Visão da sacada do hotel que fico hospedado, graças ao apoio cultural da escola PUERI DOMUS de Araraquara. Esse é um local bem perto perto do evento, o que facilita muito meu rápido para uma confortável noite, repouso e o preparo para os dias de muito trabalho na Comic Con Experience.
Presente de valor inestimável que ganhei do amigo Ivan.
Encontro com Frank Quitely. Foto pela minha esposa, Lilian Penteado.

Por onde começar?

Gostaria de conseguir escrever como um ensaio, mas como não tenho essa capacidade, farei dessa forma. Aliás, a palavra “forma” virá bem a calhar para o começo desse texto.

Na engenharia, usamos uma forma (leia-se fôrma) para que o concreto, ainda líquido, na betoneira que gira e gira para não perder seu tempo de cura, seja despejado nesta forma que vai determinar os caminhos que a massa deve preencher para atingir o desenho final da viga, pilar, laje, ou o que quer que a estrutura e formato da forma lhe proponha.

Como o concreto ainda liquido em uma forma, precisamos nos moldar aos eventos, as suas peculiaridades e todas as demais variáveis e congruências apresentadas. Entretanto, pense em um evento de quadrinhos como a vida (que metáfora infeliz); viver é lidar com dilemas, angústias, acertos, preocupações financeira, se ajustar ao novo emprego, a um remédio ou o quer que seja. Viver é se adaptar as vontades do mundo, independente do que queira.

“Nossa, achei que seria um post sobre a CCXP 2019?”

Será a partir de agora; o evento foi incrível – claro que pra mim –, afinal esse é meu blog e vou discorrer sobre meus dias na convenção.

Participo da CCXP desde a primeira edição e lá, em 2014, não fazia ideia do que viria a ser tudo aquilo. Se bem me lembro, a primeira não deve ter ocupado 1/3 do pavilhão do SP EXPO, é já era algo praticamente surreal. Em 2019, 5 anos após a primeira edição, vendi todos os 200 exemplares do meu lançamento Grand Prix Metanoia, e que acabaram logo no domingo pela manhã. Vendi também alguns exemplares dos meus quadrinhos antigos, mas bem menos, afinal as tiragens estão se esgotando e isso indica que o alcance desses trabalhos chegou onde tinha de chegar.

Li muitas críticas ao Artists’ Alley publicadas por alguns e algumas quadrinistas em suas contas do Twitter ou Facebook. Penso que estar na CCXP, especialmente no lindo e aconchegante espaço reservado aos artistas, não tem nada haver com vínculos empregatícios, CLT, obrigatoriedades dos organizadores e tantas outras coisas que vi, li e agora me exponho.

Sou um expositor que foi selecionado para ter a oportunidade de alugar uma mesa do evento para vender minha produção de quadrinhos, prints, fazer sketchcovers e sketches. Depois dos 5 (cinco) dias de evento, tenho a obrigação de devolver a mesa com as mesmas condições que encontrei (vide informações no manual do expositor), entretanto com uma grande diferença: com algum dinheiro no bolso, além de ter feito novos contatos (cada vez menos pois não tenho conseguido sair da mesa), encontrando amigos (cada vez menos pelo mesmo motivo), colegas, camaradas que sempre passam pelo cantinho para prestigiar meu trabalho e sempre ver se tenho algo novo.

Confessemos: neste aspecto, a CCXP é imbatível.

Poderia terminar meu post por aqui, mas agora vem a parte da sala VIP. Ah, a sala VIP, quem me dera tê-la todos dos dias do evento. Foi bom enquanto durou, mesmo que por engano, foi bom, afinal tudo tem um fim, assim como a vida (novamente uso a infeliz comparação).

Como preciso de regras para ficar mentalmente bem em em eventos, usava a sala VIP três vezes ao dia:

1. Logo que chegava: ali tomava um café, sentava, refletia como seria meu dia, definia uma meta aproximada de vendas, respirava fundo e descia para começar a trabalhar;
2. Próximo das 15h: era hora de comer uns dois ou três lanches, tomar um copo de água, novamente um copinho de café e sentava por alguns minutos naquele oásis de silêncio. Eram de 10 a 15 minutos que me recarregavam para voltar para a mesa;
3. Próximo das 19h: O mesmo ritual da minha segunda visita, porém sem o café, mas com suco. Dois copos.

