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Olá, tudo bem?
Segue entrevista em vídeo para o Chapéu do Presto, que aconteceu no Festival de Quadrinhos de Limeira e, na sequência, entrevista que concedi ao site Tapioca Mecânica, no FIQ 2018.
Confira e se quiser deixar alguma pergunta ou consideração, fique a vontade e use os comentários para isso.
Um abraço.
Luciano Salles.


Entrevista para Tapioca Entrevista – LUCIANO SALLES FIQ 2018
por Gabriel Fraga | 12 /09/ 2018 | Destaques, Quadrinhos
Na última semana de maio de 2018 ocorreu mais uma edição do tradicional Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) em Belo Horizonte e o Tapioca Mecânica esteve lá. Foram feitas várias e interessantes entrevistas e que depois de um trabalhinho de transcrição, agora apresentaremos nessa coluna de quarta-feira.
A primeira entrevista foi com o quadrinista Luciano Salles. Muito gentil e solícito com seu tempo, Luciano nos cedeu um dos melhores bate-papos que já fizemos, além de ser muito esclarecedora sobre seus quadrinhos e seu jeito de encarar arte.
TAPIOCA MECÂNICA: No Quarto Vivente você fala do período em que viveu em Araraquara, interior de São Paulo. Parece ter sido um momento muito importante para sua formação.
LUCIANO SALLES: Eu me mudei pra Araraquara bem pequeno, com dez anos. Caí numa ruela sem saída, pequena e foi tudo que eu poderia querer: punk rock, skate e fanzine, desenhos. Tudo que eu gostava de fazer. E foi bem formador. Nessa época zine não era só desenho, não era só história em quadrinho. Tinha matéria sobre a banda de rock da cidade e aí nós mandávamos pra Recife e eles devolviam com outras matérias e fitas cassetes das bandas de lá. E eu já sabia que era isso que eu queria fazer. Isso foi em 1985…

TM: E fazia tudo isso aos dez anos, fanzine, punk rock e skate? (risos).
SALLES: Pior que sim. Eu entrei nesse mundo com dez anos e fui até os vinte e três. Andei bastante de skate, mexi muito com música, ainda mexo um pouquinho.
TM: Tocando?
SALLES: Não toco mais nada. Meu violão tá com meu pai, minha guitarra tá indo pro meu irmão, meu trompete tá parado. Às vezes faço alguma trilha pra algum espetáculo de balé ou curta-metragem. Mas isso aí ficou incrustrado em mim.
Como eu falei, em 1985, era outro mundo, cara. Você tinha que fazer uma faculdade e seguir a carreira, por isso que sempre estudei muito, sempre gostei de estudar, estudei pra caramba, sempre fui muito CDF, CDF mesmo, nem tinha nerd no Brasil ainda e foi isso. O quadrinho veio bem depois, com 37 anos.



TM: Você fez faculdade de engenharia e me diversos momentos falou sobre a relutância que tinha em fazer quadrinhos até que chegou a hora. Como foi esse momento? Houve um catalizador? A hora que você parou e disse ‘eu tenho que fazer isso agora”.

SALLES: É, nessa época eu trabalhava no banco S*****, era gestor lá e aconteceu de eu ficar doente, na real. Se tivesse ficado era capaz de estar lá ainda. Capaz não, certamente estaria. Mas eu fiquei doente de verdade e não tinha mais condições e uma madrugada minha esposa falou “olha, amanhã você pede demissão” e eu fiz isso mesmo. Passei quatro meses pedindo demissão e eles não aceitavam, mas perceberam que eu não estava legal e aí eles foram muito gente boa e me mandaram embora. Me pagaram tudo, eu fiquei um tempão lá, me dediquei ao máximo e saí por motivo de doença. Mas saí e já fiz o Luzcia, a Dona do Boteco no mesmo mês e de lá pra cá vivo exclusivamente de quadrinhos.
TM: Isso foi em…?
SALLES: Isso foi em 2012. Saí do banco em abril e no final de maio já estava com o Luzcia pronto e tentando vender online.
TM: O Quarto Vivente fala de um mundo em que catástrofes aconteceram, a Europa, pelo que eu entendi, sumiu, os franceses vieram pro Brasil e depois disso a sociedade evoluiu. Tanto é que o nome do país é República Fraternal, parece um tempo de paz. Porém eu ainda sinto muita angústia nele e no Dark Matter, onde as pessoas consomem matéria negra – no futuro as pessoas consomem aquilo que gerou o universo. Não sei se é real, mas eu sinto muito uma angústia sua com coisas limpinhas, coisas perfeitinhas. Uma certa inquietude com ideias utópicas. Existe isso mesmo?
SALLES: Acho que todo artista é um ser angustiado. Você tem razão. O Quarto Vivente era como se fosse um mundo ideal, mas na leitura todos estão sempre de ouvido tampado e lá o acaso não existe mais. Se for pensar nisso, sem o acaso há o controle absoluto e aí fica naquilo, mas não temos como mensurar o que seria um controle absoluto. Por isso a Juliete faz o que ela faz: uma menina de quinze anos que decide… e tem muita coisa por trás, o fato de ela se chamar Juliete Manon, que é diminutivo de Maria Manon, Maria mãe de Jesus. Tem muito dessas coisas no livro. Acho que é a primeira entrevista que eu falo isso, o nome dela, o que ela faz tem a ver, o Quarto Vivente tem a ver com o apocalipse, uma parte que fala dos quatro seres viventes do apocalipse, tem muito dessas coisas por baixo da história. E tem uma análise do Quarto Vivente pelo Pipoca e Nanquim, que está num texto no site deles, em que eles destrincharam noventa por cento do que eu coloquei na obra. (Link)

