digressões. Mas confesso que colocar em palavras na hora de escrever o roteiro…camarada, eu tive que ficar atento.
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E o L’Amour é ambientado num cenário mais fechado, definido principalmente pelos personagens. Já O Quarto Vivente tem uma ambientação quase épica, num futuro distante que você apresenta alguns recortes pro leitor. Eu queria saber muito mais sobre esse mundo. Você apresentou tudo que tenha pra contar desse universo ou ainda tem algo na sua cabeça sobre ele que não foi pro papel?
Você tem razão sobre estas observações, mas a abertura que dei em O Quarto Vivente foi exatamente para esse mote. A experiência de abertura de um mundo onde abruptamente foi interrompido com o final da história. Enfim, eu apresentei tudo que queria apresentar.
Eu li no blog do Érico Assis você comentando sobre seu próximo trabalho, como de certa forma ele compõe um arco de histórias junto com O Quarto Vivente e o L’Amour. Eu tenho uma pergunta sobre o seu próximo lançamento, mas antes eu queria saber mais da relação do Quarto Vivente com o L’Amour. A primeira é uma espécie de drama ambientado num futuro distópico e a outra tá mais pra um romance retrô. Claro, tem o seu traço e tem todo o seu estilo ali, mas qual a relação que você vê entre obras tão distantes? Aliás, elas são tão distantes assim pra você?
Se eu disser claramente a relação entre as obras eu entrego o que virá no meu novo trabalho. O individualismo em O Quarto Vivente foi rebatido, de certa forma, em L’Amour: 12 oz. Entretanto a busca dos personagens é a mesma em ambas as histórias, mas de um ponto de vista e argumentos diferentes. No meu novo trabalho existe realmente uma busca física que de certa forma vai encerrar o que deixei aberto em O Quarto Vivente e em L’Amour: 12 oz.
E sobre o Limiar: Dark Matter, você adiantou um pouco sobre a trama (uma história de vingança de dois amigos pela memória de um terceiro colega morto). Você pode falar algo mais da obra? Tem algo de diferente que você está fazendo agora em comparação com seus três lançamentos anteriores?
O que posso falar sobre a revista é que o roteiro foi revisado e estou desenhando as páginas. A trama é esta mesmo, uma pequena história de vingança. Mas acho que posso abrir um pouco mais. Sempre, em qualquer ato feito, você pode esperar uma resposta. Agora, quanto a produção do álbum, não existe algo que esteja fazendo de diferente. Tudo está bem ajustado dentro dos cronogramas e no dia 12 de outubro de 2015, Limiar: Dark Matter será lançada. Por enquanto é isso!