Nesta mesma sala VIP tive a oportunidade de, logo no primeiro uso do dia, encontrar o Frank Quitely junto de seus dois filhos. Neste dia minha esposa chegou para me ajudar no evento então estávamos somente nós quatro na sala. Tomei um café, falei para minha esposa quem era o camarada, até que, antes de sair, decidir tentar conversar com ele. Geralmente, em 99% desses furtivos encontros, não costumo fazer isso por timidez, para reservar a privacidade do artista que não estava ali para atender um admirador, mas passando alguns momentos com os filhos e também, por não ter esse hábito.

Mas enfim, fui. O Frank Quitely foi extremamente atencioso assim como seus filhos. Meu inglês, que não é fluente, mas razoável para aquele tipo de encontro, deu uma bela travada por conta mesmo da minha timidez exagerada. Sei que para muitos posso não parecer tímido, mas realmente sou e isso é algo que preciso trabalhar pois sei que, por vezes, perco oportunidades por essa peculiaridade.

A Comic Con Experience é isso. Uma convenção gigantesca, onde o local reservado para os artistas tem destaque no mapa e planta baixa, com um valor de aluguel de mesa adequado e compatível para os 5 dias de eventos (contado com a Spoiler Night), pois, se fizer uma divisão simples, perceberá que o aluguel da mesa fica em R$ 180,00 por dia. Aliás, devo destacar que para esse valor conto com o apoio cultural da Mondrian Ambiente, aqui de Araraquara.

É um evento extremamente cansativo? Sim, muito, mas e aí, né? Se eu trabalhasse como segurança da CCXP, seria cansativo, como alguém do staff? Cansativo. Se apenas fosse visitar a convenção durante, pelo menos, dois dias, seria estafante.

Como já tive empregos com carteira registrada, dentro da CLT, com benefícios e gratificações, entendo onde estou e sempre que alguma coisa me derruba, ou pensamentos negativos me atropelam, me deixam triste ou mesmo, insatisfeito com o que faço, auto proponho um exercício de relembrar que antes e – reforço – para mim, meu trabalho passado era muito mais sofrido.

Aproveito o ensejo para agradecer aos apoiadores culturais que propiciam minha ida para a CCXP e que são a escola PUERI DOMUS Araraquara e a Mondrian Ambiente. Muito obrigado a minha inestimável professora de língua portuguesa, Mônica e a querida amiga Teresa.

É praticamente certo que em 2020 uma nova CCXP se instalará e tentarei estar entre os artistas que compõem o Artists’ Alley. Se conseguirei? Ainda não sei, mas sempre tento, afinal, a vida só tem sentido quando eu instauro isso para ela.

Neste momento, sou um artista que faz histórias em quadrinhos e ilustrações. Até quando? Juro que não preocupo com isso.

Um abraço.

Luciano Salles.

2 respostas
  1. Alexandre
    Alexandre says:

    Uma bela reflexão sobre o evento.

    A CCXP pode ser resumida como um evento de oportunidades, no que tange não só no sentido monetário (vender quadrinhos, commissions, prints etc), como comercialmente, pois é possível conhecer novas pessoas, talvez estabelecer novos contatos comerciais, conhecer editores etc.

    E como toda a oportunidade, devemos abraçá-la da melhor forma possível, já que ser escolhido para está no evento, já é uma honra por si só.

    E um evento grande como esse, que nessa edição teve um público de quase 280 mil pessoas em toda a sua duração, é praticamente impossível oferecer uma estrutura diferenciada para os expositores, talvez estabelecer uma parceira com uma empresa de água para dar garrafinhas d’água para os artistas já seja algo muito bom (em uma edição passada, o Artist’s Alley foi patrocinado por uma empresa de refrigerante, que eu não me lembro o nome agora).

    E no final, o artista nacional tem que está mais que feliz de ter um espaço privilegiado (literalmente no centro do evento) no maior evento da américa latina, e esse espaço tem que ser usado para ajudar a crescer o quadrinho nacional.

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