TM: No final, quando ela dá à luz a baleia ou o golfinho, seria o retorno do mistério ao mundo deles?
SALLES: Seria. Ela rompeu com tudo de uma forma não casual. Ela comprou aquele tipo de parto, ela comprou aquilo. Porque não teria como ser acaso. Ela fez aquilo pra romper com tudo, pra ser a primeira pessoa, até então, que fez aquilo e é louco porque eu li há pouco tempo, há uns dois anos ou um ano e meio que uma moça no Japão estava tentando gerar um tubarão. Uma loucura.
TM: A vida imita a arte (risos).
SALLES: A vida imita a arte, mas assim… nós ainda somos muito limitados. Não conseguimos ir muito além. Se você pegar todas as histórias que estão aqui, sei lá, não estou menosprezando todo mundo que está aqui, mas sei lá. Nós somos muito limitados, é muito difícil nós extrapolarmos.
TM: Essa é a angústia presente nos seus quadrinhos então, chegar a um lugar diferente?
SALLES: É, eu gosto. É uma pretensão que não vai acontecer.
TM: Mas é muito saudável.
SALLES: É saudável e, de certo modo, pode até me prejudicar como autor porque a pessoa pode passar e ficar “ah, li e não entendi nada!”.
(Risos)
TM: Aproveitando, como você se vê então? Porque você escolhe narrar seus quadrinhos dessa forma. Como você se vê então nos quadrinhos brasileiros? Você pensa nisso?
SALLES: Já pensei nisso.
TM: Você é o Grant Morrison do Brasil?
SALLES: Não, cara.
TM: Você recebe muitas críticas que o Morrison receberia; que é difícil, que não dá pra entender…
SALLES: Sim, mas sabe o que eu penso, cara? Não estou me menosprezando. Sei que eu sou um autor e que, de alguma forma, as pessoas já leram, já ouviram falar, de alguma forma, do meu nome. Mas eu faço uma correlação com futebol, mesmo sem acompanhar: me sinto como um time da série C ou série D. Tem os quadrinhistas da série A, tem os quadrinistas de Champions League. Juro, me sinto da série C, série D.
TM: Que é isso…
SALLES: Sim. Vinil não tem um lado A e um lado B? Eu acho que sempre fui lado B.
TM: Mas por escolha, você gosta de ser o lado B.
SALLES: Eu não consigo ser o lado A. Pode ser uma escolha, mas mesmo que eu tente ser o lado A não vai rolar.
TM: Mas isso é muito bom, precisa de gente que – não que faça o que você faz, porque só você faz o que você faz – mas que saia da zona de conforto, que explore o que muitos não vão explorar.
SALLES: Sim, eu estou com umas ideias de histórias na cabeça, mas eu estou procurando que eu consiga que daqui a uns três anos quando eu ler, que eu não diga “poxa, podia ter pensado um pouquinho mais”. Eu não tenho muita pressa de entregar um quadrinho, não preciso entregar um quadrinho todo ano, a cada ano e meio, eu quero fazer algo que seja relevante pra mim e que o leitor, de certa forma, acabe de ler e pense um pouquinho, que fale “o que foi isso aqui?”, e que participe porque o quadrinho só tem sentido quando o leitor participa. Sempre li quadrinhos assim e gosto que seja assim. Lógico, eu gosto de ler uma história que seja “‘TUM’, acabei de ler, acabou, guardei”, mas eu gosto de ler coisas que me façam pensar, de ver filmes que façam pensar, de filmes que acabem e eu fico “poxa, acabou mesmo? Assim? Será? Ou caiu a internet?”.
TM: Quem te influencia então? Tanto em quadrinhos quanto em cinema. Além do Moebius. (Risos).
SALLES: Então, Moebius; a cada dia percebo que o Frank Miller é uma influência maior sobre mim, mas não percebia isso. E meus desenhos novos, que eu ainda não mostrei estão, de certa forma, diferentes. Sou eu desenhando, mas sinto que está um pouquinho diferente.
Miller, Moebius, Mutarelli, e tem pessoas assim que eu tremo na base até hoje, que é o Marcatti. O Marcatti, toda vez que ele conversa comigo eu fico um pouquinho nervoso e hoje ele tá aqui do meu lado [aponta para a mesa de Francisco Marcatti, ao lado da sua] e eu tenho coisas dele desde o Chiclete com Banana, que eu recortava.

TM: E em cinema?
SALLES: Pra fazer quadrinhos o que mais me influencia é cinema. Gosto muito do Gaspar Noé, de Love e Enter the Void [Viagem Alucinante], tanto que a cor de Limiar, Dark Matter quem fez foi o Marcelo Maiolo e eu disse pra ele que tinha que assistir o Enter The Void e aquela era a sensação de cores que eu queria, pra ele poder montar a paleta dele. E a cor veio perfeita.
Vou falar de um diretor chato, que muita gente odeia, o Lars Von Trier.
TM: Sabia que você ia falar Lars Von Trier. (Risos).
SALLES: Você quer dar na minha cara, não é?
TM: Não! (Risos). Eu gosto dele.
SALLES: Ele fala umas besteiras, tem uns problemas. Lars Von Trier, Gus Van Sant. Eu gosto muito do Almodóvar, até pelas cores que ele usa. Posso ficar o dia aqui, os Irmãos Coen, David Lynch. David Lynch acho que é o principal, só lembrei dele agora.
TM: Me fala do seu processo. Todo dia tem um número de páginas que você tem que atingir, ou número de horas, é meio anárquico, o quanto você tem vontade…
SALLES: Como eu tive todo esse processo antes de trabalhar com quadrinhos, trabalhar com engenharia, trabalhar em banco, você fica normatizado com muitas coisas. Lá eu tinha horário pra chegar, pra bater ponto, cobrar dos outros e eu sempre, apesar de não poder falar isso para as pessoas, mas eu sempre pensei e procurei porque as coisas… lógico que existem convenções e pode parecer que eu estou falando loucuras agora, mas eu posso começar um trilogia pelos números três, sete e nove, não precisa ser um, dois, três. Parece loucura isso, mas…
TM: Não. Star Wars está aí.
SALLES: (Risos)
TM: Só que Star Wars é o lado A.
SALLES: (Risos) É. Totalmente lado A.
TM: Criou o lado A.
SALLES: Eu não lembro quem fez Videodrome, foi o…
TM: Cronenberg.
SALLES: Cronenberg! Fantástico, eu falei Cronenberg, né?
TM: Agora falou. (Risos).
SALLES: Então está valendo. Eu não tenho mais segunda, eu não tenho mais horário. Aqui não posso porque abre e fecha. Mas se me deu sono em casa às dez da manhã eu deito e durmo. Acordo meio-dia, como alguma coisa. Se estou com um roteiro, volto a escrever o roteiro, embalo, quando percebo são dez da noite. Claro, tudo isso vivendo bem com a minha esposa. Mas não tenho mais esses horários; procuro não criar esses horários. A única coisa que eu faço sempre é acordar às quatro da manhã, mas isso aí é desde sempre.

TM: É nois. (Risos).

SALLES: Mas não por insônia. Esse é o horário que eu acordo mesmo e também durmo cedo. E só respondo mensagem de manhã.
Quando eu pego pra fazer um quadrinho, eu faço o quadrinho. Acordo, desenho até cansar, durmo, acordo, como, faço, durmo…
TM: Tem roteiro primeiro?
SALLES: Tem roteiro, penso a história inteira, do começo ao fim, tudo, frases, o que um vai falar pro outro, tenho tudo na minha cabeça, faço um roteiro bonitinho, quase de cinema, na realidade, e aí sim eu vou desenhar. Isso eu preciso fazer porque ajuda meu desenho.
TM: Então não sofre de bloqueio criativo? Uma página que tá difícil de sair, um layout?
SALLES: Não, não sofro com isso. Porque antes de eu escrever o roteiro, já pensei em tudo. Vou pensando, vou pensando, vou pensando. E eu não anoto nada de uma ideia que eu tive. Se eu tive uma ideia hoje, eu não vou marcar ela. Porque às vezes eu marco e essa ideia é tão lixo, mas eu marquei. Se marquei, me apeguei. Então não anoto. Se eu esquecer, era ruim. Se for boa eu lembro.
TM: Que incrível. (Risos).
SALLES: Eu prefiro assim. Geralmente eu esqueço um monte de ideias, mas então é porque eram lixo. Se não esqueci, aí vou dando continuidade.
TM: Já falamos sobre isso um pouco, se seus quadrinhos são difíceis de entender. É a maneira que você faz quadrinhos, né? São seus quadrinhos.
SALLES: São meus quadrinhos. Mas eu também não acho difíceis de entender. Mas aí também, eu que escrevi, né?
(Risos).
TM: Mas isso também é falta de costume de quem lê, não é?
SALLES: Então, sabe o que eu acho que acontece? Tem a história do Quarto Vivente, a primeira camada da história, que é a menina que faz isso, faz isso e isso, até chegar ao final. Mas dentro dessa história tem o porquê do nome dela, tem o porquê ela gera o que ela gera, se você for pesquisar o que ela gera, tem isso, não tem uma história que se passa dentro de uma baleia?
TM: Sim.
SALLES: Então, tem isso, também tem as coisas que eu boto no nome da história. Em Eudaimonia, por exemplo [quadrinho mais recente de Salles], só se chamou Eudaimonia por significar algo como felicidade. E o leopardo [da capa] vive em um estado de eudaimonia, porque ele só faz exatamente aquilo que a natureza criou ele pra fazer. Passa uma zebra, ele vai e come. Depois dorme. Ele não erra. Deu fome, ele pega outra coisa, isso é o estado eudaimônico dele. Qualquer animal vive em estado eudaimônico.

