Contardo Calligaris

Desenho em homenagem ao Contardo a pedido da Folha.
A ideia da linda homenagem foi da minha editora, Thea.

Ontem, com o falecimento do colega e amigo Contardo Calligaris, encerrou-se nossa parceria de exatos 2 anos de publicação semanal de sua coluna, sempre às quintas-feiras, no jornal Folha de S.Paulo.

Em seus textos, escrevia como um grande deslocamento de terra, quando, tecnicamente, aquilo que era solo fixo desliza e apresenta o comportamento de um líquido denso e viscoso que perfaz seu caminho abrindo o que precisar ser aberto.

Cabia a mim, através do desenho, da minha arte, tentar acompanhar o fluxo que emanava das entrelinhas. Cabia a mim, entre palavras ligadas por espaços, pinçar algo digno de tamanha eloquência.

Em abril de 2019, assim que oficialmente firmada nossa parceria, Contardo me ligou. Eu só ouvia o que ele dizia até que, entres tantos sins da minha parte, marcamos um café. Já por WhatsApp, ele me convidou para tomarmos o café em sua casa. De imediato respondi que não, preferia um local aberto e ele prontamente perguntou sobre o café da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional.

Um capuccino para ele, uma xícara de café de pra mim e uma conversa para muito além de duas horas. Uma afinidade imediata aconteceu ali.

O textos chegavam, conversas por mensagens ou mesmo e-mail, onde, por vezes, o título da correspondência já era o corpo do assunto.

Tínhamos planos para depois da vacinas. Entre estes, queria me mostrar sua coleção de desenhos originais japoneses do período Edo, especificamente da corrente artística conhecida como Shunga.

Há poucas semanas, o texto que sempre vinha no dia e hora certa, não pingou no meu e-mail. Fiquei esperando e pouco dormi naquela noite, atualizando a caixa de entrada.

Mesmo sem direção alguma pelas linhas que estaria lendo, fiz um desenho para ser publicado na esperança de que, ao chegar o texto da coluna, a ilustração feita as cegas, de certa forma, se encaixasse.

Esta foi a última ilustração que fiz para um texto do Contardo que nunca chegou.
Última ilustração que fiz para um texto do Contardo
que nunca chegou.

Foi uma honra, um privilégio trabalhar ao seu lado, Contardo.

O que mais tenho a dizer? Acho que posso confirmar que você sempre esteve à altura.

Do seu camarada,

Luciano Salles.

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