Dissecando a ideia do meu quadrinho L'Amour: 12 oz

Capa de L'Amour: 12 oz de Luciano Salles. Cores por
Marcelo Maiolo
Olá, como vai?

Pode parecer estranho que eu, como autor, faça uma postagem para esmiuçar uma história em quadrinhos que escrevi e desenhei em 2014. Faço por vários pedidos que recebi nesse intervalo de quase seis anos desde a publicação e por ter recebido novamente essa solicitação, mas para escrever aqui no blog.

Algumas coisas já comentei em entrevistas e por isso mesmo, posso soar redundante. Minha intenção não será explicar a obra – outra demanda para que sou solicitado –; é claro que não farei isso!

Porém, acho que posso trazer pormenores que agrade quem aprecie essa história em quadrinhos, que tem por premissa básica duas histórias de amor que acontecem ao mesmo tempo 1) de um antigo pugilista e seu moribundo marido, 2) ao mesmo tempo que é narrado o início de uma outra história de amor que acontece com sua neta (isso não é spoiler apesar de muitos leitores não perceberem esses fatos).

A origem de L'Amour: 12 oz (lê-se L'Amour, doze onças)
Como sempre acontece, o ato de observar (pra mim) é a fagulha para criar uma história (ou mesmo um desenho qualquer) e em L'Amour: 12 oz não foi diferente; uma xícara de café quente foi fundamental para conceber todo conceito que a trama carrega.

Devia ser perto das 5 horas da manhã, já havia tomado meu banho matinal (penso que seria muito mais fácil fazer isso gravando um vídeo do que digitando) e estava na cozinha passando o primeiro café para começar o dia. Até então, tudo estava rotineiramente ordenado e sincronizado com meu ritual que precede o começar a trabalhar. Me servi de uma xícara dupla (sem açúcar) e fui para o estúdio. 

L'Amour: 12 oz de Luciano Salles
Sentei na mesa onde trabalho e meu olhar se fixou na xícara com o líquido escuro que ainda devia estar perto de uns 80ºC. Me peguei refletindo que eu gosto de tomar café naquela temperatura (bem quente); dou uma "bicadinha", vou tomando enquanto a temperatura vai diminuindo naturalmente de acordo com o passar do tempo. Mesmo depois de 15, 20 minutos, o café que ainda sobra já perdeu muita energia de seu calor para o ambiente, entretanto continuo gostando do café tanto quanto quando enchi minha xícara com ele.

O que relatei foi a ignição para a história de L'Amour: 12 oz. Independente de quanto tempo tenha passado do primeiro ao último gole, eu adoro café. Quente, morno, perdendo calor para o ambiente ou mesmo frio, ali está algo que me faz bem, alimenta minha alma; algo que gosto, adoro, que amo.

Percebeu que eu tinha um material rico o suficiente para contar uma história de amor?

A história e personagens
Ainda degustando e com a observação agora transformada em reflexão, comecei a montar a narrativa em cima de temperaturas opostas de uma boa e verdadeira xícara de café (sem açúcar). Como disse logo acima, amo ele quente e amo – de um modo diferente –, ele em outra temperatura, independente do trabalho entrópico.

As duas histórias de amor foram consequências naturais para o café super quente e bem mais frio, ou seja, o amor estava ali em dois momentos diferentes e não menos importantes. Os personagens, da mesma maneira, se moldaram a partir da passagem do tempo em relação à amplitude térmica.

L'Amour: 12 oz de Luciano Salles
O pugilista, seu marido, a neta do pugilista e seu pretendente (que corre durante todo desenrolar da narrativa), estavam em minhas mãos e eu sabia o que fazer. Eu queria o máximo da virilidade masculina e tinha no pugilista, queria o café frio, inerte, o último gole da xícara e tinha no esposo de ex-atleta, eu queria o café fervendo e tinha isso na neta conhecendo a possibilidade de amar e queria o tempo correndo, que serviu precisamente no pretendente vestido de tênis e meias altas.

Nenhum personagem possui nome. Essa foi uma opção narrativa pois não queria identificar nada e prol de justificar o sentimento ali trabalhado. Também não é revelado onde tudo ocorre, em que tempo e momentos.

A trama
Tendo tudo o que já possuía, o desenrolar da narrativa fluiu sabendo que tinha que observar em todas as páginas, o tempo cronológico ali cravado, visível, como que cronometrando o início e o final da leitura, afinal, tudo o que começa invariavelmente termina. O fato de existir um determinado fim, não significa a morte dos reais sentimentos envolvidos, e de certa forma, ainda existem em modulações diferentes.

L'Amour: 12 oz encontra-se esgotada. Foi publicada em 2014 pela editora MINO que a teve como debut de seus lançamentos.

Seu comentário é sempre muito bem-vindo e será respondido.

Um abraço.

Luciano Salles.

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