TM: Indo para o Eudaimonia. Por que a mudança de formato?
SALLES: Eu estava desesperado, não aguentava mais o couchê. Porque se eu for fazer um autógrafo pra alguém no couchê, eu tenho que desenhar com uma caneta retroprojetora. E é o fim desenhar com uma caneta retroprojetora, cara. É péssimo. E eu também queria fazer no papel pólen porque é gostoso de pegar. E também sem cores e no formato americano e tinha que ser preto e branco, mas aí eu coloquei tons de cinza. E a capa quem coloriu foi o Maiolo porque eu estava colorindo, mas estava péssimo.
TM: A parceria de vocês é inusitada porque ele é o cara dos títulos americanos e essas coisas. Como vocês se conheceram?
SALLES: Ele fica com pena de mim, acho. (Risos). Ele é bonzinho demais.
Eu fui numa palestra do Gustavo Duarte em Piracicaba, onde ele mora. Um bate papo. Lá o Gustavo Duarte Falou que precisava colorir um quadrinho e ficou desesperado e pensou “Ah, se o Maiolo estivesse disponível” e apontou pro Maiolo. E eu fiquei “putz, o Maiolo está aqui?”. Porque eu sempre gostei do trabalho do Maiolo, das cores. Aí já esqueci o Gustavo Duarte (RISOS) e fiquei “Quem é o Maiolo, quem é o Maiolo…?” aí acabou e fiquei conversando com o Gustavo Duarte e eu estava com o Quarto Vivente na mochila e o Maiolo chegou. Ele deu uma olhada no Quarto Vivente e falou “você está vendendo?”. Eu falei “tô”.
Ele disse “eu li essa frase ‘Georginas, ainda defecas?’”. E falou que queria comprar por causa daquela frase. Aí começou a amizade. Aí ele falou que fazia cor.
TM: Quais temas você queria botar no Eudaimonia? Porque tem a sua primeira personagem. Que você queria trabalhar no quadrinho.
SALLES: Eu encanei com o leopardo. Ao mesmo tempo eu queria trabalhar com a Luzcia. Não sei se é porque é minha primeira personagem, mas eu gosto muito da Luzcia.
TM: Ela é inspirada em alguém da vida real?
SALLES: Ela é inspirada na secretária de um médico. A secretária era muito brava. Na consulta, ela entrou no escritório gritando com o médico porque ele não tinha carimbado o CRM dele onde assinou e ela carimbou muito nervosa. Isso foi uma consulta que eu fui com meu pai. Ela interrompeu a consulta e meu pai, enquanto ela estava brava com o médico meu pai veio no meu ouvido e disse baixinho “nossa, meu, a Luzcia deve ser a dona do boteco”.
TM: (Risos) Fantástico. E esse é o nome do quadrinho.
SALLES: Isso. Luzcia, Dona do Boteco.
E o Eudaimonia, eu queria fazer a história de um caçador que caçasse uma parte do ser-humano. Uma parte só. Aí ele tem duas chances. Ele falha na primeira e na segunda ele acaba cruzando com a Luzcia no caminho dele. Ela está sofrendo com as dores dela, com a falta de medicamentos. E quem ele precisa caçar é quem fornece os medicamentos dela.

TM: E no final, sem entregar muito, o caçador vive em um estado de paz e só aceita o que acontece com ele.
SALLES: Ele vive em um estado eudaimônico e a Luzcia também. A Luzcia é daquele jeito, ela vive da forma que acha que tem que viver, ela é violenta da forma que acha que tem que ser. É natural pra ela, é o estado eudaimônico dela. Ela vive assim como ele.
Mas… posso dar um furo jornalístico aqui [brilham os olhos dos Tapioqueiros] porque o Pipacu, ele aparece na história, mas ninguém sabe quem ele caça, como ele caça, por quê ele caça… pode ser que venha uma história que… entendeu?

TM: Opa! Rolou um teaser!
SALLES: É tipo um Star Wars reverso.

TM: “Uma história Eudaimônica”. (Risos). Pra terminar: Que quadrinho você levaria pra uma olha deserta?
SALLES: Eu não levaria um quadrinho. Não levaria quadrinho pra uma ilha deserta.

TM: Levaria o que então?
SALLES: Não levaria quadrinhos, mas pra responder a pergunta e não ser um c*zão, eu iria procurar comida numa ilha deserta porque estou com fome. Se tivesse um quadrinho na ilha eu iria queimar pra fazer fogo. Mas se fosse pra levar um quadrinho mesmo eu levaria o Garagem Hermética.

TM: Dizem que toda obra carrega um pouco do seu autor. O que tem de você na sua obra, no seu trabalho? O que você coloca que é seu?
SALLES: O que eu sinto que eu coloco em todas as obras e vou continuar colocando é que eu nunca estou satisfeito com as explicações que são dadas. Nunca.

TM: Pós-modernista.
SALLES: Pode ser. Eu nunca… por exemplo, a internet é uma coisa excelente, eu consigo sobreviver das vendas na internet, vendo original pro exterior, mas ainda sinto que não é assim que ela deveria ser. De certa forma é, mas não é assim, sabe. É uma coisa muito louca isso. Eu sou meio inconformado com formatos padronizados.

