'O Autor que esconde': Resenha de L'Amour: 12 oz pelo Quadrinhos na Sarjeta.

Olá camarada, tudo certo?

L'Amour: 12 oz ainda continua conquistando resenhas. Fico extremamente satisfeito e honrado em ler textos sobre a HQ e ver que de certa forma, a revista tem a atingido o objetivo proposto.

Ontem saiu uma resenha muito interessante e bem escrita no site Quadrinhos na Sarjeta. O autor da resenha discute, no discorrer do texto, o termo 'quadrinhos de autor'. Convido você à leitura e para conhecer o site, que até então, confesso, não conhecia.

'O autor que esconde': Sobre L'Amour: 12 oz : Link direto para a resenha no Quadrinhos na Sarjeta.

Entretanto, com sempre faço, deixo o texto na integra para leitura aqui também.
Espero que goste do texto.
Um grande abraço!

Luciano Salles.

"O autor que esconde": sobre L'amour: 12 oz

Em 
Ano passado ocorreu a estreia da editora Mino no mercado de quadrinhos brasileiros. A aposta, segundo a própria editora, é “publicar quadrinhos autorais que possuam em comum uma personalidade marcante tanto de traço quanto de narrativa”. Ainda estou devendo ao QnS um texto mais aprofundado sobre o porquê das minhas ressalvas com esse selo chamado “quadrinho autoral”. Para ser direto: a autoria é uma invenção de gênero, um pouco diferente é verdade, mas ainda assim joga com convenções, categorizações e é cheia de clichês. Não podemos esquecer que a autoria, como hoje a entendemos, é algo sustentando pelo romantismo do século XIX, algo com o que as artes no século XX se degladiaram de diferentes formas, indo da morte do autor na literatura à política dos autores no cinema. 

Porém, esse é um outro papo. O que quero, neste momento, é analisar mais pontualmente como essa tradição da autoria aparece na primeira HQ publicada pela Mino: L’amour: 12 oz, de Luciano Salles. De certa forma, as pretensões dos quadrinhos autorais encontram em L’amour uma filiação bem clara, um sub-gênero desse gênero maior chamado de “arte autoral”.

A exemplo do que já ocorrera com sua HQ anterior, O Quarto Vivente, Luciano Salles joga com o enigma. O desenho é composto de fundos chapados, com pouquíssima perspectiva, sobrepostos de objetos e pessoas cheias de dobras, marcadamente em volta dos olhos dos personagens. Isso por si só já causa um efeito bastante peculiar. Porém, serve apenas de sustentação, atmosfera de estranhamento, para o enigma de L’amour: 12 oz que já começa pelo título. É a trama, ou melhor, a nossa dificuldade em assimilar o que está sendo tramado que Luciando Salles parece se divertir (e divertir quem gosta do trabalho dele). A extensa e cuidadosa análise de O Quarto Vivente por Paulo Cecconi, Lauro e Janaina de Luna Larsen (os dois últimos, editores da Mino) dá o tom da brincadeira que L’amour parece continuar. 

O que está em jogo? A nossa capacidade de montar quebra-cabeças. Isso se dá de muitas formas: existem os quadros insistentes em que nós nos perguntamos porque tal detalhe está sendo tão frisado (como no começo, nas pernas e meias estapafúrdias de um dos nossos boxeadores); tem também as séries de números que excessivamente acompanham os quadros, o que pode ser somente a hora do evento, mas pode ser também outra coisa; além das narrativas alternadas com os mesmos personagens em contextos distintos, fundos mutáveis, tempos diacrônicos, com ações que se completam páginas e páginas depois do seu intervalo. As cores de Marcelo Maiolo contribuem para essa atmosfera, gerando continuidade e corte, como na virada de página em que uma mesma ação muda de cor e linha de profundidade quando outro boxeador hesita em agredir o nosso protagonista.

De fato, é possível encher a boca para chamar de “história em quadrinhos autoral” o trabalho de Luciano Salles. E isso se dá justamente pelo o que há nele de respeito, de filiação formal a um gênero. Falo do simbolismo, da escola artística, filha direta do romantismo que fazia do enigma sua poética. O que um simbolista opera é a entrega de um signficante poderoso com um significado oculto. Esse significado só será revelado se você topar jogar - com quem? com o autor, o cara que está te convidando a mergulhar na sua obra e fazer dela uma arqueologia dos símbolos. Isso é algo bem diferente do surrealismo, por exemplo, onde o significado já está perdido de vez (e com isso, também o autor). O simbolismo, pelo contrário, faz do hermetismo a casa secreta onde o autor aguarda a chegada do leitor, isto é, se você, leitor, quiser ir até ele. Se você se recusar a partir nesse encontro, o jogo perde todo o sentido e a obra deixa de operar o que ela tanto se esforça em fazer. 

Isso não quer dizer que outras leituras não são possíveis em L’amour, porém quer me parecer que outras jornadas (como a surrealista que acabei de falar) tendem a delegar à HQ o estéril espaço do “cara, que loucura legal esse L’amour. Mas então, tu viu o novo trailer da Marvel e…”. Em resumo, o que quero dizer é que L’amour parece se completar somente se você o insere no gênero do quadrinho autoral, da HQ que traz, embutida em sua poética, o reconhecimento de um ator que diz “decifra-me ou te devoro”. 

Eu acho que matei parte do enigma ao final da leitura, mas a resposta pouco importa, É o processo que é caro ao simbolismo, é ele que sustenta o “ei, aqui existe um autor”. A pergunta - e provocação - que se pode fazer é: L’amour: 12 oz sobreviveria sem a presença simbólica de seu autor nos golpeando de mais e mais símbolos? Posto de outra forma, será que haveria luta simbólica na ausência desse ilustre oponente chamado de autor? É possível, mais daí acho que já não é mais boxe, e sim a solidão do alpinismo na leitura - mas esta é outra aventura. 

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L’amour: 12 oz saiu pela Mino em 2014, em excelente acabamento e cuidadosa edição.


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