Foi assim nossa entrevista com Luciano. Foi muito interessante poder cutucar a cabeça do cara um pouco e tentar ver como sua mente funciona e como gerou tantas ideias mirabolantes pros seus trabalhos. Mal posso aguardar encontros futuros. Fica aqui nosso muito obrigado a ele e a você que leu até o fim e se quiser encontrar mais quadrinhos do Luciano Salles, basta clicar aqui e até semana que vem com a próxima entrevista do FIQ 2018.
Olá, tudo bem?
Dei uma entrevista para o fórum Multiverso Bate-Boca e o resultado ficou demais. Agradeço a iniciativa e contato do Gustavo Soares pela perguntas feitas e fundamentadas pelos leitores do site.
Batemos um longo papo e falei sobre formação, com é ser quadrinista, se dá para viver assim, influências, dinheiro, música, processo criativo, explicações sobre detalhes das minhas HQ, conversamos sobre outros quadrinistas, dificuldades, motivações, enfim, uma longa e sincera entrevista.
Adicionei todo conteúdo logo abaixo mas deixo o link para lê-la direto no MBB, com direito a imagens e comentários antes de depois da pauta.
Muito obrigado.
Luciano Salles.
– Poderia começar se apresentando? (quem é, onde nasceu e cresceu, família, formação acadêmica, como começou a ler quadrinhos e desenhar, etc.)
Meu nome é Luciano Salles, nasci no dia 14/02/1975, em Taquaritinga, uma pequena cidade no interior do estado de SP. Ainda criança minha família mudou-se para Araraquara, uma cidade vizinha cinco ou seis vezes maior. Araraquara me acolheu muito bem e chegando na cidade encontrei tudo o que mais precisava na época: fanzine, skate, música e o movimento punk.

Minha família teve que se mudar para São Carlos e eu continue morando em Araraquara, isso com 16 anos. Então já com essa idade aprendi a me virar sozinho. Me formei em Engenharia Civil, pós graduei em Engenharia de Segurança do Trabalho e atuei na área até ir trabalhar em uma instituição bancária.

Ainda em Taquaritinga já lia turma da Mônica pois gostava de desenhar e meus pais compravam uma revista no mês pra mim. Lembro que eu lia tudo e ficava tentando desenhar os personagens das histórias do Penadinho.


– Aos 37 anos você deixou de ser bancário para se dedicar exclusivamente aos quadrinhos. Como foi essa decisão? Qual a reação das pessoas mais próximas?
Eu adoeci na empresa que trabalhava e acho que adoeceria em qualquer trabalho que fizesse naquela época. Adorava trabalhar no banco porém, dos 35 aos 37 anos comecei a perceber que algo não ia bem com minha saúde. Fiquei durante um ano me consultando com médicos, das mais diversas especialidades, para tentar descobrir o que estava acontecendo comigo até que tive minha primeira crise de uma doença chamada síndrome de pânico.

É algo que não desejo para ninguém pois não existe nada mais horrível e sofrível neste mundo. É comum as pessoas confundirem ansiedade aguda, pressão no trabalho, tristeza, achar que vai morrer entre outros vários sintomas com a doença mas quem irá diagnosticar será um bom médico psiquiatra. Esse realmente foi o motivo que tive que deixar o Banco. Eu não tinha mais capacidade neurológica e psicológica de trabalhar ali.

Até tentei voltar mas o cargo que tinha não permitia erros e comecei a cometer falhas primárias até que a direção do Banco decidiu atender e, entender, meus pedidos de desligamento (foram vários) por perceber que eu não tinha mais condição. A diretoria do Banco foi extremamente atenciosa, gentil e tão humana que me demitiram, recebendo  assim, todos os meus direitos. Sou muito grato por isso.

Minha esposa foi a primeira pessoa a me dizer para pedir demissão. Ela havia percebido que algo não ia bem comigo então, tive total apoio da família.

Faço aqui um adendo: trato da minha síndrome do pânico desde 2012 com medicamentos, yoga, andando muito de bicicleta e visitando bimestralmente meu psiquiatra. Ainda tenho meus altos e baixos e o acompanhamento é fundamental. O que quero dizer é que não use o Google como um guia médico achando que tem tal doença. Se sentir que algo não está certo, vá a um médico de referência no assunto.

– Financeiramente falando, consegue hoje viver somente de sua arte?
Consigo. Claro que não ganho tão bem como ganhava com meu trabalho anterior. Tem meses que são excelentes e outros que posso não receber nada. Então, um boa gestão financeira é fundamental. Aliás, percebo que muitas pessoas são praticamente ignorantes neste aspecto.


– Quais desenhistas influenciaram seus trabalhos? E roteiristas?
Desenhistas posso citar três: Moebius (sempre em primeiro lugar), Lourenço Mutarelli e hoje percebo o quanto (e cada vez mais) Frank Miller também me influenciou. Agora roteiristas, já é algo que acredito que minhas influências vem do cinema. Aliás, minha maior influência para fazer quadrinhos vem do cinema. Sou fascinado por alguns diretores como David Lynch, Stanley Kubrick, Gaspar Noe, David Cronenberg, Pedro Almodóvar, Gus Van Sant, Lars von Trier. Penso que esses são minhas influências como e, para roteiristas.

– Você já fez ilustrações de Laranja Mecânica (cinema), The end of the f***ing world (seriado) e já fez capa de álbum musical (Os Capial). Quais suas referências nessas três artes (cinema, seriado e música)? Há alguma influência delas em suas obras?
Acabei respondendo um pouco desta pergunta na questão anterior. Existe uma total influência do cinema e música nas minhas obras. Sou fascinado por essas duas artes. Minha mãe é pianista (não exerce como profissão) e sempre tivemos piano na minha casa, sempre ouvia minha mãe tocando os mais diversos temas e compositores. Meu irmão mais novo não é pianista mas estudou um pouco e tem um ouvido incrivelmente apurado. Meu irmão mais velho também tocava violão. 
– Seu processo criativo é sempre o mesmo ou varia de acordo com a obra? Poderia descrevê-lo? (roteiriza e depois desenha; rascunha enquanto roteiriza?) Sempre trabalha com papel ou também desenha digitalmente?Geralmente é sempre o mesmo. Por vezes a ideia de uma história pode surgir de uma simples observação. Por exemplo, a história de L’Amour: 12 oz, surgiu do fato de em uma manhã, eu observar a caneca de café que eu estava tomando: o tempo passa, o café vai esfriando e eu vou gostando mais ou menos dele. Em EUDAIMONIA, a história veio toda em minha cabeça por observar e pesquisar qual felino seria o mais efetivo em suas caçadas.

Pode parecer estranho mas é assim que as ideias para as histórias surgem pra mim. Alguma coisa me chama a atenção, observo, crio a relação com algo que pode vir a ser um bom tema, uma boa história e vou montando toda ela somente na minha cabeça sem anotar absolutamente nada. Não posso ter um caderninho de notas. Isso geralmente me atrapalha.

Com toda a história pronta na cabeça, vou direto para o computador escrever o roteiro, que faço como um roteiro de cinema, bem detalhado, descritivo pois assim ganho tempo na hora de desenhar as páginas.

Tendo o roteiro finalizado, envio para uma primeira revisão. Voltando corrigido, já começo a desenhar as páginas, que sempre são em um bom papel e com pincel e nanquim. Digitalmente eu só faço as cores, se necessário.

– Todos seus trabalhos até então são de autoria somente sua (roteiro e arte). Já recebeu proposta de desenhar roteiro de terceiros? Tem vontade de trabalhar com algum outro roteirista ou desenhista? Se sim, quem?
Já recebi várias propostas de desenhar para outros roteiristas mas é algo difícil para mim e sinto que seria angustiante. Desenhei uma história do Raphael Fernandes e simplesmente parece que não fui eu que desenhei.

Penso que seria mais fácil (pra mim) desenhar algo que o público já conheça. Por exemplo, desenhar uma história do Justiceiro. Pronto, é algo que faria. E se fosse, por exemplo, com um roteiro do Frank Miller, do Mark Millar, do Gaspar Noe. Esse é um detalhe que tenho: sempre gosto de pensar alto, vai que acontece, rs.

– Você produz, edita, divulga e vende diretamente. É uma escolha esse domínio de todo o processo ou gostaria de poder se dedicar exclusivamente à criação?
Gosto de todo esse processo (neste aspecto sou extremamente punk), gosto de receber uma resposta do leitor pois todo o caminho de se produzir uma HQ se encerra com o leitor(a). Ele(a) é a peça chave de todo ciclo.

Financeiramente, manter esse processo é mais lucrativo. Claro que gostaria muito de algum auxílio para ir aos Correios ou fazer pacotes, por exemplo, mas enquanto posso e consigo tempo para fazer isso, faço com prazer.

Seria muito bom e, diferente, somente me dedicar a criação mas ainda não chegou esse momento.

– Dos seus cinco trabalhos: três foram publicados de forma independente (Luzcia, a dona do boteco; O quarto vivente; Limiar: dark matter); um por editora (L’Amour: 12 oz pela Mino); e um  financiado através do Catarse (Eudaimonia). Quais as diferenças e qual a sua preferência?
Definitivamente o financiamento coletivo é onde melhor me encaixo. Apesar de ter publicado com a MINO, nunca tiver um editor direto. L’Amour: 12 oz estava pronta quando a MINO entrou em contato comigo e publicou então, basicamente, fiz e faço tudo sozinho entretanto, sempre confio a alguém muito competente a revisão dos meus trabalhos. Até o momento as pessoas que fizeram as revisões foram o Daniel Lopes e o Audaci Junior.
– É raro vermos quadrinistas independentes reimprimindo suas obras esgotadas. No seu caso, Luzcia, a dona do boteco esgotou faz tempo. Por que não reimprimir?
Por ter sido uma “HQzine” tão simples, feita de forma inocente, despretenciosa, toda dobrada a mão, grampeada e com uma tiragem de 100 cópias, reimprimi-la deve ser algo muito especial e quando chegar o momento, saberei como fazer.
– Atualmente o Catarse e outros sites de financiamento coletivo estão passando por um momento complexo: de um lado há crise de credibilidade em relação a projetos independentes, pois muitos projetos (inclusive de HQ) recolheram o dinheiro e não entregaram as recompensas; de outro lado cada vez mais editoras buscam ali financiar suas publicações, como a Figura e a Editora 85. Como foi sua experiência de financiamento coletivo? Pretende repetir?
Minha experiência foi fantástica e minha próxima publicação será pela mesma plataforma. Existem esses casos que citou, que deveria prejudicar a imagem de quem fez e faz as besteiras e não a plataforma, pois o método do financiamento coletivo é algo fantástico. É uma das grandes benesses que a internet pode proporcionar.

Estudando a plataforma, entendendo bem como funciona aqui no Brasil, sabendo dos riscos e padrões, fazer uma campanha bem sucedida não é somente bater a meta do valor requerido. É fazer todos as apoiadores receberem suas recompensas antes de qualquer distribuição ou venda da revista. O apoiador terá sempre a preferência.

– Em seu blog (dimensaolimbo.com.br) você já compartilhou algumas trocas de informações entre você e outros quadrinistas, como Rafael Grampá, Fabio Bá e Marcelo Maiolo – este com direito até a print da conversa. Você também ministra cursos e oficinas de quadrinhos. Entretanto você é autodidata. Busca oferecer algo que acredita ter lhe faltado? Faltam professores e informações sobre quadrinhos?
Essa realmente é uma pergunta complexa. Como autodidata, aprendo todos os dia alguma coisa nova no tocante a fazer quadrinhos. E também, como autodidata, aprendo muito quando aceito todas as criticas que meu trabalho possa receber de pessoas como o Grampá, o Bá e o Maiolo.

Foram pessoas que conheci, admiro muito e que sinceramente criticam meu trabalho de um forma que só faz crescer. Todas essas criticas são lições que aprendo para nunca mais esquecer. Me sinto um privilegiado de o Bá, chegar em mim no FIQ 2018, e falar o que achou da minha nova HQ. Isso pelo fato de eu ter pedido um sincero feedback. Aqueles 15 minutos que conversamos foram uma das melhores aulas que já tive sobre fazer quadrinhos.

Nos curso que coordeno, procuro passar tudo o que aprendi e tenho aprendido, como faço, o motivo de fazer daquele jeito, meios de como procurar uma ideia não tão comum, enfim, meus cursos são muito mais subjetivos e introspectivos do que me propor a ensinar como fazer um desenho realista, técnicas de aguada, aquarela, cores e o que for, até porque, não sei nada disso.

– [PERGUNTA COM SPOILER DE QUARTO VIVENTE E LIMIAR: DARK MATTER] Suas obras são marcadas por flertarem com o abstrato em algum momento. Há algo de nonsense ou tudo tem algum sentido específico? Alguns autores preferem não comentar pontos específicos de suas obras, deixando as interpretações para o público. Como pensa sobre isso? O que diria para alguém que lhe perguntasse “o que significa aquela beluga” ou “Nadio e Carino morreram”?
Não tem nada de nonsense nas minhas histórias e tudo que está ali tem um sentido específico e função. O que acontece é que insiro alguns níveis de camadas na história e faço isso propositalmente, pois cada pessoa é única assim como sua leitura. O processo de ler é igual para todos(as) mas a absorção no interior da mente daquela pessoa, junto de toda bagagem de vida que ela carrega, é que moldam o que escrevi. Bem, sei que isso é arriscado mas trabalho assim. Existem os(as) que gostam e os(as) que não gostam assim como tem que gosta de repolho e outros(as) não.

Não tenho problema em comentar pontos específicos dos meus trabalhos. Se vier uma pergunta direta, como essa que fez, respondo que a beluga foi o ponto máximo que pude conceber e que traria uma ruptura brusca no processo de evolução da humanidade.

Se Nádio e Carino morreram? Sim, claro que morreram! Até deixo isso bem claro no texto da última página da HQ. Nádio está nocauteado no chão enquanto Carino sofre as consequências de uma overdose de Dark Matter. Ali uso o recurso de quadros narrativos onde Nádio relata ao leitor: “Tudo isso me foi informado e este sou eu memorizado” lembrando que o termo “memorizado” criei para ser um sinônimo para “estar morto”, algo que deixo claro durante toda HQ.

E então ele continua e comenta que Carino é “…nossa fagulha memorizada, a explosão não contida, a ordem para um novo limiar”. Aqui também, se ler atentamente, junto do caminhar da HQ, perceberá que Carino não suportou a overdose de Dark Matter e como uma fagulha basta para uma explosão, o corpo dele explode como uma bomba atômica, dizimando tudo e todos ao seu redor, ou seja, “…a ordem se dissipando para um novo limiar” ou simplificando, um modelo fracassado se desfazendo para o início de uma nova proposta.

Existem HQ que tem um leitura direta, simples (o que não vejo problema algum e gosto também), como se faz uma simples redação com uma introdução, o desenvolvimento da ideia e a conclusão, mas formulas foram criadas para dimensionar uma ponte, um viga que suporta um vão livre de 30 metros. Gosto de usar formulas para isso e não para escrever uma história

– Você, assim como 90% dos quadrinistas autorais brasileiros, produz obras curtas. As poucas exceções como Marcelo D’Salete (Cumbe e Angola Janga), Rafael Coutinho (Mensur) e Marcelo Quintanilha (Tungstênio e Talco de vidro) são sucesso de público e crítica. Por que essas obras longas aqui ainda são tão raras? Pretende fazer algo assim?
Eu produzo obras curtas pelo fato de gostar muito de ler obras curtas, de fazer obras curtas e por ser um quadrinista independente que precisa bancar a impressão, depois carregar o peso dos gibis nas costas, distribuir, pagar os envios pelos correios, organizar e fazer lançamentos e finalmente, apresentar um preço coerente com o mercado editorial sem essas distorções que tem acontecido ultimamente com o efeito Amazon.

Todos os autores e exemplos que citou foram publicados por excelentes editoras e não sei a forma que receberam para fazer as obras, por isso, não posso argumentar sobre algo que não tenho conhecimento.

– Falando sobre obras mais longas, aproximadamente um ano atrás você postou no blog que por diversos motivos pessoais (lá detalhados) estava engavetando um projeto mais longo, chamado Ela (136 páginas, enquanto suas maiores tiveram 50). Alguma novidade sobre essa HQ?
Por enquanto não mas quando houver, logo saberão.

_ Quais as grandes dificuldades no mercado de quadrinhos nacional? E o que o motiva a seguir nesse caminho?
Eu vivo pelos quadrinhos pois sempre adorei desenhar e criar histórias. Sejam quais forem as dificuldades, não sou um colecionador delas. Tento me ajustar para estar em eventos de quadrinhos, me adequar em como divulgar melhor meus trabalhos e procuro sempre fazer tudo com excelência para que o leitor(a) tenha uma experiência  única, boa e intimista com a HQ e, que valha o valor que ele pagou pelo produto.

Outra coisa que me motiva é que posso viver também pelas ilustrações. Isso, cada vez mais, tem me empolgado! Pensando melhor, existe uma dificuldade que posso apontar. Há algo de natural aos brasileiros, que é a formação de grupos que se preservam e só validam o que acontece entre eles. Acredito que essa seja uma dificuldade que sempre haverá entre qualquer circuito criativo.

– Antes os quadrinistas nacionais tinham dois objetivos: entrar no mercado de super-heróis ou trabalhar para o Mauricio de Souza. Já hoje em dia os quadrinhos autorais parecem ser uma terceira boa opção. Acredita que essa mudança perdurará? O que acha dessa cada vez maior quantidade de editoras e lançamentos?
Penso que esses dois objetivos que citou no início da sua pergunta ainda perduram. Vejo inúmeras publicações genéricas as Graphics MSP e outras tantas similares ao mercado de super-heróis. Acho que ainda exista um novo e terceiro objetivo que é fazer quadrinhos para ser vendido para o cinema, Netflix.

O quadrinhos autorais são a quarta opção e ainda bem que estão cada vez mais valorizados dentro do mercado em geral. Eu tenho certeza de que isso continuará por um bom tempo e que temos uma produção consistente para manter o mercado fortalecido em títulos e diversidade.

Quando mais editoras e lançamentos tivermos é melhor para todos e todas. Muitas editora surgirão e sumirão assim como autores(as). É assim mesmo, um ciclo onde, por um momento, haverá uma ebulição e de repente, um arrefecimento, entretanto, hoje, a oscilação entre as ondas estão brandas e tendem a ser cada vez mais serenas.

– Você é presença constante em eventos de quadrinhos. Ainda o faz pelo prazer de estar no evento ou encara como um compromisso de trabalho?
Adoro estar em eventos de quadrinhos pois faço dele um compromisso de trabalho onde encontro colegas, amigos, vinculados a ganhar novos leitores que não conhecem o que faço.

A logística para se ir ao evento é financeiramente dispendiosa e por isso priorizo o FIQ, a CCXP e priorizava a Bienal de Quadrinhos de Curitiba.

– Apesar de somente ter trabalhos autorais você já tem um belo acervo de ilustrações de super-heróis. Tem vontade de trabalhar no mainstream? Se pudesse escolher personagens da Marvel e da DC para trabalhar, quais seriam?
Tenho pensado nisso ultimamente. Acho que gostaria de trabalhar neste mercado mas de uma forma muito particular. Sei que não sou um desenhista para fazer uma série mensal de algum título mas adoraria fazer histórias curtas, capas variantes e outras coisas. Se pudesse escolher um personagem seria o Aranha e o Bizarro.
– Pelos seus relatos, você é próximo do Rafael Grampá e suas artes possuem semelhanças. O que acha do rumo que o amigo tomou profissionalmente? Tem vontade de atuar no mercado publicitário, mesmo que isso signifique se afastar dos quadrinhos?
Acho que jamais conseguiria trabalhar no mercado publicitário. Acho que é um tipo de trabalho que não combina com meu jeito de ser. Quanto ao Grampá escolher o que quiser fazer é critério dele. Cada um é livre para fazer o que quiser, como quiser e se tem uma coisa que ele faz bem é isso! O cara é um gênio, excelente profissional e se engana quem acha que ele se afastou das HQ.
Ele acha estranho quando dizem que dizem que nossas artes possuem semelhanças. Na animação Dark Noir, que dirigiu com o apoio do pessoal da Red Knuckle, ele me chamou para desenhar as tatuagens do personagem principal e fazer boa parte do storyboard. Acredito que nossos trabalhos conversam entre si e funcionam muito bem quando juntos.
– Tem algum novo trabalho em andamento? Pode nos dizer algo sobre ele?
Sim, tenho. O que posso dizer por enquanto é que a história esta pronta em minha cabeça e desta vez, só vou mostrar algo ou falar sobre ele quando tudo estiver pronto.

– Você já disse que tudo na sua carreira é pensado e planejado. Quais os seus planos para o futuro mais distante?
Tenho realmente tudo pensado e planejado mas só tenho o controle sobre o agora. Então, se eu quiser que as coisas aconteçam, tenho que zelar e viver somente pelo instante em que estou respirando. O futuro será feito das ações que tomar hoje. Ou seja, eu sei onde quero chegar mas só tenho o agora para trabalhar.

– O que não falta no MBB é leitor querendo indicações, do mainstream a obras mais obscuras. Quais suas HQs preferidas?
Gosto muito de quadrinho japonês e europeu. Leia qualquer coisa do Suehiro Maruo e também recomendo Pluto. Agora mainstream… bom, acho que Pluto é mainstream.

– Ainda tem tempo para ser leitor? Se sim, o que tem lido ultimamente?
Tenho lido pouco quadrinhos. Estou relendo Lobo Solitário, Pluto e AKIRA.
[Edição]: Olá, o promoção foi encerrada no dia 31/07/2018 e foi um sucesso! Obrigado a todos e todas que participaram, que ajudaram compartilhando pelas redes sociais ou mesmo no boca a boca.

Grande abraço e mais uma vez, muito obrigado!

Olá, tudo bem?

Como as vendas de quadrinhos estão devagar, decidi fazer uma promoção da pesada!
Comprando uma edição de Limiar: Dark Matter (2015, independente) você ganha uma edição de EUDAIMONIA (2017, independente/Catarse). Se já tiver EUDAIMONIA, que é meu lançamento mais recente, pode optar por ganhar meu outro quadrinho O Quarto Vivente.
O que achou da promoção? Gostou? Então é só seguir os passos abaixo:
01. Clique na imagem de Limiar: Dark Matter (logo abaixo) abaixo e será redirecionado para o site da AMAZON.
02. Bastar comprar somente a edição de Limiar: Dark Matter por R$35,00 + frete do site e me informar qual outra HQ deseja ganhar (se nada for informado, enviarei uma edição de EUDAIMONIA)
03. Você pode comunicar sua escolha pelo próprio site, no momento da compra, ou ainda enviando um e-mail para lucianosalles@dimensaolimbo.com

Garanta agora suas duas HQ (clique na imagem) comprando apenas uma!

 Curiosidade: Sabia que essa HQ foi colorida pelo Marcelo Maiolo?! ♥️

Você pode escolher
EUDAIMONIA

Ou, pode escolher,
O Quarto Vivente
















OBSERVAÇÕES:
– Essa promoção tem duração até dia 31/07/2018 para compras feitas até às 23h59min59seg.
– Todas as edições serão enviadas autografadas com dedicatória e um desenho na própria revista.
– Sabia que essa HQ que vai comprar (Limiar: Dark Matter)foi utilizada em sala de aula pelo curso de Psicologia da Universidade Federal de Pelotas? Entenda como pelo link: https://goo.gl/XbRw7t

Espero que tenha gostado da promoção! Se ainda tiver alguma dúvida, é só inseri-la logo abaixo no comentários que respondo rapidamente.

Ah! Esse é o vídeo que fiz para o lançamento de Limiar: Dark Matter.

Um abraço.

Luciano Salles.

Olá, camarada. Tudo bem?
A venda de originais é uma boa fonte de recursos para artistas que trabalham com papel e tinta. Por isso estou abrindo a venda de algumas páginas originais da minha última HQ e entre elas, a capa do quadrinho. Se você gosta e pode investir neste tipo de arte ou conheça alguém que tem esse apreço, por favor compartilhe essa publicação.
Vamos as peças:
Capa de Eudaimonia, por Luciano Salles
Capa.
Desenho em papel Winsor & Newton 250g/m², tamanho 29,7cm x 42cm e arte-finalizado em nanquim. Frete gratuito para todo Brasil.
R$690,00

Página 02 de Eudaimonia, por Luciano Salles
Página 02.
Desenho em papel Winsor & Newton 250g/m², tamanho 29,7cm x 42cm e arte-finalizado em nanquim. Frete gratuito para todo Brasil.
R$590,00










Página 18 de Eudaimonia, por Luciano Salles
Página 18.
Desenho em papel Winsor & Newton 250g/m², tamanho 29,7cm x 42cm e arte-finalizado em nanquim. Frete gratuito para todo Brasil.
R$590,00

Os originais serão enviados abertos, protegido por plástico, papelão e papel pardo finalizando o pacote para que fique bem resistente. Se tiver qualquer dúvida entre em contato comigo através de lucianosalles@dimensaolimbo.com 
Um abraço.
Luciano Salles.
Oficina de Quadrinho de Autor e Publicação Independente no SESC Campinas
Oficina de Quadrinho de Autor e Publicação Independente
no SESC Campinas
Olá, tudo bem?
Respondendo a pergunta do título do post, a oficina foi fantástica!

Apesar de ter acontecido em uma quarta e quinta-feira, num horário não tão favorável – das 16h às 19h – o público foi ótimo.

Uma baita turma entendida de quadrinhos e processos. A oficina, por si só, aconteceu como dois dias de boas trocas de informações onde apenas coordenei como publicar uma história em quadrinhos, desde a ideia da história até vender seu trabalho.
A unidade do SESC Campinas é linda e preciso ressaltar que fui muito bem atendido por todos, dando o destaque para a Valquíria, que cuidou de tudo com a máxima atenção.
Muito obrigado a todos que prestigiaram a Oficina de Quadrinho de Autor e Publicação Independente e ao SESC Campinas.
Um abraço.
Luciano Salles.
Recorte de L’Amour: 12 oz, de Luciano Salles publicado pela Editora MINO

Olá camarada, tudo bem?

Antes de tudo preciso revelar que o título do post foi um meticuloso chamariz pra te atrair para algo que vem me incomodando.

Por quais motivos acontece de hierarquizar tipos e gêneros de histórias em quadrinhos angariando assim certos rancores e caras viradas?
Posso ser paranóico (ou estar literalmente viajando) mas tenho percebido isso: certos graus de importância para determinados gêneros de publicação e desmerecimento de outros, algo que acho extremamente bizarro e que segue exatamente na contramão do que nosso pequeno mercado dos quadrinhos precisa.
Uma HQ direcionada para um determinado público deve ou tenta agradar essa tal demanda e não deveria gerar um descontentamento de outros que não consumirão essa publicação, sejam leitores, autores ou editores. 
Vou tentar exemplificar:
Um leitor(a), autor(a) ou editor(a) que tem preferência por quadrinhos de terror e publica isso ou consome, não deveria se opor a quem produz, por exemplo, um dos ditos “quadrinhos fofinhos”. E isso para todos os gêneros. Uma pessoa que escreve, leia ou edite quadrinhos herméticos deve fazer isso bem feito e não criticar quem escreve, leia ou edite quadrinhos de heróis, novamente aqui um outro exemplo. 
No Japão há todos os tipos de quadrinhos. Para idosos, para crianças, para quem gosta de esportes, robôs, fantasmas, “difíceis”, eróticos, herméticos, pornográficos, cabeça, suspense e todos os tipos de enredos que possa imaginar. Isso é demais de saudável para um mercado saudável e que pretende crescer.
Não tenho o conhecimento se existe um autor(a) japonês(esa) que publica quadrinhos eróticos grotesco e, por esse fato, ignore um quadrinista que trabalhe com tema fantasiosos.
Você pode não gostar do estilo de tal autor(a) ou do seu trabalho mas isso não lhe dá o direito de ignorar essa pessoa ou mesmo repugnar ou desdenhar seu trabalho. Há espaço para todos nesse mercado, somos todos colegas e educação é primordial pra tudo. O que não podemos é coadunar com conchavos, panelas e favorecimentos. Afinal, fazemos o mesmo trabalho com apenas temas diferentes. Fazemos e lemos histórias em quadrinhos ou gibis.
Posso estar louco, paranóico ou mesmo escrevendo um apanhado de asneiras e aliás, torço para que esteja digitando bobagens e que isso seja somente aflições da minha cabeça.  Um mercado forte de histórias em quadrinhos se faz com a diversidade de temas, formatos, gêneros, ousadias, quebras de paradigmas e com todos os tipos de autores, leitores e editores, sempre é claro, prezando pela excelência dos trabalhos.

E um pequeno adendo usando minhas HQ como exemplo: o fato de eu ter publicado um fanzine com uma história de suspense/terror e depois publicar três revistas herméticas e distópicas, não significa que tenha que sempre seguir nessa toada, certo?

É isso camarada!
Fique livre para deixar suas percepções nos comentários.
Um detalhe: se estiver logado no Facebook no momento que for comentar, isso pode ser feito através do seu perfil. Assim, deixe seu Facebook ligado e comente aqui no blog pois isso facilita para você saber que eu respondi seu comentário.
Um abraço.
Luciano Salles.
Papo é a mini–HQ de Luciano Salles para o Quadrão, da Ilustrada


‘Papo’ é a minha mini–HQ de estreia do Quadrão, espaço onde toda semana um quadrinista será convidado para apresentar sua mini história em quadrinhos.

Será toda segunda na Ilustrada, o caderno de cultura da Folha de São Paulo.

Olá camarada, tudo certo?

Hoje estreiou na Folha Ilustrada, o caderno cultural da Folha de São Paulo, o Quadrão. Este espaço (que abrigará uma mini-HQ) está dentro de algumas alterações que foram anunciadas na edição de ontem do jornal – domingo, 14/06/2015.

Tenho a honra de inaugurar esse projeto com o quadrinho ‘Papo’ – que você já deve ter lido logo no início deste post ou mesmo no jornal – e estou muito feliz de entrar neste time de quadrinistas convidados. De antemão agradeço aos editores do Jornal pelo convite e aceitação do trabalho.

Sendo assim, toda segunda-feira, um autor de histórias em quadrinhos topará o desafio de em poucos quadros abrir e fechar uma história sequencial. Camarada, acredito que isso seja uma baita novidade para o mercado do quadrinho nacional! E aliás, quem falou que você que produz quadrinhos de repente não possa receber esse convite?

Entretanto existe a possibilidade de você enviar seu trabalho para a Ilustrada através do e-mail quadrao@grupofolha.com.br com o tamanho 19 x 15cm.

Fica a dica e um grande abraço!

Luciano Salles.

Olá, tudo bem?

Em 07/10/2014 foi publicado em minha coluna no Stout Club o texto O Mercado dos Quadrinhos Independentes. Esse texto escrevi especialmente para o Stout e originalmente publicado ali. A partir de então, com essa pequena publicação, eu comecei a receber e-mails, mensagens direta via Twitter e mensagens inbox no Facebook sobre o que escrevi.

E, entre as mensagens comecei a perceber uma demanda e correlação que me fez pensar e analisar todo aquele conteúdo. Mas isso é assunto para uma próxima postagem.

Gostaria então de registrar aqui no blog, o texto que foi originalmente publicado no site do Stout Club.

O Mercado dos Quadrinhos Independentes

Camarada, faz dois anos que vivo exclusivamente pelos quadrinhos. Antes, labutei como engenheiro civil e depois em uma grande instituição financeira tendo as HQ, apenas como um entretenimento que ocupava a lacuna “sonhos” em minha cabeça. Esse período englobou quase 20 anos da minha vida.

Em abril de 2012, por motivo de saúde, pedi demissão e mergulhei de cabeça em produzir meus próprios quadrinhos. De repente, o famigerado e monstruoso mercado nacional das bandas desenhadas, “valorizou” o meu trabalho.

Explico melhor.

Sempre ouço alguém dizendo que o mercado não valoriza os quadrinhos nacionais, que só prioriza os mesmos, que as edições agora tem uma mísera tiragem de 1.500 cópias, ou até que não existe um mercado de HQ no país. Confesso que tenho dificuldades em entender o embasamento dessas perguntas.

Logo acima, quando disse que o mercado “valorizou” o meu trabalho, foi simplesmente pelo fato de que eu fiz uma revista. Ou seja, o mercado “viu” meu produto pois eu pensei em uma história, acreditei nela, escrevi um roteiro, desenhei tudo isso, fiz as cores, fui até uma gráfica rápida e imprimi 100 cópias, dobrei todas as folhas, fiz uma capa para o melhor acabamento que eu podia oferecer e enviei 3 ou 4 revistas para sites que costumam resenhar quadrinhos. Afinal, eu precisava de um parâmetro para a minha primeira experiência.

Recebi uma crítica muito legal de um destes sites e a trabalhei no meu blog e redes socias. O resultado foi que os 100 exemplares impressos foram vendidos! Você pode pensar: 100 edições e o camarada está comemorando? Sim! Exatamente! Comemorei o fato de uma ideia minha ter sido direcionada para a nona arte e essa ter sido aceita por 100 pessoas. O que mais eu poderia querer? Editoras correndo atrás de mim e do meu trabalho? Ser contratado para desenhar para a Marvel? DC? Ser convidado para festivais de quadrinhos? Isso é estar no mercado?

É por isso que digo não entender quando alguém já sai metralhando o mercado de HQs no Brasil. Aquela era minha primeira história em quadrinhos. Eu a fiz sozinho e o ciclo se fechou quando cada uma, das 100 pessoas, leu a revista.

O mercado é consequência do que crio. Ainda hoje não tenho uma editora que publica meus trabalhos. Entre as tantas etapas para lançar minha terceira HQ autoral, confesso que muita coisa mudou e para melhor.

Minha segunda empreitada foi com O Quarto Vivente. Eu vendi a minha moto para bancar a impressão da revista. Separei mais de 100 edições, de uma tiragem de 2.000, para enviar aos sites especializados em resenhas e para pessoas que trabalham diretamente com a mídia. Até o momento vendi 1.100 revistas. Muitas diretamente pelo meu blog e tantas outras por lojas especializadas em quadrinhos, as quais procurei para consignar minha revista. Lançei o álbum no dia 12 de junho de 2013 e ainda hoje trabalho todos os dias em cima de O Quarto Vivente, pois sei que ainda existem muitas pessoas que nem sequer ouviram falar dessa HQ.

Pergunta: O mercado se abriu para mim? O mercado “valorizou” meu trabalho? O mercado me aceitou?

Se você tem a certeza de que ama fazer algo e quer aquilo para sua vida, faça. Faça de coração aberto, verdadeiramente e sendo sincero com você mesmo. Trabalhe 12, 14, 20 horas por dia. Produza sua ideia e não espere a amargura do tempo e paradigmas esmagarem seus desejos.

O famigerado mercado dos quadrinhos autorais e independentes é apenas reativo ao seu trabalho, e garanto, ele existe e apenas aguarda a sua HQ. Pode ter certeza!